Maria Bethânia

Maria Bethânia: “O povo brasileiro sofre, sofre, e se mantém. E eu confio nele”

Maria Bethânia traz aos coliseus o seu mais recente espectáculo, Claros Breus, num momento em que a Amazónia arde e os breus do mundo se tornam mais nítidos. Sábado 14 no Porto e 18 e 19 em Lisboa

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Maria Bethânia fotografada para Claros Breus JORGE BISPO

O espectáculo Claros Breus, de Maria Bethânia, chega a Portugal depois de apenas seis apresentações no Brasil: quatro noites no Rio de Janeiro, em Julho, no Clube Manouche, que ela imaginou como “ensaios abertos”, e duas noites em São Paulo, em Agosto. Agora Claros Breus é apresentado nos coliseus, primeiro no do Porto (sábado, dia 14, às 21h30) e depois no de Lisboa, em duas noites consecutivas (dias 18 e 19, também às 21h30)

O nome tem uma palavra em comum com uma das canções inéditas do espectáculo, A flor encarnada, de Adriana Calcanhotto (“agora sou eu e meus breus”), mas não foi dela que surgiu, diz Maria Bethânia ao PÚBLICO: “Esse nome veio com a ideia do roteiro, quando o escrevi, com as canções escolhidas para o significado do meu pensamento actual. Porque cada espectáculo meu, eu falo o que penso, o que quero naquele momento dizer. Qual é o meu recado, o meu discurso, porque o palco é a única tribuna que tenho. Nesse sentido, é claros de claridade, mas também de nítidos breus, muito nítidos.”

Desta vez, Bethânia trabalhou com o maestro, compositor e arranjador brasileiro Letieres Leite, criador da Orkestra Rumpilezz. “O Letieres, baiano como eu, nos conhecemos há muito tempo e antes deste show tínhamos encerrado o disco de homenagem à Mangueira, que sai agora em Outubro. Eu quis o Letieres para fazer esse agradecimento à Mangueira, com uma sonoridade diferente, rítmica, com muita pulsação. Ele veio, fez o disco e eu fiquei deslumbrada com o trabalho dele.” Por isso o convidou para Claros Breus: “O espectáculo tem a dramaturgia dele, pelo roteiro e pela minha actuação cénica (sou a intérprete, sublinhei isso com muita nitidez), e ele também se afirma e me ajuda muito com a coisa rítmica, muito poderosa e muito voltada para o que eu queria: uma expressão de corpo, de pensamento e de sentimento, tudo junto.”

Energia para recomeçar​

O espectáculo junta canções inéditas a outras a que ela já conferiu o seu cunho inimitável (como Drama ou Sonho impossível), intercaladas com excertos de textos e poemas de Ferreira Gullar, Craveirinha ou Mário de Andrade. “Não consigo fazer um trabalho só repetindo canções de sucesso, preciso ter alguma coisa nova que me anime, que me dê energia para recomeçar. E isso vem das canções inéditas. Aqui temos várias: do Roque Ferreira, da Adriana Calcanhotto, do Chico César. E canções tradicionais no repertório de Chico, de Caetano, dos meus compositores mais próximos. E também de compositores que não tenho muito o costume de cantar, mas que volta e meia eu passo por eles: da velhíssima guarda, da velha guarda e da actual guarda.” Angela Ro Ro é um deles.

E há Sinhá, de Chico Buarque e João Bosco, um caso à parte: “Não é inédita, já foi gravada por Chico e pelo João, mas na minha voz é inédita. Para mim, é a música mais bonita dos últimos tempos. Chico só faz coisa linda, tem um talento fora do comum, mas Sinhá é fora do normal da genialidade até do Chico e do João Bosco. Foi um casamento deslumbrante, esse encontro dos dois, uma coisa mágica. E essa música, no meu roteiro, tem o lugar ideal, não poderia haver outra. É imprescindível. Ela é muito sofisticada, embora pareça simples, e acho que o maestro Letieres e a nova banda trabalharam essa música com muito rigor e o mesmo respeito que eu tenho por ela.”

Chico Buarque ouviu-a na estreia, no Rio. “O Chico foi assistir e eu quase morri. Num lugar só de 100 pessoas e o Chico ali coladinho no meu rosto, assim muito próximo, e eu cantando Sinhá! Uma ousadia, porque aquilo é uma ópera, uma tocata, uma cantata, sei lá, é uma obra-prima. Mas eu consegui fazer bem e ele gostou. Isso é que valeu.”

Um extermínio violento

Das inéditas, Bethânia recusa salientar uma. “Eu gosto de todas, senão não as botaria no roteiro.” Mas não resiste a descrever a particularidade de uma delas: “Há uma canção do Roque Ferreira, lá da Bahia, que se chama Música, música e que tem para mim uma novidade: é muito bem escrita, muito dramática e tem uma amplitude… É especial.”

Do Brasil, evita comentar a situação actual. “Não quero falar sobre política, não entendo política, não estudo política. Sei que política está em tudo, mas eu vejo de outra maneira.” Porém, já falou de tristeza para comentar os incêndios na Amazónia. E volta a fazê-lo: “A minha tristeza é muito grande. A palavra tristeza é uma coisa muito pesada para o Brasil, porque o Brasil levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Mas é profundamente triste o que está acontecendo na Amazónia, exterminar parte de uma floresta. Porque para revivê-la demora muitos anos. Não são arvoredinhos, arbustos, é uma floresta bem densa, que pega vários países. É uma coisa muito grave, junto com o pantanal. É um extermínio violento da natureza. Seja as árvores, os animais, seja pelo próprio homem, o seu ar, está tudo errado, tudo! O ‘volta por cima’ que eu digo é que o povo brasileiro sofre, sofre, sofre e se mantém. E eu confio nele, no povo brasileiro.”