Adolescência sem mentiras

Na comunicação em família, os pais devem utilizar mensagens claras e inequívocas, evitando ambiguidades, mal-entendidos e confusões, baseando-se numa linguagem fundamentada, racional e convincente, construtiva e útil, adequada à idade dos filhos.

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Vasco Mata

Na sequência do nosso artigo anterior, hoje dedicaremos a nossa reflexão às razões que podem estar na origem dos adolescentes não mentirem aos pais. Acompanharemos três testemunhos de pessoas que, na sua adolescência, não mentiram aos pais, Clara (25 anos), Tomás (23 anos) e Catarina (23 anos).

Um dos fatores que podem contribuir para a ausência da mentira na relação entre adolescentes e pais é a uma comunicação positiva, construída no dia a dia.

Na comunicação em família, os pais devem utilizar mensagens claras e inequívocas, evitando ambiguidades, mal-entendidos e confusões, baseando-se numa linguagem fundamentada, racional e convincente, construtiva e útil, adequada à idade dos filhos, bem como procurar a compreensão dos motivos dos seus comportamentos, para encontrar pontos em comum acerca dos quais possamos chegar a acordo, pais e filhos.

Se os filhos se sentirem escutados e participarem na tomada de decisões, vão reconhecer que são respeitados e mostrar-se-ão igualmente respeitadores dos pais. Como refere Catarina: “Eu nunca senti a necessidade de mentir aos meus pais (...)”. Para educar de forma participada, os pais devem rejeitar modelos educativos demasiado rígidos e encorajar os filhos a exprimirem as suas opiniões e a proporem alternativas às suas decisões, o que não deve ser uma exceção: “(...) Sempre percebi que era uma exceção em relação aos meus amigos, o que me levou a tentar perceber o porquê de eles terem de mentir.”

Quanto mais conversarem com os filhos sobre as razões das regras de disciplina, maior é a probabilidade de os pais promoverem a sua capacidade de compreensão, autonomia e responsabilidade, evitando que inventem mentiras. Para isso, é fundamental que os pais fomentem o diálogo, de forma a que os filhos os vejam como parceiros na resolução dos seus problemas do seu dia a dia, e não tenham medo de os partilhar e o receio de serem castigados: “Eu cresci a aprender que se fizesse alguma coisa de mal o melhor era contar aos meus pais e eles iam ajudar-me a arranjar uma forma de resolver qualquer problema que tivesse criado, e, caso fosse errado, não me dariam um castigo descabido mas falávamos sobre os assuntos para eu perceber o que estava mal” (Catarina).

Quando, nas situações difíceis, sentem a segurança do suporte dos pais, os filhos partilham os assuntos com eles, sempre que julgam oportuno, quando estão em condições de o fazer, e não quando os pais decidem que assim tem de ser. Como também relata a Catarina, é mais vantajoso ser verdadeiro: “Uma vez numa festa bebi demasiado e precisei que me viessem buscar ou quando tive uma má nota (...) mentir nunca foi mais vantajoso do que contar a verdade.”

A comunicação verdadeira entre pais e filhos contribui para a construção de relações de confiança mútua. Os pais devem estabelecer uma relação de confiança com os filhos para que estes possam falar livremente sem necessidade de omitir ou mentir, como refere Clara: “Gosto de dizer que, como sempre tive uma relação de confiança com os meus pais, nunca tive de lhes mentir por necessidade, as poucas vezes que o fiz foi por rebeldia.”

Quando é necessário, os pais devem manifestar firmeza, segurança e exigência adequadas às capacidades reais dos filhos, sendo, contudo, flexíveis, tolerantes, compreensivos e claros: “Mas percebi que, se os pais estiverem abertos a ouvir tudo, os filhos vão contar tudo” (Clara).

Uma boa comunicação, um bom relacionamento entre pais e filhos, é fundamental para crescer com segurança, confiança e autonomia, como nos conta Clara: “Quando tinha 14 anos, fui sair à noite com autorização e fui apanhada pela polícia numa rusga, menti na minha idade e estava muito nervosa, mas liguei à minha mãe e contei o que aconteceu e veio logo buscar-me e correu tudo bem.”

Compete aos pais aceitar, respeitar e conhecer as idiossincrasias dos filhos, escolhendo o momento mais propício para as conversas, aproveitando os momentos de descontração e evitando as reuniões formais com “ordem de trabalhos anunciada”.

Para estarem presentes em cada fase do crescimento dos filhos, os pais têm de compreender as particularidades dos seus desafios, acompanhando e escutando-os, e procurar construir com eles uma relação com liberdade, com vista ao desenvolvimento da sua autonomia, mas dando-lhes proteção em situações que se revelem perigosas ou difíceis, como refere Tomás: “O fato de a minha mãe (...) me ter sempre dado liberdade de ser quem eu sou (...) Nunca ter necessidade de mentir, pelo contrário, de buscar ajuda para as coisas mais difíceis.” Nos momentos difíceis, em vez de censurar ou castigar, em vez de se distanciarem, os pais devem criar pontes de diálogo com os filhos, criando uma relação de proximidade.

É essencial os pais conhecerem bem os seus filhos, nos seus interesses e nas suas necessidades, nas suas reações, nos seus comportamentos, e respeitar o crescimento e as escolhas dos filhos, por vezes diferentes das deles, como nos escreve Tomás: “O fato de a minha mãe (...) aceitar levemente as minhas escolhas, mesmo as mais difíceis para ela de entender.”

Os pais devem também ser um modelo de partilha de verdades a seguir — “O fato de a minha mãe sempre me incentivar a dizer a verdade” (Tomás) —, numa presença afetiva, sendo coerentes e consistentes, de forma a promover comportamentos autênticos, em que os filhos se inspirem: “Sentir-me muito inspirado nas pessoas que ela e o meu pai são levou-me a nunca ter necessidade de mentir” (Tomás).