Irlanda do Norte: grupos paramilitares lealistas suspendem apoio ao acordo de paz de 1998

Organizações paramilitares dizem que a sua oposição é “pacífica e democrática”, mas avisam que as tensões provocadas pelo acordo do “Brexit” não devem ser subestimadas.

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A carta das organizações paramilitares é um aviso ao Governo britânico e à União Europeia Reuters

O Governo britânico do primeiro-ministro Boris Johnson recebeu, esta quinta-feira, um primeiro aviso concreto sobre as possíveis consequências do acordo do “Brexit” para a situação na Irlanda do Norte, com o anúncio de que as organizações paramilitares lealistas suspenderam o apoio ao acordo de paz de 1998.

Numa carta enviada ao primeiro-ministro britânico, o Conselho das Comunidades Lealistas (que representa a Força Voluntária do Ulster, a Associação de Defesa do Ulster e o Comando da Mão Vermelha) garante que a sua oposição ao Protocolo da Irlanda do Norte/Irlanda, incluído nas negociações do “Brexit”, “é pacífica e democrática”.

Mas deixa um aviso em forma de apelo: “Por favor, não subestimem a força da convicção que toda a família unionista tem sobre este assunto.”

“Estamos preocupados com a disrupção das trocas comerciais entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido”, lê-se na carta, escrita por David Campbell, o presidente do Conselho das Comunidades Lealistas.

Mas as organizações paramilitares que defendem a união britânica dizem que o seu desacordo é mais profundo, e centra-se na acusação de que o Reino Unido, a República da Irlanda e a União Europeia violaram os seus compromissos com o acordo de paz de 1998.

Os grupos lealistas abandonaram a luta armada em 1998 e os episódios de violência que aconteceram desde essa altura são, em grande parte, da responsabilidade dos grupos nacionalistas dissidentes que se opõem ao histórico acordo de paz.

Esse acordo – conhecido como o Acordo de Sexta-feira Santa, assinado na Páscoa de 1998 – pôs fim a três décadas de violência entre os nacionalistas que lutam pela integração da Irlanda do Norte na República da Irlanda, e os lealistas que querem que a Irlanda do Norte continue a fazer parte do Reino Unido.

Desde a entrada em vigor do “Brexit”, a 1 de Janeiro de 2020, a Irlanda do Norte tem registado problemas com a importação de bens da ilha britânica – o que, para os lealistas/unionistas, é uma divisão inaceitável entre duas partes do Reino Unido.

Esta semana, o Governo de Boris Johnson decidiu estender o período de tolerância para os controlos fronteiriços na Irlanda do Norte, uma medida unilateral que levou a União Europeia a ameaçar uma resposta nos termos do acordo do “Brexit”.

Esta quinta-feira, o vice-primeiro-ministro da Irlanda, Leo Varadkar, acusou o Governo britânico de ter um comportamento “inaceitável”.

“Pela segunda vez nos últimos meses, o Governo britânico ameaçou violar a lei internacional”, disse Varadkar em declarações ao canal Virgin Media. “Sinceramente, isto não é o comportamento de um país respeitável.”