Opinião

A arte do Ensino e o ensino da Arte

No ensino especializado da música, as diferentes modalidades de ensino ensaiadas pelas escolas neste período de pandemia vieram afirmar uma perspectiva tranquilizante: as aulas presenciais são insubstituíveis!

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Daniel Rocha

“O que o aluno toca parece chegar ao meu cérebro de uma forma mais pobre... Parece que o que me chega não é o suficiente para dançar a dois.” Este foi o comentário de um professor de instrumento após a sua primeira aula síncrona. A observação permite-nos dar vida à realidade de que a pandemia pode ter catapultado a arte por trás do Ensino e o esforço colossal de tantos professores das mais variadas disciplinas para se adaptarem ao ensino à distância nestes tempos de pandemia. Mas há várias reservas quanto ao ensino da Arte exclusivamente num contexto virtual.

As medidas de contingência no combate à covid-19 e os consequentes planos de ensino à distância colocaram desafios imprevistos ao sistema de ensino português e a todos os outros, um pouco por todo o mundo. Em boa verdade, a comunicação pedagógica à distância não é nova, havendo vários contextos em que vinha a ser implementada, nomeadamente em situações de crianças de famílias itinerantes ou de jovens praticantes de alta competição, cujos compromissos desportivos os obrigam a ausentarem-se durante longos períodos de tempo. A novidade é a necessidade de ter de ser implementada de um modo genérico e transversal a todos os estabelecimentos de ensino, incluindo o artístico, onde, tanto quanto é do nosso conhecimento, nada de semelhante foi testado até à data.

Não será exagero dizer que, há poucos meses, a maioria dos professores da área artística apresentaria uma resistência indescritível à mudança do paradigma do ensino instrumental da música: maioritariamente um aluno e um professor, sentados frente a frente, numa das relações diádicas mais imediatas do ensino. E atrevemo-nos a assumir que, concretamente, no ensino especializado da música (e no de instrumentos, em particular), as diferentes modalidades de ensino ensaiadas pelas escolas neste período de pandemia vieram afirmar uma perspectiva tranquilizante: as aulas presenciais são insubstituíveis! E hoje sabemos que esta modalidade de ensino à distância irá perdurar durante o estritamente necessário, mas não para lá dele! As tecnologias serão, como foram até Março último, um complemento da interacção presencial aluno — professor. Não estamos aqui a advogar que se deite fora o menino juntamente com a água do banho: a realização de vídeos, por exemplo, permite ao aluno, durante o estudo, simular a concentração, a ansiedade e a gestão de energia que terá de ter em palco, porquanto, durante a gravação, a tolerância ao erro é bem menor.

Por muito sofisticados e avançados que sejam os diferentes programas e equipamentos disponíveis, nenhum parece conseguir recriar de modo fiável e robusto a experiência in loco. Diferentemente do que ocorre noutras áreas, a linguagem nessa relação é outra: é a música. E música é som. Como tal, todos os seus timbres, matizes de colorido e riqueza dinâmica só são devidamente compreendidos e sentidos presencialmente. A fim de ser transmitido digitalmente, o sinal acústico é comprimido várias vezes, retirando riqueza sonora, estreitando paletas sonoras e tímbricas, aplanando dinâmicas, rendendo um pálido fantasma daquilo que é efectivamente tocado e produzido, seja pelo professor ou seja pelo aluno. Num instrumento como o piano, por exemplo, em que é possível tocar várias notas em simultâneo e, dessa forma, gerar várias frequências ao mesmo tempo, os programas parecem não saber o que fazer com tanta riqueza sonora, não captando algumas frequências e destacando outras sem um critério lógico.

Outro aspecto é que as comunicações ditas síncronas são na verdade pseudo-síncronas: o sistema possui no seu próprio funcionamento uma latência de fracção de segundos que impede que duas pessoas toquem juntas na dança síncrona que é desejada, em dois terminais diferentes. Em suma, nem o microfone é tão preciso quanto o ouvido humano, nem os processadores dos programas informáticos são tão capazes quanto o cérebro humano!

O professor de instrumento ao qual demos voz no início deste texto parece ter razão. A música produzida à distância pelo aluno, após viajar por vários sistemas digitais, chegar ao cérebro do professor, e vice-versa, é, de facto, claramente mais pobre. E aqui reside o maior dos enigmas nessa área: quais os aspectos da pedagogia do ensino da música podem ser partilhados à distância e quais papéis permanecem dependentes da relação presencial que permite “dançar a dois”?

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