Co-fundadora dos Médicos pela Verdade receitou estratégias para enganar os testes à covid-19

Em mensagens a que o Observador teve acesso, a co-fundadora do movimento Médicos pela Verdade terá procurado ajudar pessoas cujo objectivo era ter teste negativo à covid-19 para não serem alvo de medidas restritivas.

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Em mensagens no Telegram, Maria de Oliveira ajudou cidadãos, inclusive uma grávida, a arranjar formas de ludibriar a recolha de amostras para os testes PCR Daniel Rocha

As queixas contra a desinformação dos “Médicos pela Verdade” acumulam-se na Ordem dos Médicos. Esta segunda-feira, o Observador deu conta de uma série de mensagens na aplicação Telegram, em que a anestesiologista e co-fundadora da página, Maria Gomes de Oliveira, terá procurado passar receitas e conselhos sobre como ludibriar os testes à covid-19.

O objectivo dos que procuravam ajuda da médica era tentar obter resultados negativos, que as permitisse manter os contactos habituais. Entre os vários conselhos para eliminar “todos os restos virais” das fossas nasais e da garganta, onde são recolhidas as amostras através das zaragatoas, Maria de Oliveira terá recomendado limpeza constante dessas áreas, “alimentos frescos e variados com muita fruta e legumes”, jejum antes do exame, repouso, entre outras “ajudas”.

Segundo a anestesiologista, se as pessoas limparem as fossas nasais “regularmente e depois imediatamente antes de ir fazer a zaragatoa” os testes serão negativos.

A médica, que não confirmou nem desmentiu a notícia que o Observador confirmou, também terá alertado nas mensagens no grupo que não existe obrigatoriedade em realizar o teste, alegando que existe “pressão pidesca” para os casos suspeitos serem testados para a covid-19.

Num dos casos relatados, uma grávida questionou Maria de Oliveira sobre como enganar o teste à covid-19 para os pais não ficarem impedidos de estar com o filho recém-nascido, caso fiquem infectados. No entanto, e apesar de a médica oferecer conselhos duvidosos para estes contornarem os testes à covid-19, as orientações da Direcção-Geral da Saúde (DGS) não impedem uma mãe de continuar em contacto com o seu bebé após o parto, permitindo contacto físico e amamentação, a não ser que a mãe da criança tenha uma doença grave.

Processos na Ordem

O Observador dá conta de que a co-fundadora dos “Médicos pela Verdade” está registada na secção Sul da Ordem dos Médicos, que o PÚBLICO tentou contactar, sem sucesso. A página de desinformação tem um processo a decorrer nos conselhos disciplinares regionais da Ordem dos Médicos (OM) e, em Outubro, o PÚBLICO noticiou que sete médicos do grupo que desvaloriza a gravidade da doença provocada pelo vírus SARS-CoV-2 têm processos na Ordem dos Médicos.

Maria Margarida Gomes de Oliveira é uma das figuras mais conhecidas do movimento, surgindo em manifestações contra o uso de máscaras e das medidas que procuram controlar a pandemia, e afirmando na página e no blogue do movimento que não existe uma segunda vaga de covid-19.

Nas mensagens a que o Observador teve acesso, a médica terá também desrespeitado o princípio da confidencialidade previsto no Código Deontológico da Ordem dos Médicos, apesar de se recusar a responder às questões do jornal por serem do “âmbito da relação médico-doente, que é privada e sigilosa”.

Pôr em risco a comunidade e profissionais de saúde

Sobre se as receitas da anestesiologista realmente funcionam em permitir que uma pessoa engane o teste PCR ou não, os especialistas têm dúvidas e, a acontecer, serão casos muito raros. Vasco Ricoca Peixoto, médico interno de Saúde Pública, disse ao Observador que “a probabilidade é mínima de o resultado de um teste com uma colheita bem feita ser alterado por uma lavagem das fossas nasais”.

Além disso, outra especialista em Saúde Pública, Teresa Leão, referiu ao jornal que “não cabe na cabeça de qualquer médico nesta fase não identificar os contactos” de risco de alguém que tenha tido teste positivo à covid-19.

Forçar um teste negativo coloca em risco não só a comunidade, já que a pessoa infectada pode continuar em contacto com colegas de trabalho e familiares e facilitar assim a transmissão do vírus, mas também os profissionais de saúde que entram em contacto com essa pessoa durante o processo de testagem.