Padre António Vieira

Apesar das estátuas vandalizadas, as figuras históricas não podem “ser removidas das salas de aulas”

Depois de sucessivos episódios de remoção e vandalismo de estátuas ligadas a passados de racismo e discriminação, os professores sublinham a importância de manter as discussões abertas nas escolas.

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A escultura de autoria de Marco Telmo Fidalgo, no largo Trindade Coelho, em Lisboa, antes de ser vandalizada rui gaudencio

Nos últimos dias têm-se visto, por todo o mundo, sucessivos episódios de vandalismo, destruição e remoção de estátuas que representam figuras que possam ter estado ligadas a passados de racismo e discriminação, num movimento que surgiu depois da morte de George Floyd nos EUA.

Por toda a Bélgica crescem os apelos para a remoção das estátuas do rei Leopoldo II, devido à alegada associação do soberano ao colonialismo em África. Já a estátua de Edward Colson, em Bristol, acabou no rio devido às acusações de tráfico de escravos ou a de Winston Churchill vandalizada em Londres. Várias figuras de Cristóvão Colombo pelos Estados Unidos também já foram removidas por populares que afirmam que as suas expedições às Américas levaram à colonização e ao genocídio dos indígenas. E este movimento acabou por chegar a Lisboa, onde a estátua do Padre António Vieira foi vandalizada esta quinta-feira com a palavra “Descoloniza” escrita a tinta vermelha.

Enquanto as estátuas estão a ser removidas, os professores de História afirmam que “nunca podem ser removidas das salas de aulas”. Para Miguel Monteiro de Barros, presidente da Associação de Professores de História (APH), estas personalidades históricas “fazem parte da nossa história colectiva, seja de Portugal, seja da Europa, seja do mundo”.

O presidente da APH lembra que é preciso reconhecer que vários países europeus, inclusive Portugal, têm uma história de colonialismo. “É verdade que Portugal foi dos maiores traficantes de escravos do mundo”, lembra. Se há figuras da história de Portugal que podem estar directamente ligadas a práticas “que hoje consideramos mais sombrias”, o professor considera um erro julgar-se a realidade de outros séculos com base nos valores contemporâneos.

O exemplo dos campos de concentração

Para Ivone Sardinha, o processo de leccionar acerca de figuras históricas deve ser feito “sempre a enquadrar, a contextualizar, mas nunca apagando essas personagens” porque “elas foram muito importantes na nossa história e na nossa sociedade”. A professora de História na Escola Secundária da Ribeira Grande, São Miguel, Açores, diz não concordar “minimamente” que se deva esconder o que quer que seja “da história e da sociedade e deixar de ensinar os miúdos a pensar sobre isso”.

Ao mesmo tempo que os alunos devem perceber que “à luz de um determinado tempo, certas atitudes eram normais”, a professora considera também “fundamental” que se compreenda a evolução dos direitos humanos, da tolerância e que hoje em dia, qualquer um dos actos racistas ou discriminatórios, seria completamente errado na nossa sociedade, civilização e tempo.

Por isso, considera a professora micaelense, “é importante dissociar o que seriam as acções pelas quais as figuras se destacaram daquilo que seriam comportamentos que hoje em dia são reprováveis, mas que na altura não seriam”. Se, por um lado, é preciso contextualizar e “fazer pontes para o presente”, “as críticas que se fazem nunca podem ser no sentido de apagar a história”.

“Porque é que os campos de Auschwitz estão conservados?”, questiona a professora. “Não é de todo porque os alemães têm orgulho naqueles campos. É, pelo contrário, numa tentativa de fazer lembrar o mundo inteiro que o que aconteceu ali, não pode voltar a acontecer”, exemplifica.

Uma vez que “a história não pode ser apagada nem reescrita” e que “temos que aprender com os erros do passado”, Ivone Sardinha afirma que “jamais essa história pode ser razão ou argumento para cometer actos de violência ou de vandalismo”. É a razão pela qual a docente é contra qualquer destruição do património. “Representam figuras, momentos próprios de uma época. Estão lá para nos lembrar do que é bom e do que é mau e servem para manter presente nas nossas mentes o que aconteceu, manter-nos críticos” aponta.

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Campos de concentração como os de Auschwitz lembram erros que não se quer repetir Reuters

Falta História aos alunos do secundário

Para Ângela Malheiro, professora no Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Lisboa, e autora do canal de YouTube Bumba na História, o problema da percepção do contexto histórico é agravado pelo sucessivo “menosprezar da disciplina de História” que “deveria ser estruturante como o Português ou a Matemática”.

