Batom vermelho: “Não nos estamos a agarrar a um pormenor fútil”

Para as especialistas, o insulto do líder do partido de extrema-direita à maquilhagem de Marisa Matias é apenas o levantar do véu para futuros ataques a “conquistas das mulheres nos últimos 40 anos”.

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“Quando se começa por atacar a questão do batom, não tenhamos dúvida que depois vão ser atacadas outras conquistas das mulheres nos últimos 40 anos”, alerta a jornalista Maria João Martins. LUSA/Fernando Veludo

Antes do 25 de Abril, Maria Lamas foi duramente criticada por ir ao teatro de vestido vermelho. Durante um comício da campanha das Presidenciais 2021, o candidato do partido de extrema-direita insultou “os lábios muito vermelhos” de Marisa Matias. Depressa as redes sociais se encheram da hashtag #VermelhoemBelem como forma de protesto. Uma semana depois, as especialistas em moda e estudos de género ouvidas pelo PÚBLICO consideram que “não nos estamos a agarrar a um pormenor fútil” e que o episódio não deve ser esquecido.

Na revista da Mocidade Portuguesa, do Estado Novo, era frequente surgirem artigos sobre como uma “mulher honrada” se deveria vestir, conta Maria João Martins, jornalista e docente de História Social da Moda na Universidade Carlos III, em Madrid. Além de recomendar o que devia vestir a mulher — roupas discretas, que não deveriam ser justas, nem coloridas — a revista do regime também sugeria que o batom vermelho “não era adequado”.

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Juliana Malta/Unsplash

O vermelho era associado pelo regime às prostitutas, “a mulheres diabólicas e arrojadas”, diz por seu lado Manuela Tavares, membro da direcção da União de Mulheres, Alternativa e Resposta (UMAR ), uma associação de defesa dos direitos das mulheres, e investigadora no Centro Interdisciplinar de Estudos do Género no ISCSP, em Lisboa. A “aversão” a esta cor tem, explica a especialista, uma “conotação de raiz fascizante e conservadora”.

Maria João Martins recorda que nas ditaduras de inspiração católica, a tentativa de “interferir na relação com o corpo”, sobretudo das mulheres, “é ainda mais acentuada”. Ainda que nem todas as mulheres fossem directamente censuradas pela sua maneira de vestir e maquilhar, tinham “medo de ser faladas”. Apenas “mulheres subversivas”, como, por exemplo, Natália Correia, usavam batom vermelho.

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A escritora e poeta Natália Correia (1923-1993) DR

Ódio contra as mulheres

Nos anos 1960 com os movimentos feministas em Portugal tudo muda e as estudantes do ensino superior começam a usar maquilhagem e a vestir calças. “O batom vermelho é uma declaração de independência e de poder sobre o próprio corpo”, analisa Maria João Martins. Porquê? Porque “nada tem a ver com o rosa”, a cor tipicamente associada às mulheres, destaca, por sua vez, Manuela Tavares. “O vermelho assumiu este significado simbólico, das mulheres e da sua luta contra o conservadorismo”, salienta a investigadora.

Para as especialistas, o ataque do líder do partido da extrema-direita ao batom vermelho de Marisa Matias é apenas levantar o véu. “Quando se começa por atacar a questão do batom, não tenhamos dúvida que depois vão ser atacadas outras conquistas das mulheres nos últimos 40 anos”, alerta Maria João Martins, que acredita o que ataque do líder do Chega foi “instintivo”, por Marisa Matias “ter poder sobre o próprio corpo”. A investigadora Manuela Tavares acredita que “todo ódio que ele [Ventura] tem dentro de si, também se expressa contra as mulheres”.

A moda é uma “representação dos quadros sociais de cada época” e “diz muito” sobre a sociedade, assegura a especialista em História Social da Moda, que alerta que não nos estamos “a agarrar a um pormenor fútil”. A jornalista conta que quando foi votar antecipadamente, no passado domingo, levou uma pregadeira com um batom vermelho e apela que “mesmo quem não vota na Marisa, tem de estar solidário com esta posição”. “É um ataque às nossas liberdades”, conclui.