Opinião

Depressão na adolescência: compreender e agir

Um em cada cinco adultos em Portugal virá a sofrer de depressão e há cada vez mais crianças e adolescentes a precisarem de apoio psicológico.

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@petercalheiros

A depressão é um dos problemas de saúde mental mais comuns, com um forte impacto na qualidade de vida das pessoas e que acarreta custos emocionais, físicos e económicos muito significativos associados ao sofrimento de quem padece e das suas famílias. Um em cada cinco adultos em Portugal virá a sofrer de depressão e há cada vez mais crianças e adolescentes a precisarem de apoio psicológico.

Em geral não se tende a associar este tipo de sofrimento psicológico às crianças, uma vez que as pessoas acreditam que a infância é um momento de pura alegria. Contudo, este problema de saúde mental não está só presente na vida adulta, expressando-se também na infância e na adolescência.

Considera-se que o risco de depressão aumenta na adolescência e que os sintomas depressivos estão correlacionados com baixos níveis de auto-estima e de aptidão social, associando-se frequentemente a comportamentos de risco como delinquência, comportamentos sexuais imprudentes, tabagismo, abuso de álcool e de drogas, fugas de casa e risco de suicídio.

As causas da depressão incluem interacções entre factores sociais, psicológicos e biológicos. Um ambiente familiar instável ou autoritário, divórcios mal resolvidos, depressão de um dos progenitores, abuso físico/sexual, perda de alguém significativo, redução das fontes de reforço positivo e predisposição genética são alguns factores que podem contribuir para o desenvolvimento da depressão na adolescência, sendo certo que nem todos os adolescentes que vivem estas situações irão sofrer deste problema de saúde mental. A depressão pode também ser representada como uma tentativa de adaptação à perda de algo para a qual as competências e capacidades da pessoa, naquele momento, não conseguem reduzir o seu impacto.

Além da habitual falta de tempo para estar com os filhos, actualmente, com a crise pandémica e com as dificuldades acrescidas que as famílias atravessam, encontramos pais pressionados, em exaustão, ansiosos e preocupados que podem, mesmo sem perceber, contribuir para a instabilidade familiar. Há ainda que considerar a grande pressão que é colocada sobre as crianças e adolescentes para que obtenham os melhores resultados na escola, além do elevado número de actividades que praticam.

Tristeza e depressão não são a mesma coisa, na medida em que todos nos sentimos tristes num momento ou noutro e essa tristeza tem geralmente uma duração limitada e com reacções emocionais adequadas à situação. Se perdemos alguém que amamos, se há uma separação ou afastamento de alguém ou de alguma coisa de que gostamos, é esperado que fiquemos tristes durante algum tempo, mas, aos poucos, o nosso humor vai melhorando e ganhamos novamente vontade de fazer coisas que nos dão prazer. Na depressão é diferente. Os sentimentos e sintomas negativos não desaparecem ao fim de algum tempo e até se intensificam.

O impacto da depressão no adolescente é semelhante ao do adulto, mas há alguns aspectos de relevo a ter em conta. Vejamos este exemplo inventado com base na minha prática clínica com adolescentes:

A Clara sentia-se muitas vezes tensa e irritada, chorava facilmente e às vezes tinha explosões de raiva com todos lá em casa, nem o gato ficava de fora! Já não tirava tanto prazer das coisas que antes gostava de fazer e muitas vezes deixava-se levar pelo “não quero saber”. Havia um sentimento de vazio dentro de si que crescia e aumentava o seu isolamento, fazendo com que olhasse para os seus colegas de turma de forma pouco entusiasmada e não quisesse conviver ou fazer actividades com eles. Sentia-se inútil, não queria conversar, culpava-se por isso e por muitas outras coisas. Já não lhe dava prazer sair tantas vezes de casa e preferia ficar a ver um filme sozinha no sofá. Sempre que podia dormia até tarde porque a energia já não era a mesma e a fome fugiu para parte incerta... Apesar de não se sentir sempre triste, era certo que já não era a rapariga decidida de outrora.

