Maria Bethânia estreia-se em streaming para celebrar mais de 50 anos de carreira

Actuação da cantora brasileira é transmitida gratuitamente na plataforma Globoplay às 22h do Brasil (1h em Portugal). Concerto incluirá alguns sucessos e canções de Nocturno, álbum que será lançado este ano.

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Maria Bethânia vai fazer 75 anos em Junho Jorge Bispo

O dia 13 de Fevereiro traz muitas boas recordações para a cantora brasileira Maria Bethânia, nascida em Junho de 1946 em Santo Amaro, na Bahia. Essa foi a data em que, em 2016, a escola de samba do Morro da Mangueira, bairro do Rio de Janeiro com uma ligação íntima e histórica a esse género musical, ganhou o desfile de Carnaval das escolas de samba cariocas com o enredo Maria Bethânia: A Menina dos Olhos de Oyá, uma homenagem à “Rainha da Música Popular Brasileira (MPB)”, como é afectuosamente conhecida. Mas mais especial ainda continua a ser o dia 13 de Fevereiro de 1965, em que a irmã de Caetano Veloso substituiu pela primeira vez Nara Leão no elenco do Show Opinião, emblemático espectáculo de música e teatro que se tornou um dos principais documentos da música de intervenção brasileira na década de 1960, em pleno contexto de ditadura militar.

Este sábado, às 22h do Brasil (1h em Portugal), para celebrar esse que foi o seu grande bilhete de entrada na indústria das artes performativas e uma carreira que já leva mais de 50 anos, Maria Bethânia dá gratuitamente na plataforma Globoplay, a partir da Cidade das Artes, centro cultural do Rio de Janeiro, aquele que será o seu primeiro concerto em streamingÀ conversa com o jornal espanhol El País, adiantou desde logo que não incluirá no alinhamento Carcará, música que cantou no Show Opinião e que foi o seu primeiro sucesso, mas disse que vai interpretar “alguns êxitos e algumas canções do Nocturno”, disco que lançará nos próximos meses.

Um álbum que, para Maria Bethânia, não nasce em tom de resposta ao actual clima político do país que a viu nascer“Este Brasil não me inspira”, resume ao El País. “Ele continua a ser o mesmo, mas está adormecido, aterrorizado, doente e triste. Já não gosto de falar do Brasil. Dá-me vontade de chorar.”

Ainda assim, frisa a cantora, Nocturno não ignora as negligências e desigualdades sociais que diz continuarem a fazer parte do batimento cardíaco do país. Uma das suas faixas será uma versão do tema 2 de Junho, canção que Adriana Calcanhotto gravou em 2020 e que detalha a história verídica de um menino de cinco anos que morreu ao cair de um prédio luxuoso no Recife enquanto a sua mãe, uma empregada doméstica que continuou a trabalhar em contexto de pandemia, passeava o cão da patroa na calçada do condomínio.

“O Nocturno invoca uma sobriedade, uma calma, uma maturidade”, reflecte Maria Bethânia. “Mas é um disco de uma mulher de 74 anos, uma cantora brasileira, numa pandemia, com todas as angústias e especificidades que isso implica.”

A cantora conta ao El País que Boninho, director de televisão da Rede Globo, aconselhou-a a “falar muito” durante a apresentação desta madrugada e a evitar pausas longas e constrangedoras entre canções, uma vez que não vai haver público (e aplausos) na sala de espectáculos da Cidade das Artes. “Eu disse-lhe para ele ficar tranquilo, porque sou a cantora brasileira que melhor combina uma música com a seguinte, seja através de um texto ou uma introdução”, refere. “Odeio esses vazios, não gosto de dar espaço. Espero os aplausos, mas não conto com isso.”

“Será uma maneira nova de encontro com o público. Direi os poemas de que gosto, os meus pensamentos, cantarei as canções que falam sobre esses 56 anos de carreira e as minhas escolhas actuais”, avança Maria Bethânia ao portal de notícias brasileiro G1. “Vai ser quase como um ensaio, que é uma das partes de que mais gosto na minha carreira, porque proporciona com muita naturalidade momentos de descobertas e de amadurecimento do que apresento nos palcos”, destaca. A cantora está entusiasmada também porque o público vai poder conhecê-la “nesse ambiente fora de um espectáculo nos moldes” a que está habituada, moldes esses que envolvem “muita dramaturgia e uma relação intensa com a plateia”.