Sozinhos, de máscara, em casa

Preparamos os pratos de que ele gosta porque, à falta de beijos e abraços, nada melhor do que sentir o estômago aconchegado. A avó manda biscoitos, a irmã faz bolos. “Ainda bem que não perdeu o cheiro e o paladar.”

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"Desde o início do ano que está fechado. Falta-lhe a rua, a conversa cara a cara, as rotinas diárias" Noah Silliman/Unsplash

E, de repente, apesar de todos os cuidados com quem nos cruzamos, sempre a mudar de passeio ou a caminhar na berma da estrada para cumprir os dois metros; de sermos criteriosos na selecção dos que connosco respiram o mesmo ar, o vírus entrou-nos em casa. Um resultado positivo e o medo do que isso significa numa altura em que Portugal tem os piores números por causa da pandemia.

Primeiro, desvalorizamos e pesamos tudo racionalmente: trata-se de um jovem saudável, activo, atleta, com uma alimentação equilibrada. Vai ter azar, esse vírus, brincamos. Mas depois a angústia invade-nos: “E se…” A febre é baixa, mas as dores de cabeça são fortes. Começamos a dar mais importância àquelas notícias que nos falam das sequelas da doença ou dos jovens que já morreram vítimas da covid-19.

Sacudimos a cabeça para expulsar esses pensamentos e concentramo-nos no quão saudável é o nosso filho. Ainda pensamos, “vamos lá contribuir para a imunidade de grupo, aproveitamos e ficamos todos infectados, passamos por isto e ficamos livres”. Mas veio uma voz avisada que, do alto dos seus lúcidos 80 anos, nos aconselha a ter juízo. Diz a matriarca da família que o melhor é mantermo-nos à distância. Obedecemos.

A avó mobiliza a família, telefona aos tios e aos primos para que ninguém se esqueça do “menino”, que lhe liguem pois está fechado e isso não faz bem a ninguém. Diariamente, a avó telefona e tem sempre histórias para lhe contar, as que a sua mãe lhe contava ou então das coisas que vê na televisão, das novidades da família, e termina com recomendações, que estude, que leia, que faça exercício, que não passe demasiado tempo em frente dos ecrãs.

Imbuídos no mesmo espírito, repetimos-lhe o gesto e ligamos aos amigos, uns mostram preocupação, outros partilham experiências próximas — são cada vez mais próximas, nunca o imaginamos, confessamos —, outros desvalorizam para nos descansar, e há mesmo quem pareça mostrar algum desinteresse que não é mais do que o medo que têm que lhes aconteça também a eles.

Preparamos os pratos de que ele gosta porque, à falta de beijos e abraços, nada melhor do que sentir o estômago aconchegado. A avó manda biscoitos, a irmã faz bolos. “Ainda bem que não perdeu o cheiro e o paladar”, comentamos. Dez dias e depois de um novo teste a acusar que o vírus continua activo, acumula mais dez dias de isolamento. Desde o início do ano que está fechado. Falta-lhe a rua, a conversa cara a cara, as rotinas diárias.

Até que chega a alta. Agora, não se repete o teste, diz a médica de família ao telefone, há a confiança de que o bicho se foi embora ou que terá menos força para infectar, é preciso continuar a ter cuidado, recomenda. Ao longo dos 20 dias tudo funcionou bem, os telefonemas, as SMS informativas, as idas à rua para fazer os testes. Não há uma queixa a fazer. De máscara posta, a porta abre-se, reencontramo-nos e fazemos uma festa para marcar o regresso ao mundo dos não infectados. Uma vintena de dias depois de termos entrado em 2021, decidimos fazer um almoço de ano novo, de máscara até os pratos chegarem à mesa.

Temos medo, continuamos a ter medo da infecção. Andamos de máscara pela casa, tiramos quando ele vira costas — é um suplício não ver no ecrã o que teclo furiosamente antes de os óculos ficarem embaciados —, pomo-la atabalhoadamente quando ele se aproxima. Mas as saudades fazem-nos abraçá-lo pelas costas, dar-lhe beijos de máscara posta, convencidos de que assim enganamos o vírus. Limpamos tudo à sua passagem com um produto que garante ter eficácia contra os coronavírus. Contudo, sentados à mesa, transformamo-nos numa daquelas famílias italianas que gritam furiosas e, ao mesmo tempo, riem desbragadamente, e esquecemos que sabemos como se espalha o vírus num espaço fechado

Interiorizamos um “que se lixe”, porque apesar de o vírus nos ter virado a vida do avesso, não podemos deixá-lo dominar por completo as nossas acções. Este bicho que nos fecha em casa não nos pode fechar os corações.