Ordem abre processo disciplinar a médica que terá dado conselhos para ludibriar testes à covid-19

Anestesiologista e fundadora do movimento Médicos pela Verdade já tem um outro processo disciplinar a correr. Ao todo há sete médicos do grupo visados em três processos disciplinares que estão a correr no Conselho Disciplinar Regional do Sul. No Norte há um outro caso de difusão de informação sem base científica relacionado com o novo coronavírus.

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O uso de máscaras por crianças durante as aulas é considerado "altamente nocivo" pelos Médicos pela Verdade Daniel Rocha

O Conselho Disciplinar Regional do Sul da Ordem dos Médicos (OM) decidiu esta terça-feira à tarde abrir um terceiro processo disciplinar a elementos do movimento Médicos pela Verdade, grupo que contesta a eficácia do uso generalizado de máscaras para prevenção do novo coronavírus e a validade dos testes moleculares (conhecidos pela sigla PCR) para detectar o SARS-CoV-2 . 

Em causa neste último caso está uma série de mensagens trocadas na aplicação Telegram, noticiadas pelo jornal Observadorem que uma anestesiologista e co-fundadora do movimento terá dado conselhos sobre como ludibriar os testes à covid-19.

Fonte do Conselho Disciplinar Regional do Sul adiantou ao PÚBLICO que a OM recebeu diversas queixas relacionadas com este último episódio, tanto apresentadas por médicos como por cidadãos. Na reunião desta terça-feira foi decidida a abertura de um novo processo disciplinar à anestesiologista envolvida neste caso. 

Algumas pessoas terão procurado ajuda da médica para tentar obter resultados negativos em testes para detectar o novo coronavírus e a especialista terá dado vários conselhos para eliminar “todos os restos virais” das fossas nasais e da garganta, onde são recolhidas as amostras através das zaragatoas. A anestesiologista terá recomendado uma limpeza constante dessas áreas, “alimentos frescos e variados com muita fruta e legumes”, jejum antes do exame e repouso, entre outras “ajudas”.

O PÚBLICO tentou contactar a médica, sem sucesso, através do e-mail do movimento.

Ao que o PÚBLICO apurou até esta terça-feira existiam dois processos disciplinares a correr no conselho regional do Sul da OM relacionados com elementos do movimento Médicos pela Verdade. Um envolve sete clínicos incluindo Gabriel Branco, director do serviço de Neurorradiologia do Hospital Egas Moniz e um dos fundadores do grupo, e a tal anestesiologista. O outro só visa Gabriel Branco e está relacionado com o facto deste alegadamente não usar máscara em algumas zonas do Hospital Egas Moniz. Estes dois processos disciplinares estão quase a terminar as diligências de instrução, devendo a primeira decisão ser tomada num plenário do órgão em breve.

"Exagero nas medidas implementadas"

Na sua página da Internet, o movimento fala de uma “enorme desproporção entre o mediatismo do fenómeno e a gravidade” da covid-19. “Não negamos que se trata de uma virose respiratória com repercussões pulmonares que podem ser muito graves nos pacientes com imunidade deprimida, doenças pré-existentes ou idade muito avançada”, referem, mas contestam o "exagero nas medidas implementadas, com obrigatoriedade do uso de máscaras na população, sobretudo em crianças durante todo o tempo em que permanecem na escola”, o que dizem ser altamente nocivo. Alertam ainda para “as terríveis discrepâncias que existem entre a gravidade actual da covid-19 e as medidas que estão a ser implementadas e sobretudo para a ausência de resposta do nosso SNS para todas as outras patologias”. 

O médico Gabriel Branco confirmou ao PÚBLICO, em meados de Outubro, que alguns dos médicos que pertencem ao movimento, incluindo ele próprio, foram alvo da abertura de um processo disciplinar. “Há uma perseguição a quem quer emitir a sua opinião de forma livre e documentada. Apenas manifestámos a nossa opinião, que discorda do discurso oficial”, reagiu Gabriel Branco sobre as decisões da Ordem dos Médicos. O grupo, fundado em Agosto, junta médicos de várias especialidades, mas também dentistas, enfermeiros e psicólogos.

Nenhum dos dois restantes conselhos disciplinares, o do Norte e o do Centro, abriram processos relacionados com este movimento. No entanto, o Conselho Disciplinar Regional do Norte tem a correr um processo disciplinar contra um médico que num artigo de opinião de um jornal desportivo defendeu os benefícios da vitamina C no combate e prevenção da covid-19. O facto de se tratar de uma informação sem base científica levou o conselho a abrir um processo disciplinar, que já terminou a fase de instrução. O órgão disciplinar da OM avançou com uma acusação e uma proposta de sanção, que não foi aceite pelo clínico que solicitou a audição de diversas testemunhas. Só depois de tal ocorrer, o conselho disciplinar do Norte aplicará a pena disciplinar final, que poderá ser contestada no Conselho Superior e, depois, nos tribunais administrativos.