Marcelo elogia planos do Governo mas avisa: “Há tempo para divergir”

Presidente da República afirma que “é correcto”, mas “difícil”, aprovar o Programa de Estabilização antes da UE definir os montantes das “bazucas” financeiras e considera “urgentíssimo” aprovar o orçamento suplementar.

O Presidente da República na inauguração do restaurante “O Algaz”, nas instalações do Centro de Apoio Social da Carregueira, na Chamusca,
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O Presidente da República na inauguração do restaurante “O Algaz”, nas instalações do Centro de Apoio Social da Carregueira, na Chamusca, LUSA/PAULO CUNHA

O Presidente da República elogiou esta quinta-feira a celeridade do Governo na aprovação do Programa de Estabilização Económica e Social, em discussão nesta quinta-feira no Conselho de Ministros, apesar de, neste momento, ainda não serem conhecidos os pacotes financeiros que a União Europeia está a preparar para fazer face às consequências da pandemia de Covid-19.

“Têm de ser tomadas medidas arriscando, partindo do princípio que vai haver fundos europeus suficientes”, porque “não é possível esperar por finais de Julho” para conhecer esses envelopes financeiros, disse Marcelo Rebelo de Sousa na Chamusca. “No essencial, o que o Governo tem feito é correcto: é importante haver um plano de estabilização e o orçamento suplementar é urgentíssimo”, afirmou, enaltecendo também as posições que o executivo de António Costa tem tomado no plano europeu.

O chefe de Estado elogiou também as medidas que estão a ser preparadas em Bruxelas, em particular o Fundo de Recuperação anunciado pelo Conselho Europeu e a decisão do Banco Central Europeu de, “no limite dos seus poderes”, “injectar mais liquidez na economia, comprando dívida pública e baixando taxas de juro”. “O somatório destas duas realidades pode permitir que os números finais [da crise provocada pela pandemia] não sejam tão brutais e graves como se não existissem estas duas ‘bazucas’”, sublinhou.

As projecções do Conselho de Finanças Públicas, que apontam para uma contracção da economia em 2020 que vai de 7,5% a 11,8%, servem de exemplo: “São previsões duras e cruas, se não houver nada que as mude, mas nós sabemos que vai haver medidas europeias e nacionais”. Por outras palavras: “É evidente que vai haver dor, já está a haver. O problema é saber se a dor é mais ou menos intensa, se dura mais tempo ou menos tempo, se dura dois anos ou quatro anos”, frisou.

Mas o Presidente da República já vislumbra “uma mudança de política” na UE, que diz estar “a corrigir erros da troika”, graças ao “apoio fundamental da chanceler Merkel”. Que erros? “Achar que não é importante a dívida pública e não se comprometer com financiamentos massivos por doação, e não por empréstimos”, esclareceu.

Questionado pelos jornalistas sobre se não tem reparos a fazer ao Governo, Marcelo preferiu sublinhar a importância de haver um consenso nacional sobre o que é essencial. “Todos sabem que em democracia não há unanimismos, há várias posições para o futuro, mas, no imediato, há pontos mínimos que são consensuais”. E deixou um recado também para o seu próprio futuro político: “Há tempo, quando for caso disso, de os chefes de Estado e de Governo divergirem num ou noutro ponto”. Haverá tempo.