Rússia diz que jihadistas a combater em Nagorno-Karabakh são ameaça

Bashar al-Assad diz que terroristas sírios estão a dirigir-se para o enclave disputado entre Ierevan e Bacu. Bombardeamentos continuam ao décimo dia de confronto. Arménia admite fazer concessões se o Azerbaijão fizer o mesmo.

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Bombardeamentos em Stepanakert continuaram esta terça-feira Reuters/DAVID GHAHRAMANYAN/NKR INFOCENTE

Com os confrontos entre Arménia e Azerbaijão no enclave de Nagorno-Karabakh a não darem sinais de abrandar, a Rússia manifestou esta terça-feira a sua preocupação com a hipótese de militantes islamistas aproveitarem o conflito no Cáucaso para entrarem em território russo, pondo em causa a segurança do país. Esta preocupação foi manifestada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, que conversou telefónica com o seu homólogo iraniano, Mohammad Javad Zarif. 

No mesmo sentido, Sergei Narishkin, chefe dos Serviços de Inteligência Estrangeira (SVR, na sigla em inglês), alertou que “centenas ou até milhares de radicais esperam ganhar dinheiro com uma nova guerra”. “Não podemos deixar de nos preocupar com a possibilidade de o Sul do Cáucaso tornar-se numa nova plataforma para organizações terroristas internacionais, que podem depois cruzar a fronteira para Estados vizinhos do Azerbaijão e da Arménia, incluindo a Rússia”, disse Narishkin, citado pela Reuters.

A tese de que jihadistas estariam a participar no conflito foi avançada há alguns dias pelo Presidente francês, Emmanuel Macron, que acusou Ancara de enviar islamistas sírios para combaterem no enclave. Esta terça-feira, o Presidente da Síria, Bashar al-Assad, disse que “Damasco pode confirmar” que grupos armados do país estão a rumar a Nagorno-Karabakh.

Numa entrevista à agência russa RIA, Assad, que enfrenta a oposição interna de rebeldes apoiados por Ancara,​ acusou ainda o seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, de ser o “principal instigador” do conflito entre Bacu e Ierevan, que desde 27 de Setembro já causou a morte de pelo menos 300 pessoas.  

Ancara, no entanto, tem negado o seu envolvimento no conflito no enclave disputado pelo Azerbaijão e pela Arménia desde o colapso da União Soviética em 1991, que levou a uma sangrenta guerra civil que causou a morte de mais de 30 mil pessoas nos três anos seguintes.

A AFP refere ainda que soldados arménios na reserva e voluntários entre os 20 e os 50 anos têm-se dirigido para a fronteira para apanharem autocarros para o enclave, para combaterem ao lado dos separatistas arménios.

Em 1994, foi assinado um cessar-fogo entre Bacu e Ierevan, mas o estatuto de Nagorno-Karabkh não ficou resolvido, sendo que o enclave, maioritariamente habitado por arménios, é reconhecido internacionalmente como território azerbaijano.

Nos últimos dias, a retórica bélica subiu de tom e várias cidades do enclave têm sido bombardeadas. A escalada de violência faz temer o pior, sobretudo que a Turquia, que apoia o Azerbaijão, e a Rússia, que está ao lado da Arménia, sejam arrastadas para um conflito regional de maior escala.

Concessões 

Esta terça-feira, os confrontos continuaram no enclave de Nagorno-Karabakh, com Ierevan a acusar Bacu de lançar ataques com tanques e artilharia. Na capital, Stepanakert, explodiram quatro bombas de fragmentação, não tendo sido revelado se houve vítimas. 

Os dois lados culpam-se mutuamente pela escalada de tensão, mas tanto a Arménia como o Azerbaijão negam estar a atacar civis. No domingo, Bacu acusou Ierevan de bombardear cidades fora do enclave, uma acusação negada pelas autoridades arménias.

Num sinal de apaziguamento da tensão, o primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinyan, admitiu fazer concessões caso o Azerbaijão faça o mesmo. “Os conflitos têm de ser resolvidos na base de concessões mútuas”, disse Pashinyan à AFP. “Nagorno-Karabakh está pronto, a Arménia está pronta, para fazer espelho das concessões que o Azerbaijão estiver disposto a fazer”, rematou. No entanto, numa entrevista à BBC, reiterou que o enclave é “território dos arménios”.

Os confrontos naquela região estão a ser acompanhados com expectativa pela comunidade internacional, que tem apelado ao diálogo e ao fim da violência. Na segunda-feira Rússia, França e Estados Unidos, os três países do Grupo de Minsk da Organização para a Segurança e Cooperação Europeia (OSCE), que tem mediado o conflito desde a década de 1990, pediram um cessar-fogo imediato, um apelo subscrito pelo Reino Unido e pelo Canadá.

Depois de se ter reunido com o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, na véspera, onde ouviu pedidos para que Ancara use a sua influência na região para serenar os ânimos, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia, Mevlut Çavusoglu, visitou a capital do Azerbaijão esta terça-feira e reiterou que um cessar-fogo, por si só, não resolve o problema no enclave. Çavusoglu sublinhou ainda que Ancara quer “um papel mais activo” na resolução do conflito e demonstrou interesse em colaborar com a Rússia.