Fernando Medina e a câmara dos livros perdidos

É o capítulo mais recente de uma série com oito meses: agora, o objectivo é que os livros prometidos às crianças lhes cheguem às mãos no reinício das aulas.

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Em princípio serão as escolas a comprar os livros para oferecer aos alunos Nuno Ferreira Santos

Era uma vez uma proposta para oferecer livros às crianças de Lisboa que tardava em sair do papel. Surgira por alturas do Dia da Criança de 2020, arrastara-se com a garantia de que seria cumprida até ao Natal, mas oito meses tinham passado desde a sua aprovação e o assunto continuava preso em burocracia e a saltitar entre gabinetes.

Foi então que o presidente da câmara decidiu pedir satisfações e determinou novo prazo para a sua concretização.

A personagem que tivera a ideia, a vereadora do CDS Assunção Cristas, voltara a questionar o executivo PS/BE sobre o assunto. O vereador bloquista, com o pelouro da Educação, justificou o atraso com a necessidade de cumprir as regras da contratação pública. “Isto para mim tem sido importantíssimo”, disse Manuel Grilo.

Fernando Medina, escondido da plateia naquele momento, ligou a câmara do computador e surgiu na plataforma Teams onde a reunião se realizava. Num tom melífluo, observou: “Como já reparou, este assunto está a tornar-se embaraçoso. Isto não tem nada de extraordinário, é fazermos chegar um livro a cada criança.”

Grilo retorquiu, pondo ênfase nas palavras: “São cerca de 200 mil euros, temos de ter algum cuidado como utilizamos o dinheiro.”

Sem abandonar o sorriso ligeiro e continuando no tom que antes usara, o presidente passou um raspanete: “Não tinha havido já a decisão de fazer a transferência para cada escola para que fizessem a aquisição de um livro do Plano Nacional de Leitura?”

“Sim”, respondeu Manuel Grilo. “O que algumas escolas nos disseram foi que estavam com dificuldade em operacionalizar”, justificou. E Medina tornou, como se convencesse um filho a comer a sopa toda: “Vá lá, faça um esforço. É mesmo por causa do embaraço.”

Entre risadas da assistência, o autarca sugeriu que o livro fosse entregue às crianças no dia em que regressassem às aulas, no fim do actual período de férias forçadas. “O senhor vereador e a sua equipa têm sido bastante criativos em matéria de contratação pública, neste caso não é preciso tanta criatividade. Até eu sei resolver o problema”, rematou Medina.

E Manuel Grilo anuiu, confiante: “A entrega dos livros será com certeza no primeiro dia do regresso ao ensino presencial.”

Este prazo será cumprido? São cenas para os próximos capítulos.