Há um “aumento inquietante” de casos de covid-19 nos EUA, diz Anthony Fauci

Levantamento das medidas de restrição fez disparar os novos casos de infecção e há vários estados a gerar preocupação. Equipa de Fauci contradiz Trump e garante que ritmo de testes à covid-19 é para aumentar.

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Anthony Fauci foi ouvido no Congresso dos EUA na terça-feira Kevin Dietsch/REUTERS

O director do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecto-contagiosas dos Estados Unidos, Anthony Fauci, afirma que há um “aumento inquietante” de novos casos de covid-19 nalguns pontos do país, que atribui à falta de distanciamento físico e a um desconfinamento feito sem planos adequados para testagem e monitorização dos casos positivos. 

Fauci, um dos rostos mais visíveis no combate à covid-19 nos EUA, foi ouvido na Comissão de Energia e Comércio da Câmara de Representantes em Washington, ao lado de três outros responsáveis pela resposta ao novo coronavírus, na terça-feira — durante mais de cinco horas, os especialistas realçaram a necessidade de o país estar preparado para a doença.

E o cenário que pintaram foi negro, contrariando o quadro optimista traçado pelo Presidente Donald Trump. Fauci afirmou sem rodeios que o vírus “não vai desaparecer”, contrariando o que disse Trump na semana passada, e que não está sequer sob controlo nos EUA. A vacina, essa, na melhor poderá só estar disponível no final de 2021, reiterou, e mesmo assim este é um cenário optimista.

Para o imunologista, a avanço da doença nos EUA oferece um cenário “misto”, com alguns pontos de luz, alguns muito negros e outros que não se conhecem. Estados como Nova Iorque, que começou por ser o epicentro da doença no país, estão “a ir muito bem”, mas há outros surtos longe de estarem controlados. “As próximas semanas vão ser críticas para determinar a nossa capacidade de lidar com os surtos na Florida, Texas, Arizona e outros estados”, alertou.

Ritmo de testes é para continuar

Anthony Fauci negou ainda que o Presidente norte-americano tenha ordenado uma diminuição no número de testes de despistagem da covid-19. No fim-de-semana, durante o comício em Tulsa, no Oklahoma, Trump pediu que o ritmo de testes nos EUA fosse reduzido, uma vez que quanto maior o número de testes, maior o número de casos detectados.

A Casa Branca tentou apresentar a declaração como uma brincadeira. No entanto, na terça-feira, o Presidente disse à CBS News que estava a falar a sério e que a testagem é “uma faca de dois gumes”. Contudo, Fauci negou que a sua equipa tenha recebido qualquer indicação para abrandar o ritmo de testes e garantiu que o plano é “continuar a fazer mais testes” para “compreender exactamente o que está a acontecer com a disseminação do novo coronavírus na comunidade”.

“Estamos a proceder exactamente no sentido oposto. Queremos fazer mais testes e com melhor qualidade”, acrescentou Brett Giroir, secretário-adjunto da Saúde, que também participou na sessão no Congresso.

Já Robert Redfield, director do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, afirmou sem rodeios que o vírus vergou o país: “Demos o nosso melhor no combate ao vírus. E a realidade é que pôs a nação de joelhos.”

Falando em custos monetários, o combate ao vírus poderá custar ao país cerca de sete biliões de dólares. Sobre o futuro, Redfield deixou uma mensagem: o vírus ainda estará presente no início da época da gripe, podendo colocar uma grande pressão sobre hospitais e pessoal médico. Tomar a vacina é imperativo: “Este acto isolado pode salvar vidas.”

Estados aflitos

Os três especialistas avisaram que o aumento de casos de infecção pode continuar caso não sejam impostas restrições à movimentação de pessoas. Nas últimas 24 horas, sete estados norte-americanos reportaram o maior aumento de hospitalizações desde o início da pandemia e muitos outros bateram recordes no número de novas infecções. 

No Texas e na Califórnia, os dois estados mais populosos dos EUA, os governadores pediram maior vigilância aos seus cidadãos, demonstrando intenção de recuar nas medidas de desconfinamento, depois de cada um destes estados ter registado mais de cinco mil casos na terça-feira, um recorde diário.

O governador do Texas, Greg Abbott, pediu que as pessoas ficassem em casa, enquanto o governador da Califórnia, Gavin Newsom, ameaçou cortar o financiamento aos condados que não cumpram as medidas de restrição, segundo o The New York Times. 

Na Florida, onde se registaram mais de três mil novos casos, há hospitais que já estão no limite, diz a NBC. No Arizona a situação é semelhante, com um recorde de novas infecções (mais de 3500 nas últimas 24 horas) e no número de pessoas hospitalizados em cuidados intensivos, a necessitarem de ventilador. No estado de Washington, o governador Jay Inslee prepara-se para anunciar a obrigatoriedade do uso de máscara em espaços públicos nos casos em que não é possível manter a distância de segurança de dois metros.

Segundo os dados da Universidade Johns Hopkins, os EUA registam mais de 2,34 milhões de pessoas infectadas, 647. 548 das quais recuperadas, e 121.225 mortos.

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