Pedro Nuno Santos defende papel do Estado na economia e avisa que PS não se pode comportar como se tivesse maioria

Antigo dirigente da JS deu uma aula de uma hora aos jovens e defendeu que o partido deve investir no eleitorado do centro não deixando cair as políticas de esquerda mas vincando-as. “Não é com agressividade que vamos conseguir recuperar a colaboração com os outros partidos”, avisou, sobre PCP e Bloco.

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Francisco Romao Pereira

Foi como um regresso à escola onde já esteve sentado como aluno, mas agora na pele de professor: Pedro Nuno Santos, que liderou a Juventude Socialista entre 2004 e 2008, deu neste domingo uma “aula” de encerramento do ciclo de formação da JS em que deixou um extenso rol de temas que devem constar de um programa socialista futuro mas também várias críticas a medidas e atitudes do Governo de António Costa, que também integra como ministro das Infra-estruturas.

“Nós precisamos também de aprender a lidar também com os partidos à nossa esquerda: aprender a lidar é saber respeitar quando não concordam connosco, quando nos combatem, tentar perceber o que é que nos afasta”, começou por avisar Pedro Nuno Santos numa intervenção sobre os “desafios do socialismo democrático no século XXI”, integrada na formação “Socialismo: valores, identidade e futuro”.

“Não nos podemos comportar nem lidar com a governação como se tivéssemos maioria absoluta quando nós não temos”, vincou. “Não é com agressividade que vamos conseguir recuperar a colaboração com os outros partidos. É compreendendo-os, é percebendo o que os leva a afastar-se.” Quem o ouvisse não poderia deixar de se lembrar da forma como António Costa tem tratado o Bloco, por exemplo.

“Sem hesitação”, ainda que a haja de muitos dentro do partido, admitiu Pedro Nuno Santos, o PS deve procurar a governação “activamente com partidos que têm visões semelhantes em termos de valores e esse esforço deve ser feito com o Bloco e o PCP”, especificou. “Se quisermos combater a direita de forma perene temos que ser capazes de trabalhar à esquerda, compreender e aceitar as diferenças, e procurar encurtar caminho.”

Pouco antes, elogiara a “grande revolução” que foi a ‘geringonça’ de 2015. “Superámos bloqueios que vinham desde o início da democracia, do ponto de vista nacional, com o PCP e o Bloco. “Foi uma vitória importante que não pode ser um parêntesis na história do país, antes pelo contrário.” Lembrou que na Europa são já raros os países em que um partido governa sozinho e defendeu que o PS tem que se habituar a “trabalhar de forma mais perene com os partidos à sua esquerda, respeitando sempre as diferenças mas construindo terreno comum para governar”. Ou seja, “cooperar com a esquerda para aí, sim, competir com a direita”.

O também ministro vincou ser preciso perceber as razões para o afastamento dos cidadãos e dos eleitores e a sua opção por projectos extremistas ou populistas antes de os criticar e atacar. E tentar responder aos seus anseios concretos, vestindo a sua pele.

“A nossa condição muitas vezes faz-nos dar prioridade a temas e preocupações de futuro mas que estão muito distantes de uma grande parte da população e esta deixa de se sentir representada no discurso, nos programas, nas propostas e nas políticas. Sentem-se esquecidas e afastam-se de nós. Quando aparece alguém que aparentemente fala dos seus problemas, vai ser ouvido mesmo que a forma não seja a mais educada. E muitos vão seguir essas vozes.”

A resposta é ter políticas universais: “A universalidade é o instrumento que nos permite que as políticas não sejam apenas de alguns mas dirigidas a todos (...) para que todos sejam incluídos.” Por exemplo? Na educação, os manuais escolares devem ser gratuitos para todos, independentemente das condições financeiras; o acesso à saúde igualmente; as políticas públicas de habitação devem incluir a classe média - “dizem que é para os coitadinhos. Não. Só conseguiremos defender a nossa política de habitação quando conseguirmos ter a classe média a beneficiar dela.”

Apesar das críticas aos socialistas sobre a excessiva intervenção pública, Pedro Nuno Santos defendeu que o Estado é um “instrumento colectivo, da comunidade, para servir todos e dar liberdade a todos” e até foi buscar o exemplo da falta de serviço nacional de saúde nos Estados Unidos, uma economia ultraliberal, para mostrar o papel estatal na resposta à população. “A liberdade é conseguida quando a saúde é para todos e a escola é para todos”, vincou.

Ao centro, com políticas de esquerda

“Vamos ouvindo sistematicamente estrategas da nossa área política dizer que as eleições se ganham ao centro. Não nego isso. O erro de raciocínio é (..) dizer que temos que ceder no nosso programa, ou seja, movermo-nos da esquerda para a direita em direcção ao centro”, apontou o socialista. Para logo a seguir defender: “Não é deixando de ser de esquerda que se ganha o centro. O centro ganha-se mostrando a esse eleitorado que a resposta política do socialismo democrático é que a responde às dificuldades, anseios, problemas e desafios das sociedades contemporâneas.” E antecipando as críticas, afirmou: “Isto não é ser radical; é ser socialista.”

Pedro Nuno Santos não poupou nos elogios aos antigos companheiros da geringonça. “PCP e Bloco são fundamentais na construção dessa sociedade mais justa e mais solidária que queremos ter nos próximos anos.” Porque partilham com os socialistas da ideia de comunidade, de liberdade, de igualdade, de fraternidade, de que deve haver um Estado organizado e forte, foi elencando o dirigente do PS. E isso viu-se na lista de questões que elencou, e na argumentação que usou e em diversos casos nas soluções que defendeu, em muitos pontos divergentes de António Costa.

O antigo dirigente da JS deixou um conjunto de temas imprescindíveis num programa para o século XXI: dignificar o trabalho e quem trabalha (alterando a legislação laboral, algo que Costa tem recusado, e dando força ao movimento sindical); ampliar e reforçar os serviços públicos (SNS e educação, em especial no ensino superior); investir na habitação pública; repensar a resposta aos idosos (na política de lares); investir na rede pública de creches; alargar fontes de financiamento da Segurança Social e do sistema público de pensões através da contribuição pelo valor acrescentado das empresas (como propõem PCP e BE); repensar as deduções fiscais de IRS e IRC; reformular a redistribuição de rendimento e do trabalho (reduzindo o horário, por exemplo); promover o desenvolvimento da economia através de uma política ambiental e de transição climática (incluindo a troca de importação por produção nacional).

Pedro Nuno Santos deixou ainda um apelo aos jovens da JS: não esperem pelos 30 anos para fazerem política no PS. “A JS é até aos 30, mas o PS é a partir dos 18, não dos 30. Façam política e intervenção no PS a partir dos 18 anos.”