Até onde vai a hipocrisia dos media?

Que bom seria se as exigências dos responsáveis dos media para com a Google e o Facebook começassem dentro dos próprios media.

O tema não é novo, mas nas últimas semanas fez correr muita tinta. “O Parlamento da Austrália aprovou esta quinta-feira [25 de Fevereiro] uma lei que impõe à Google e ao Facebook o pagamento aos órgãos de comunicação australianos pela publicação dos seus conteúdos jornalísticos, a primeira legislação do mundo deste género”, poder ler-se na notícia. Por outras palavras, mesmo que o motor de busca mais poderoso do mundo e a rede social mais utilizada no mundo sejam os principais pontos de acesso às notícias, os media pretendem ser retribuídos por isso. Até aceito o argumento de que o jornalismo não se faz de graça, que tem custos e que também o público deve fazer parte da equação, comprando, subscrevendo ou apoiando (monetariamente). Já pelo facto de as grandes empresas tecnológicas gerarem grandes lucros por apresentarem nos seus resultados de pesquisa conteúdos jornalísticos, nem tanto.

Uma questão que levanto e sem sair do território nacional é: quantos media portugueses pagam a outros media pelos conteúdos que vão buscar às suas plataformas? Se já raramente assumem publicamente a fonte, quando vão picar estórias ao(s) vizinho(s) – veja-se o caso dos media nacionais em relação aos regionais – esperar-se-ia que fossem pagar a outros media? E até mesmo em relação à agência Lusa, que é uma fornecedora de serviços de informação aos media. Uma coisa são aqueles que pagam pelo uso, outra os que parasitam conteúdos (copiando de quem paga pelo serviço).

Também Jeff Jarvis, reconhecido jornalista norte-americano, recuperou recentemente este assunto, ao referir-se ao conteúdo partilhado por cidadãos e usado gratuitamente pelos media:

Na mesma linha, recupero um outro, já aqui abordado: o manifesto dos directores de órgãos de comunicação social de âmbito nacional que, numa posição colectiva, há cerca de um ano, reivindicaram que não se partilhem os seus jornais e revistas por e-mail ou WhatsApp. Pretendem retorno do seu trabalho e por isso são – e bem – contra a pirataria, por um lado, e contra a partilha gratuita dos seus conteúdos por parte dos gigantes da tecnologia, por outro. Já quanto a ressarcirem aqueles de cujos conteúdos beneficiam e que em boa medida actuam no mesmo sector que eles, “tá quieto”. Que tal começarem a olhar primeiro para dentro e a exigirem-se, antes de o fazerem em relação aos outros?

P.S.: Há um novo projecto a enriquecer o cenário mediático português. Chama-se Mensagem de Lisboa e compromete-se com o jornalismo local e em ambiente digital, de, para e com os lisboetas. Vem colmatar um vazio existente e que se prende com a falta de atenção dada pela generalidade dos media ditos nacionais àquilo que é local. A começar pela cidade onde quase todos eles têm sede e que dá nome ao novo projecto.