Crise económica força BCE a ir outra vez além do esperado

Mais uma reunião do conselho de governadores, mais um anúncio de novas medidas para ajudar a economia. Com os sinais de retoma ainda a não serem mais do que “tépidos”, Christine Lagarde reforçou em 600 mil milhões de euros o volume de compras de activos que promete realizar.

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LUSA/ADRIAN PETTY

Nem a ameaça de novos conflitos com o tribunal constitucional alemão, nem o conforto trazido pelo facto de os governos estarem finalmente a avançar com planos de estímulo orçamental mais ambiciosos, impediram que o Banco Central Europeu (BCE) voltasse esta quinta-feira a reforçar de forma inesperadamente agressiva as suas medidas de apoio à economia. Em Frankfurt, a brusca contracção da actividade económica na zona euro e os riscos acrescidos de entrada em deflação parecem continuar a assustar, tornando claro para Christine Lagarde e os seus pares que não é ainda tempo para fazer uma pausa.

Num movimento que surpreendeu a generalidade dos analistas pela sua dimensão, os membros do conselho de governadores do BCE decidiram reforçar de 750 mil milhões de euros para 1350 mil milhões de euros o plano de compras de activos (principalmente títulos de dívida pública) que tinham lançado em Março para responder aos efeitos da pandemia.

Para além disso, a duração mínima do plano, que até aqui era o final de 2020, foi prolongada em seis meses para o final de Junho de 2021, tendo o BCE passado igualmente a garantir que, pelo menos até ao final de 2022, irá substituir com novas compras todos os títulos de dívida entretanto adquiridos e que atinjam a sua maturidade.

Para Portugal, o que este reforço do 600 mil milhões de euros nas compras pode significar, tendo em conta as compras de dívida privada que são feitas e a percentagem de capital do país no BCE, é um aumento das compras de dívida pública nacional por parte do banco central próxima de 12 mil milhões de euros, acrescentando aos cerca de 15 mil milhões do programa já previstos e aos cerca de 400 milhões ao mês relativos ao programa de compra de activos normal do BCE, que se mantém em vigor.

Sinais “tépidos” de retoma

A decisão de reforçar as suas compras de dívida já era esperada nos mercados. Nos primeiros dois meses de aplicação do programa, os bancos centrais da zona euro estavam a realizar compras a um ritmo que, a manter-se, significaria que os 750 mil milhões de euros previstos não chegariam até ao final do ano.

No entanto, o reforço de 600 mil milhões de euros superou largamente a generalidade das expectativas. Havia mesmo quem apostasse que, num cenário em que o BCE parece estar a conseguir controlar melhor os movimentos das taxas de juro dos países do sul e em que se tenta evitar uma escalada do conflito entre o tribunal constitucional alemão e o banco central, Christine Lagarde pudesse optar por adiar novas acções para a reunião de Julho.

No entanto, aquilo que parece ter acontecido é que a forma como está a evoluir a economia retirou ao BCE espaço de manobra para gerir as suas intervenções. “A zona euro está a passar por uma contracção sem precedentes”, afirmou na conferência de imprensa de apresentação das medidas, onde foram divulgadas as novas previsões do banco central para o crescimento da economia e para a inflação.

Essas novas previsões mostram aquilo que preocupa o BCE: uma travagem da economia com pressões deflacionistas que colocam a autoridade monetária europeia ainda mais longe do seu objectivo de estabilidade de preços (definido como uma inflação abaixo mas perto de 2% no médio prazo). O BCE prevê que a economia da zona euro caia 8,7% este ano e depois recupere 5,2% em 2021 e 3,3% em 2022. Para a taxa de inflação, a previsão é de um valor de 0,3% este ano e depois uma subida para 0,8% em 2021 e 1,3% em 2022.

E mesmo assim, dentro do BCE, existe a noção de que as coisas podem ser ainda piores, tendo Christine Lagarde assinalado que os sinais de retoma até agora são “tépidos” e que os riscos de revisão do cenário base são descendentes.

Alemanha injecta 130 mil milhões

Onde as coisas parecem estar a correr mais de acordo com os desejos do BCE é no apoio que os governos estão a mostrar ser capazes de dar à economia. Nos últimos anos, Mario Draghi primeiro, e Christine Lagarde depois, apelaram repetidamente aos governos para não deixarem o banco central sozinho no seu combate ao fraco desempenho da economia da zona euro e aos riscos de escalada das taxas de juro da dívida de alguns países.

Nas últimas semanas, os governos deram sinais de que estão agora dispostos a dar esse contributo. Em primeiro lugar, mostrando que é viável o lançamento de um “novo Plano Marshall”. A proposta da Comissão Europeia de um fundo de recuperação de 750 mil milhões de euros, ainda não aprovada mas com o apoio de França e Alemanha, foi classificada por Lagarde como “ambiciosa” e poderá cumprir esse papel.

E depois, por via de planos de estímulos económicos nacionais de dimensão inédita. Em particular, a maior economia da zona euro, a Alemanha, parece decidida a abandonar a política de grande prudência orçamental da última década e anunciou o lançamento de um novo pacote de estímulo, desta vez de 130 mil milhões de euros, com que Angela Merkel pretende, não só combater a crise, como também aproveitar para preparar a economia alemã para alguns dos principais desafios do futuro, seja a nível digital como ambiental.

É verdade que um plano de 130 mil milhões de euros comprova as diferentes capacidades de reacção à crise que os diversos países da zona euro têm, algo que poderá agravar as divergências entre ricos e pobres. Mas podem também ser vistos como uma ajuda, não só para a economia alemã, mas para os outros países, como Portugal, que podem vir a beneficiar de um reforço da procura.

A Alemanha foi ao longo dos últimos anos criticada por alguns dos seus parceiros europeus pelo excesso de poupança que prejudicava a evolução da procura interna da economia europeia. Agora, tem mais um plano de 130 mil milhões de euros, que, para além de servir para injectar dinheiro em algumas das grandes empresas alemãs em dificuldades, coloca o investimento público a níveis mais elevados.

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