Crónica

O (des)nível médico

É imperativo continuar a viver. Não vale a pena viver, com medo de morrer. Isso não é vida. Mas — e este mas é o cerne da questão —, não neguem a doença, nem a extrema gravidade desta doença.

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LUISA GONZALEZ/Reuters

Eu não sei porque é que ainda fico tão surpreendido, mas fico. Nunca se esperaria que a comunidade médica estivesse de acordo em relação à covid-19, mas fico pasmado como é que há pessoas com formação cientifica que se aproximam das barbaridades negacionistas, conspirativas e outras parvoíces que tais: “Foram os chineses”, “a culpa é do Bill Gates”, “castigo divino”, “é a nova ordem económica”, “a Covid não existe!”. Tudo serve para triturar as decisões daquele que é o maior desafio colectivo da nossa história contemporânea. E como há tanta gente a querer muito, mas mesmo muito acreditar em tudo o que nos faça sair deste pesadelo, estas teorias proliferam à velocidade-luz, com o cunho de qualidade de “este sabe o que diz porque é médico!”, como se a Organização Mundial de Saúde fosse, assim de repente uma organização terrorista e houvesse alguns rebeldes portadores de uma verdade imaculada e munidos de grande coragem a espalharem “verdades” fracturantes pelos nossos ouvidos.

Várias vezes me perturbou a gritaria de muitos médicos por se acharem no direito de dominar a discussão pública, num assunto que vai muito além do seu impacto na saúde pública. E se o impacto na economia, no desemprego, na fome é de alguma forma contabilizável, há outras questões que são bem mais filosóficas, mas de igual importância, mas que pela sua complexidade tornam o espectro da discussão um labirinto sem fim, como a felicidade, a liberdade e o risco que cada quer ou não ter para viver a sua vida como lhe apetece. Mas aqui as liberdades interceptam-se.

É imperativo continuar a viver. Não vale a pena viver, com medo de morrer. Isso não é vida. Mas — e este mas é o cerne da questão —, não neguem a doença, nem a extrema gravidade desta doença. De uma forma ou de outra estamos todos a sofrer, estamos todos fartos, estamos todos profundamente desejosos que este episódio do Black Mirror acabe. Mas inventar teorias estúpidas não ajuda. Vejam a desgraça dos EUA e do Brasil, o quão caro lhes está a sair a negação do óbvio. E o desleixe (entenda-se estupidez) não se paga só em mortes por covid-19, paga-se também em mortes não-covid-19 pela congestão dos serviços de saúde, e paga-se num maior atraso da recuperação social e económica... E, por consequência, das liberdades e felicidades.

Este vírus é altamente contagioso. Um caso pode infectar 60 a 70 pessoas num espaço fechado. O desafio logístico nos hospitais para gerir todos os casos suspeitos é hercúleo, as mortes são lentas e na mais profunda das solidões. O desafio nos Cuidados Intensivos é uma travessia no deserto de uma enorme sensação de impotência perante a duríssima carga de trabalho, a lentidão da evolução da doença e enorme impotência perante uma doença que não tem tratamento (significativamente) eficaz. Nós tivemos uma pequeníssima primeira vaga, comparando com outros países europeus (mesmo no grande Porto que foi o pior, onde eu trabalho), mas seguramo-nos por um trabalho em regime de catástrofe que não há palavras que cheguem para descrever a exigência do que nos foi pedido. Tenho sérias dúvidas que exista força física e anímica para segurar um segundo impacto se for forte.

Será sempre muito difícil no presente e no futuro avaliar todos os factores a ter em conta desta pandemia e dos seus impactos transversais a toda a sociedade. A ciência é feita de avanços e recuos, e onde há homens há erros, mas é o mais próximo que vamos ter sempre da verdade, que neste caso torna criminoso a crítica fácil e desmedida às instituições nacionais e internacionais que estão a zelar pelos interesses de todos nós.

Eu também quero muito que isto passe. Estou farto de ver pessoas a morrerem-me nas mãos e estou exausto física e psicologicamente. Mas não me vou mentir para que passe mais rápido. Isto ainda não acabou. Sensatez, humildade e honestidade precisam-se.

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