A professora afirma que “os alunos que escolheram a vertente de Línguas e Humanidades no ensino secundário são, muitas vezes, os únicos que falam de forma mais profunda acerca do colonialismo e da questão dos retornados”, lembra, lamento ser “recorrente que os alunos acabem o ensino básico sem essa parte do programa leccionada”.

Quanto à remoção das estátuas, a ideia não é nova. “Podemos pensar no que aconteceu quando o cristianismo se instalou no Império Romano e destruiu tudo o que eram vestígios do paganismo, os tempos, as estátuas do imperador”, compara o presidente da APH. Contudo, sublinha, “hoje em dia, vivendo em democracia, deveríamos ter um pouco de mais bom senso e tentar que isto fosse tratado de uma forma diferente”.

Uma das soluções, sugere, poderia passar por “um trabalho importante de contextualização das acções e das vidas das várias figuras históricas representadas em estátuas”, através, por exemplo, de QRCode que pudessem direccionar as pessoas para uma contextualização histórica.

A remoção dessas obras pode, inclusive, alerta Ivone Sardinha, servir os objectivos de determinados grupos de simpatizantes de certas figuras históricas que podem aproveitar o “cair no esquecimento” dos passados de discriminação para tentar reescrever a história. Por isso, “é preferível preservarmos vivos aqueles que são hoje considerados os ‘erros’ do passado”.

Se nós decidirmos que vamos apagar tudo aquilo que são as imagens de um tempo de abuso de poder, então muito do nosso património vem abaixo. Vem abaixo a Torre de Belém, o Marquês de Pombal, uma série de sinais de um tempo que era assim. Se calhar daqui a dois ou três séculos olhamos para trás e haverá muita coisa que fazemos hoje [sobre a qual se] terá outra visão”, alerta Ângela Malheiro.

Numa altura de “extrema divisão e desinformação”, o presidente da APH sublinha o “papel fundamental dos professores de História nesta altura”, de forma a dar contexto e desmistificar “o que os alunos possam consumir nas redes sociais sem nenhuma atitude crítica”.

“Na escola não podemos fazer de conta que este tipo de coisas não está a acontecer”, concorda Ângela Malheiro. “Temos de provocar a opinião dos miúdos, mas tem de ser uma opinião consciente e com causa, com argumentos”, defende.

Vandalismo da estátua do Padre António Vieira foi “atentatório"

Quando viu as notícias sobre a estátua do Padre António Vieira, Fátima Gomes confessa ter ficado “chocada e profundamente irritada”. A professora de Português na Escola Secundária de Barcelos aproveitou os grupos privados que tem com os alunos no Facebook para relembrar a figura do padre jesuíta cuja obra é leccionada e considera que “será uma obrigação moral” os seus estudantes terem “a elevação de espírito” face ao acto de vandalismo.

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Pormenor da estátua do Padre António Vieira, em Lisboa, vandalizada Nuno Ferreira Santos

“Se um homem daqueles não foi louvável, quem será?”, questiona a professora que considera “atentatório o que foi feito à estátua”. Isto porque, afirma Fátima Gomes, “ele é conhecido como um precursor dos direitos humanos, teve imensos problemas e dissabores com o poder colonial no Brasil porque defendeu os índios e os povos indígenas”. A professora lembra que “o trabalho escravo desses povos no Brasil era um dos fundamentos da riqueza portuguesa nas colónias” e António Vieira “conseguiu que o rei promulgasse leis que impedissem a escravatura desses povos”.

Além disso, sublinha ainda o trabalho do padre jesuíta na defesa dos judeus, tendo “incentivado o rei a promulgar leis que impedissem que a Inquisição ficasse com os bens dos judeus”, o que chegou a fazer com que “fosse perseguido e preso pela Inquisição”.

A professora admite que o sacerdote “de facto não tomou essa defesa relativamente aos negros”, mas alerta para a “incapacidade de muita gente olhar para um século que está a 400 anos atrás de nós”. “Ele já tinha uma frente em que lutar e que lhe deu tantos dissabores”, remata.

“Não há argumento possível para vandalizar a estátua do Padre António Vieira”, afirma Ângela Malheiro, que considera o acto “uma aberração total” e “a falta de conhecimento histórico absoluto”. A professora considera que é “importante que o debate seja feito com os pés assentes na terra” e não “baseado em achismos, o que é o que muitas vezes acontece e que promove que estes movimentos sejam replicados”.

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