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A Festa do Avante! vai continuar (enquanto houver estrada para andar)

Felizmente, a Festa do Avante! não é um festival de música nem um espectáculo de natureza análoga e ai de quem o diga. Eu sei de experiência própria por ter caído nesse erro há muitos anos.

O Conselho de Ministros decidiu, está decidido: derivado (sempre quis escrever esta palavra, “derivado") do novo coronavírus, até 30 de Setembro não há festivais de música no nosso Portugal. Mas atenção, não só se proíbem festivais de música como também se proíbem espectáculos de natureza análoga.

Felizmente, a Festa do Avante! não é um festival de música nem um espectáculo de natureza análoga e ai de quem o diga. Eu sei de experiência própria por ter caído nesse erro há muitos anos. 

Não, a Festa do Avante! é um evento político-cultural, o maior do país, realizado anualmente desde 1976, com o intuito de promover a liberdade, o debate político, a cultura de Portugal e do mundo entre teatro, exposições, concertos, colóquios, gastronomia, feira do livro, artesanato, desporto, só para citar alguns exemplos.

Infelizmente, ou felizmente, a Festa do Avante! é também um momento de luta pelos direitos dos trabalhadores, trabalhadores esses agora proibidos de se juntarem, mesmo se a dois metros de distância uns dos outros e de máscara e de acordo com as normas vigentes no primeiro fim-de-semana de Setembro. 

Assim, a proibição de festivais de música e espectáculos de natureza análoga não é senão um ataque directo aos trabalhadores portugueses e aos seus direitos, um ataque aos milhares de trabalhadores entretanto desempregados e ao mais de um milhão de trabalhadores em layoff e em risco de perder o emprego. Um ataque a quem não tem condições de protecção no seu local de trabalho, a quem tem de ir todos os dias para o emprego em transportes públicos sobrelotados desde tempos imemoriais e em que a regra dos dois metros não se aplica. A quem tem salários cortados, a quem não tem de comer, a quem pode perder a casa ou já perdeu a casa.

Não podemos viver num mundo onde o trabalhador só tem o direito de trabalhar, cingindo-se a produzir e a fugir para casa no fim de cada jornada de trabalho cheio de medo e incertezas, para sempre com a espada de Dâmocles por cima da cabeça.

Ao contrário, é premente continuar a luta todos os dias, meses e anos, a começar pela Festa, questionar o instituído, alargar horizontes e modos de pensar, promover a luta de classes, instilar coragem, dignidade e esperança nos corações e almas de quem, sem voz, vive pelo trabalho. A Festa é um murro no estômago de quem pensa ter vencido os trabalhadores e as suas reivindicações. 

Numa altura em que os direitos laborais são constantemente cilindrados entre férias forçadas, licenças sem vencimento, alteração dos horários de trabalho, fecho de empresas sem anúncio prévio entre outros tristes exemplos, é ainda mais urgente realizar a Festa do Avante! sob risco, senão certeza, de passar a ver os direitos de quem trabalha como uma peça de museu esquecida e ignorada na memória perdida dos avós que um dia seremos.

E se até 30 de Setembro está proibida a realização de festivais de música e espectáculos de natureza análoga, mude-se a data. Já dizia a música, desta feita adaptada, a Festa vai continuar enquanto houver estrada para andar, enquanto houver ventos e mar a gente não vai parar.

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