Ir longe de mais ou fazer de menos? EUA debatem riscos do pacote de estímulos

Administração Biden prepara-se para conseguir fazer passar no Congresso um plano de estímulos orçamentais com uma escala inédita nas últimas crises. Economistas discutem se o risco de inflação pode regressar.

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Janet Yellen, secretária do Tesouro norte-americana Reuters/Jonathan Ernst

Com um pacote de estímulos de dimensão inédita nas últimas décadas, o novo Presidente, Joe Biden, pode estar mais perto de assegurar uma recuperação rápida da economia norte-americana já este ano. Mas alguns economistas, alguns deles com ligações ao Partido Democrata, começam a alertar para os riscos económicos e políticos que se correm se se estiver a ir longe de mais.

O debate promete dominar as atenções de economistas e decisores políticos nos próximos meses: o estímulo orçamental de 1,9 biliões de dólares que a Administração Biden se prepara para aprovar no Congresso tem tudo, acreditam os Democratas, para constituir um forte empurrão a uma economia que começa agora a recuperar de uma das maiores contracções da sua história, mas, às visões económicas tradicionalmente mais ortodoxas dos Republicanos, juntam-se agora também as dúvidas de outros economistas sobre se uma estratégia orçamental tão expansionista não poderá trazer consigo alguns efeitos negativos.

Nomes destacados, habitualmente alinhados com a política económica do Partido Democrata, como o ex-secretário do Tesouro de Bill Clinton, Lawrence Summers, têm vindo nos últimos dias a alertar para os potenciais efeitos inflacionistas e para o risco de criação de uma bolha nos mercados financeiros que um estímulo orçamental excessivo pode trazer à economia norte-americana.

“Existe a possibilidade de o estímulo macroeconómico, com uma dimensão próxima dos níveis da Segunda Guerra Mundial, vir a desencadear pressões inflacionistas de um tipo como já não vemos há uma geração. E eu receio que conter um surto inflacionista sem desencadear uma recessão possa ser mais difícil agora do que no passado”, escreveu o economista num artigo publicado no The Washington Post.

Por trás desta perspectiva, está o facto de o diferencial entre o PIB registado no quarto trimestre do ano passado e o PIB que poderia ter existido se não houvesse pandemia se situar, de acordo com as contas dos técnicos orçamentais do Congresso, em 665 mil milhões de euros e a Administração Biden se preparar para lançar um estímulo três vezes superior.

Summers e outros economistas temem também que a política expansionista leve à subida dos índices bolsistas para níveis insustentáveis e alertam para a possibilidade de um pacote demasiado ambicioso, agora, poder tornar ainda mais difícil politicamente aprovar futuras intervenções públicas na economia destinadas a fazer face aos desafios das alterações climáticas ou da digitalização da economia.

Do outro lado da barricada nesta discussão, Lawrence Summers tem uma adversária de peso. Janet Yellen, que nos últimos anos à frente da Reserva Federal tinha a tarefa de assegurar a estabilidade financeira e de preços, é agora a secretária do Tesouro da Administração Biden e não tem dúvidas que, neste momento, o risco de fazer de menos é bem mais grave do que o risco de fazer demais.

“Como secretária do Tesouro, tenho de me preocupar com todos os riscos que enfrenta a economia. E o risco mais importante é que deixemos os trabalhadores e as comunidades com cicatrizes provocadas pela pandemia e pelo custo económico que representa, o risco de não fazermos o suficiente para enfrentar a pandemia e as questões de saúde pública, o risco de não termos os nossos filhos na escola”, afirmou em entrevista à CNN, defendendo que existem instrumentos disponíveis para fazer face a um cenário de subida da inflação.

Neste momento, tal como tem acontecido ao longo dos últimos anos, um cenário de escalada da inflação não está ainda a ser previsto pelos mercados. O valor implícito nas transacções de títulos de dívida norte-americanos para a taxa de inflação média dos próximos dez anos é ainda de 2,2%, um valor moderado que não aponta, apesar de ter subido nos últimos meses, para um regresso perigoso das pressões inflacionistas na economia.

O sucessor de Janet Yellen à frente da Reserva Federal também não tem manifestado preocupações significativas, quer em relação ao risco de escalada da taxa de inflação, quer à possibilidade de criação de uma bolha especulativa nos mercados financeiros, mantendo as taxas de juro a níveis historicamente baixos.

Para já, uma coisa parece certa: a economia norte-americana, com um défice que pode ter chegado em 2020 aos 17% do PIB, de acordo com as previsões do FMI, e com uma dívida a superar os 100% do PIB, deverá voltar aos níveis pré-crise com pelo menos um ano de antecedência em relação à da zona euro, onde diversos países têm optado por planos de estímulo orçamental mais modestos, que contribuem para défice menos altos e recuperações da actividade económica mais lentas.