A mentira como defesa na adolescência

Os pais e os adultos podem mentir, talvez porque ninguém os tenha ajudado a não o fazer. Apoiar os jovens neste aspeto da sua vida é crucial para os ajudar a levar uma vida de verdade. E os pais têm nisso um papel determinante.

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Vasco Mata

Hoje falamos sobre a partilha de mentiras e omissões através do testemunho vivido de oito adolescentes porque, como temos referido, refletir sobre a realidade dos adolescentes implica pensar sobre as suas vidas, implica dar-lhes voz. Catarina (23 anos); João (23 anos); Clara (25 anos); Sara (24 anos); Inês (20 anos); Pedro (15 anos); Jorge (13 anos); e Miguel (22 anos), jovens adultos ou adolescentes que refletem sobre o seu passado ou o seu presente, são os nossos interlocutores.

Os pais e os adultos podem mentir, talvez porque ninguém os tenha ajudado a não o fazer. Apoiar os jovens neste aspeto da sua vida é crucial para os ajudar a levar uma vida de verdade. E os pais têm nisso um papel determinante.

As situações que levam os jovens a mentir são muito variadas. Estes testemunhos permitem identificar alguns dos principais conteúdos e razões da mentira durante a adolescência.

Muitas vezes, os filhos mentem ou omitem aos pais porque, em situações semelhantes, os pais reagiram mal, de uma forma crítica e exagerada. Por isso, quando a situação se repete, têm medo de que a resposta seja ainda mais violenta e escolhem a dissimulação ou o silêncio. Os filhos podem mentir, “porque os pais não as deixam fazer quase nada e como querem fazer preferem mentir” (Clara).

As mentiras em excesso podem ser interpretadas como uma fuga à realidade para agradar aos pais que têm expetativas demasiado altas em relação aos filhos, o que os leva a inventar uma mentira para não os dececionar: “O meu pai contava os seus feitos na faculdade, as boas notas e o reconhecimento. Fatores que penso terem contribuído ainda mais na missão de mentir ou omitir, não só nas notas como nas atitudes ou comportamentos menos bons” (Miguel).

Outro dos motivos para a mentir aos pais está relacionado com o medo de os desiludir com a verdade: “Eu acho que os jovens mentem aos pais porque se sentem inseguros com a verdade. E acham que ao mentirem podem encobrir a verdade e não serem ‘apanhados’” (Jorge). Ou como diz Inês: “Por saberem que os pais não vão gostar de ouvir a verdade, porque conhecem os pais e sabem o que é para eles certo ou errado.”

A mentira pode ser utilizada para prevenir os desgostos ou as preocupações desnecessárias dos pais: “Acho que pode ser por quererem evitar certas reações por parte dos pais (desilusão/discursos acerca de nós e da nossa educação/castigos/...)” (Inês); ou, como diz Sara, “as crianças mentem para não dececionar os pais ou para os impressionarem, para fugirem às suas responsabilidades, com medo de um possível castigo ou até mesmo para chamarem a atenção”.

Os adolescentes referem que ver os pais desapontados e cheios de tristeza perante um mau resultado na escola os leva, muitas vezes, a mentir. Miguel referiu isso mesmo: “Lembro-me que na altura quando tinha uma má nota sabia com certeza que o resultado era inteiramente minha culpa (...). E lembro-me do quão feliz os meus pais ficavam quando tinha uma boa nota (...). Talvez por isso tivesse medo de os desapontar, que não tivessem a mesma reação ou, pior, que ficassem tristes com o resultado.”

Mentir permite também reduzir a angústia de ter que contar a verdade. Leva os adolescentes a retardar o dar a notícia de um mau resultado ou mesmo a escondê-la: “Lembro-me de esconder os testes com suficiente ou menos dentro de capas de jogos e inventar desculpas para o teste ainda não ter chegado, ou dizer que tinha tido boa nota, mas deixado o teste na escola e esperar que eles esquecessem” (Miguel). Ou como referiu o Jorge: “Os meus pais perguntam-me se recebi mais testes e eu digo que não, sendo que é mentira.”

A adolescência é um processo íntimo, uma fase de descoberta e desafio que permite que os jovens desenvolvam a sua autonomia, como futuros adultos, criando um espaço muito próprio. Por isso, muitas vezes, os filhos adolescentes querem manter a sua privacidade, até por medo da reação dos pais às suas novas escolhas: “A mentira não funciona, na maioria das vezes, como uma forma de esconder atos perigosos, mas sim como uma forma de esconder elementos das suas vidas que podem causar uma reação de tristeza aos pais, tristeza essa maioritariamente derivada da realização de que os filhos crescem cada vez mais rápido” (João). A mentira pode ser sentida como um porto seguro, já que limita a “intromissão” que os pais podem ter na sua vida “Naturalmente, a mentira também existe para proteger a privacidade do jovem, que talvez ainda não se sinta confortável em partilhar certas partes da sua vida (...). Parece-me que as mentiras dos jovens raramente têm um fundo mau, são apenas medidas para evitarem partilhar aquilo que consideram privado” (João).

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Eva Delgado-Martins: "A adolescência é um processo íntimo, uma fase de descoberta e desafio que permite que os jovens desenvolvam a sua autonomia, como futuros adultos, criando um espaço muito próprio" Daniel Rocha

Mentir não é fácil, ao contrário, é um grande desafio para os adolescentes porque, perante a insegurança de terem mentido, se alguma coisa não corre bem, não podem pedir a ajuda aos pais: “Vou dormir a casa de uma amiga quando queremos ir sair à noite. Neste caso, se acontecer alguma coisa não posso ligar aos pais a pedir ajuda porque assim eles descobrem que menti” (Clara).

Face à descoberta da mentira, alguns pais reagem pelo castigo. Os castigos severos não só não funcionam como tendem a conduzir o adolescente a fugir da resolução dos problemas que o levaram a mentir. Como referiu a Catarina: “Cheguei à conclusão de que a mentira era sempre mais comum nos meus amigos que tinham os pais mais rigorosos, que proibiam mais comportamentos e castigavam mais.”

Quando os pais descobrem uma mentira, devem tentar falar com calma, ouvir com atenção, reagir de forma a, em conjunto, compreender os motivos que levaram os filhos a recorrer à mentira, encontrar soluções alternativas e objetivas, para que, em situações futuras, queiram usar a verdade. Um ambiente de escuta e a confiança entre pais e filhos ajudam a construir esta sinceridade, reduzindo a omissão ou falseamento da realidade.