Opinião

Mais do que aprender, as crianças precisam de sentir-se livres e seguras para sentir emoções

Depois de seis meses difíceis para muitas famílias, não é saudável pensar e programar o regresso à escola centrado somente nas medidas de protecção física. A ausência da protecção emocional pode levar a consequências directas no aproveitamento escolar.

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@petercalheiros

A retoma das aulas presenciais nunca foi tão importante como agora, sobretudo porque a saúde mental das crianças e dos jovens também depende daquilo que a escola lhes fornece do ponto de vista social, ou seja, o convívio com os colegas e a possibilidade de desenvolver competências sociais e emocionais. A bem da verdade, há outros factores com impacto nas famílias que a abertura das escolas irá favorecer: os pais já não conseguem manter o ritmo de pai-professor por mais tempo e a figura dos avós, que poderão voltar ao contacto diário com os netos, é imprescindível para algumas famílias terem estabilidade em casa.

Prevê-se um ano misto quanto ao local das aprendizagens e à adaptação de novas rotinas, mas as orientações da tutela e da DGS para que tal aconteça têm sido alvo de várias críticas, dado que algumas remetem-nos para a ausência de consideração daquilo que é fundamental no ser humano: a emoção.

Depois de seis meses difíceis para muitas famílias, com tensão e afastamento dos amigos e de familiares importantes no desenvolvimento das crianças, não é saudável pensar e programar o regresso à escola ou infantário centrado somente nas medidas de protecção física, dado que a ausência da protecção emocional pode levar a consequências directas no aproveitamento escolar. Antes da preocupação em recuperar aprendizagens, o desafio é dar voz às emoções, porque estas também estão presentes na forma como a criança assimila as matérias escolares e como socializa com os seus colegas.

Já é conhecido pela investigação que esta situação trará consequências a médio e a longo prazo para as crianças e jovens, como o aumento de comportamentos de oposição e desafio, a desobediência, a ansiedade, a depressão e dificuldades de adaptação.

É preciso considerar que para aquelas crianças que iniciam numa nova escola, transitam de ciclo ou para as que ingressam no infantário, algumas medidas podem provocar uma reação emocional negativa que deve ser acautelada. Por exemplo, a separação das figuras de vinculação (geralmente, pai e mãe) da criança para ficar num lugar desconhecido com pessoas estranhas pode ser bastante stressante se não for feita de forma cuidada e gradual.

As crianças precisam de tempo e de sentir segurança para emocionalmente ficarem disponíveis para estabelecerem novas relações seguras com os professores e/ou educadores. O impedimento da proximidade dos pais nos momentos de entrega nesta transição pode dificultar ou mesmo impedir esta tarefa. Neste sentido, a demonstração de que a família e a escola não são mundos independentes e estão unidas para o seu bem-estar é fundamental.

Outro factor com efeito emocional nas crianças relaciona-se com a redução do tempo de recreio, que pode ser sentido como uma espécie de novo confinamento para as crianças que, naturalmente, valorizam e precisam da presença dos colegas, das actividades de grupo e dos espaços colectivos. Estes momentos constituem-se como essenciais para uma boa aprendizagem e para potenciar os tempos de atenção e de concentração, para socializar, para recarregar baterias e até para fazer asneiras.

Os professores também se sentem tensos porque têm os seus próprios factores de risco, precisam de mais apoio e directrizes claras e, além disso, preocupam-se com a aquisição de conhecimentos dos alunos em relação ao ano anterior e ao ano que se inicia agora.