Os pais achavam-na instável e não compreendiam o que estava a acontecer. Viam-na desmotivada, exausta e sem concentração para o estudo, que logo se reflectiu nas notas baixas do último período. Ora tentavam conversar com a Clara, ora criticavam-na, dizendo-lhe que se estava a tornar numa preguiçosa e que deveria deixar de lado o mau humor. Aos seus olhos a Clara deveria sentir-se feliz e ponto final!

Os pais e a Clara acabaram por procurar ajuda, tendo compreendido que aquilo que achavam que era tristeza estava a passar a ser doença, dada a sua intensidade e persistência. A Clara conseguiu retornar à vida e ao convívio com as pessoas de quem mais gosta.

Eis algumas sugestões para os pais e outros adultos:

  • Não se prive de dizer ao seu filho que o ama e de o mimar com atenção e elogios. Faça isso muitas vezes, uma vez só não basta! Tal como não basta supor que ele sabe disso, esquivando-se de o dizer abertamente.
  • Fale sobre sentimentos e dê oportunidade ao adolescente para falar consigo e perceber que não está sozinho, que o compreende e que está disposto a ajudá-lo a sentir-se melhor.
  • Não julgue nem critique: o seu filho não vai mudar porque o está a criticar. Mostre-se presente e ajude-o a pensar porque está a reagir assim, não a culpá-lo pelas suas reacções.
  • Lembre ao adolescente que já foi capaz de resolver situações difíceis e que pode contar com a sua ajuda, dos amigos ou de profissionais de saúde, se precisar.
  • Crie oportunidades para que o adolescente possa interagir com os seus pares.
  • Não se torne radical nem queira resolver a situação com punição.
  • Se tem dúvidas sobre a possibilidade de o seu filho estar a sofrer de depressão, reconheça e procure os cuidados adequados junto de profissionais certificados, como os psicólogos.
  • Esteja sobretudo atento às alterações de comportamento e aos estados emocionais do jovem, como olhar ausente, choro fácil ou auto depreciação e culpa.
  • Não subestime o que o seu filho está a sentir.
  • A família poderá beneficiar de apoio de um psicólogo, que irá cuidar do seu bem-estar emocional.
  • Existem tratamentos farmacológicos para a depressão, mas a psicoterapia é igualmente eficaz, sobretudo na depressão ligeira. Em alguns casos poderá ser importante a conjugação dos dois tipos de tratamento.
  • Apresentando a psicoterapia cognitivo-comportamental uma taxa de eficácia elevada na depressão ligeira, é importante investir neste tipo de ajuda.
  • Se também está deprimido, procure tratamento de imediato, só assim poderá ajudar o seu filho a recuperar também.

Algumas sugestões para os adolescentes:

  • Tenta conviver com os teus amigos e fala com alguém em quem confias sobre o que sentes.
  • Procura manter uma actividade diária e aumenta o tempo dedicado àquelas que te dão mais prazer.
  • Não te isoles dos teus amigos e familiares.
  • O exercício físico e uma alimentação equilibrada são fundamentais.
  • Se estás a fazer psicoterapia, a presença nas consultas devem ser salvaguardadas, tal como o cumprimento do que for acordado com o psicólogo.
  • A terapia vai ajudar-te a identificar e a romper padrões de pensamentos negativos
  • Estabelece uma rotina para o dia-a-dia, incluindo actividades de ajuda em casa, momentos com os amigos e definição de horas de deitar e de levantar.
  • Procura substituir pensamentos como “Não vou ser capaz” por “Isto é difícil, mas não estou sozinho”.
  • Não sejas tão exigente contigo próprio, se não estás a conseguir fazer alguma coisa agora, lembra-te que serás capaz de o fazer depois.
  • Não sofras sozinho e não tenhas vergonha de pedir ajuda, todas as pessoas passam por situações difíceis na vida e merecem ser ajudadas.
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