“Descoloniza”: estátua de Padre António Vieira vandalizada em Lisboa

Quando foi inaugurada, há três anos, a obra esteve cercada por neonazis que estariam a protegê-la das flores que um grupo de manifestantes queria pôr aos seus pés.

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Nuno Ferreira Santos

A estátua do Padre António Vieira, no Largo Trindade Coelho, em Lisboa, foi vandalizada com a palavra “descoloniza” pintada a vermelho. A boca, mãos e hábito do clérigo foram tingidas de vermelho e no peito das crianças indígenas que estão representadas à sua volta foi pintado um coração. Durante a noite desta quinta-feira, a Câmara de Lisboa procedeu à limpeza da estátua. “Todos os actos de vandalismo contra o património colectivo da cidade são inadmissíveis”, lê-se no Twitter oficial da autarquia.

Ao fim do dia, a Polícia de Segurança Pública (PSP) ainda não tinha sido informada da ocorrência, como afirmou ao PÚBLICO o porta-voz desta força de segurança. Entretanto, foram mobilizadas equipas de investigação criminal da PSP, que averiguaram o local “para recolher mais e melhores meios de prova” que possam levar à identificação dos autores, disse à Lusa uma fonte do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP.

O acto mimetiza outros que estão a ser praticados nos EUA e alguns países europeus no âmbito dos protestos anti-racistas que começaram com o homicídio de George Floyd e que estão a promover a retirada dos memoriais a figuras históricas no espaço público devido ao seu passado esclavagista. Paralelamente, aumentaram os casos de derrube e vandalismo de estátuas por iniciativa popular.

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Na Europa, uma estátua do rei Leopoldo II dos belgas foi retirada esta terça-feira do bairro de Ekeren, em Antuérpia, por ter sido vandalizada, dada o papel do rei no território do Congo, cujas atrocidades deram origem ao Coração das Trevas, de Joseph Conrad. A estátua de Leopoldo II foi retirada para ser limpa e restaurada, mas é provável que não volte ao mesmo local, como reconheceu o presidente da câmara, Koen Palinckx.

Em Londres, o presidente da Câmara Sadiq Khan criou uma comissão de avaliação da diversidade dos monumentos nos espaços públicos da capital, após o derrube de uma estátua de um comerciante de escravos em Bristol e da polémica gerada por um graffiti na estátua de Winston Churchill apelidando-o de “racista”.

Quando foi instalada, em Junho de 2017, a estátua do Padre António Vieira esteve envolvida num frente-a-frente entre um grupo de manifestantes que pretendia pôr flores e fazer uma performance poética e um grupo de neonazis que rodearam o monumento e impediram a aproximação dos manifestantes. Os manifestantes baseavam os seus protestos no facto de mais de seis milhões de africanos terem sido escravizados durante o tráfico transatlântico português, com a colaboração da igreja, classificando o Padre António Vieira com tendo sido um “esclavagista selectivo”.