Prevenir e agir desde o início do ano em vez de tentar remediar pode ser uma medida mais acertada. Ficam aqui algumas sugestões para pais/familiares e professores:

Pais (Pré-escola e 1º ciclo)

  • Explique à criança o que vai acontecer alguns dias antes, atendendo sempre à sua idade e ao seu nível de desenvolvimento. Com as crianças mais pequenas, crie situações semelhantes sob a forma de brincadeira onde inclui actividades e cenários possíveis a encontrar na escola.
  • Antes de chegar à escola, a criança deve saber, por exemplo, onde tem de usar máscara, quais são os espaços da escola que serão condicionados, se os almoços serão take-away, etc.
  • A tensão antes de pais e filhos saírem de casa, que sempre existiu, vai aumentar porque vai ser preciso que adultos e crianças integrem na sua rotina as regras de entrada na escola, sobretudo os mais novos.
  • Mostre compreensão e nomeie os sentimentos que a criança pode sentir (medo, confusão, raiva, ansiedade) e tente ajudá-la a encontrar formas de lidar com cada um.
  • Fale sobre as novas regras da escola e da sala de aula e sobre o que deve fazer.
  • Procure estabelecer contacto com o professor/educador para saber como a criança está a reagir. Fale à criança sobre o professor/educador e mostre que confia nele e na escola.
  • No regresso a casa, tente conversar com a criança e perceber como correu o dia, tentando dar-lhe ferramentas para lidar com situações inesperadas ou que não correram tão bem. Nos primeiros dias, procure não se atrasar quando for buscar o seu filho, as crianças mais inseguras reagem muito a isto.
  • Fale sobre os sentimentos com as crianças: esta é uma estratégia eficaz para regular as respostas emocionais negativas, já que expressar sentimentos é reconhecido por ter benefícios para a saúde mental e física.
  • Não compare as reações emocionais do seu filho com o primo, o irmão, o vizinho, etc.

Professores e Educadores de infância

  • Quando receber as crianças, relembre calmamente as regras e as condições da escola para prevenir a covid-19, isto será importante para dar segurança e para motivar a colaboração e o cumprimento das normas.
  • Vivemos um momento de incerteza, mas as crianças precisam e gostam de saber com o que contam. A informação consistente e transmitida para todos e implementada por todos os adultos que estão no mesmo espaço é fundamental para criar segurança.
  • Crie um ambiente de aprendizagem seguro e previsível: os professores e educadores proactivos estruturam o ambiente da sala e a rotina diária de modo a diminuírem a probabilidade de ocorrerem problemas.
  • Procure tomar decisões em função da realidade de cada criança e não de uma forma geral. Professores e psicólogos da área das necessidades educativas especiais devem ser ouvidos na tentativa de criar uma frente de acção conjunta. As crianças precisam desta união e os adultos também beneficiam.
  • Muitos alunos vão chegar fragilizados à escola, tanto emocionalmente como no que concerne à aprendizagem, devido a problemas desenvolvimentais ou cognitivos pré-existentes ou que foram, entretanto, diagnosticados, e/ou pela falta do acesso às tecnologias. Embora seja complexo, individualizar o trabalho com estas crianças tem especial importância.
  • Fale sobre sentimentos e normalize aquilo que a criança está a sentir, dadas as mudanças na escola e os constrangimentos por causa da pandemia: mostre que é importante expressar emoções e que podem ter sentimentos diferentes, ou até mais do que um sentimento ao mesmo tempo. Todos os sentimentos são normais e naturais, mesmo os negativos.
  • Não ameace com o risco de covid-19 para tentar obter obediência, “Não mexas, senão vais ficar contaminada!”
  • Use actividades para promover a compreensão das emoções dos outros: Um aspecto fundamental para o sucesso social é a capacidade de a criança comunicar as suas próprias emoções, mas também ter em conta as preocupações e as emoções dos outros.
  • Favoreça a estabilidade e a consistência na sala para promover o desenvolvimento da regulação emocional das crianças. São exemplos o estabelecimento de limites consistentes, de regras claras e rotinas previsíveis.
  • Aceite as emoções e as respostas emocionais das crianças: As respostas emocionais não devem ser encaradas como algo deliberado para dificultar o trabalho do educador. Aceite o facto de que as crianças estarão sob uma tensão maior pela situação em que nos encontramos – e que tenham mais comportamentos de desafio, amuos ou ansiedade. A desregulação emocional não deve ser vista isoladamente como um indicador de que a criança é mimada ou tem um problema, mas, simplesmente, pode ter um temperamento mais impulsivo, dificuldades de auto-regulação, menos competências sociais ou hiperactividade sendo mais reactiva.
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