O que fazer com um milhão de trabalhadores parados?

Agricultura quer discutir plano de aproveitamento de recursos ociosos. Governo estima que layoff pode abranger um milhão de pessoas. Pandemia já empurra trabalhadores para a economia do biscate.

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Adriano Miranda/Arquivo

O Governo estima que um milhão de portugueses poderá ser empurrado para layoff, devido à travagem económica imposta pela pandemia do coronavírus. Nalgumas actividades, como as entregas de produtos em casa, já se regista um aumento no número dos que procuram um “biscate”. O retalho alimentar também está à procura de reforços. E há outros sectores, como a agricultura, que querem ver com o executivo a possibilidade de aproveitarem temporariamente alguma da mão-de-obra que outras indústrias suspensas decidiram mandar para casa.

O tema vai estar em cima da mesa esta semana, garante o presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Eduardo Oliveira e Sousa, em declarações ao PÚBLICO.

Em França, onde o sector agrícola diz precisar de 200 mil trabalhadores, e na Alemanha, onde se procuram 300 mil trabalhadores, foram abertas plataformas online para que os desempregados ou trabalhadores com contratos suspensos (na Alemanha são os que estão no kurzarbeitergeld) se inscreverem nas colheitas, que estão à porta.

O mesmo poderá suceder em Portugal, admite o líder da CAP, reconhecendo que “a ideia tem potencial”. Porém, qualquer solução terá de passar por um plano concertado com o Governo, salienta.

“Vamos abordar esta situação com o Governo já esta semana. Não vamos montar um esquema destes sem a concordância do Governo, porque estamos a falar de uma situação de saúde pública, mas temos uma mensagem que é: a agricultura não pára. E vemos algum potencial nessa ideia, mas precisamos de falar com três ministérios, o da Agricultura, o da Economia e o do Trabalho, antes de mais”, defende o presidente da CAP.

Braços para o campo?

Oliveira e Sousa não sabe quantificar as necessidades portuguesas, mas sublinha que “vai ser preciso encontrar soluções”, porque há colheitas que estão à porta e porque muitas explorações não sabem se podem importar trabalhadores de fora, como habitualmente acontece. Isto devido às restrições de circulação que estão em vigor um pouco por todo o mundo.

Nuno Troni, director da Randstad, uma das grandes empresas de recrutamento, confirma que sectores como retalho, saúde e logística já estão a pedir mais trabalhadores, ao passo que “tudo o que é restauração, turismo e hotelaria praticamente desapareceu”. “Não se poderá dizer que haja aqui criação de emprego, porque estaremos a falar de posições temporárias. Mas há de facto uma pressão brutal nesses sectores para contratar”, refere.

A Randstad coloca muitos trabalhadores estrangeiros no sector agrícola em Portugal e sublinha que é precisamente para profissões “com perfil menos técnico” e de “trabalho braçal, menos qualificado” que poderá haver saída para muitos dos trabalhadores que percam o emprego ou se vejam em layoff.

No entanto, mesmo aí, a questão “tem de ser muito bem estudada” e a agricultura é disso exemplo. “Se é para dar um ou dois meses de trabalho a alguém que pode apanhar fruta e vive a dez quilómetros da exploração, há potencial para se torna isso possível. Mas se alguém vive na cidade e o local de trabalho fica no interior ou no Alentejo, isso já dificulta uma solução deste tipo”, anota o presidente da CAP.

Retalho lidera procura

Noutros sectores que recrutam pessoas mais qualificadas, há uma “excepção” que se chama retalho online, anota o director da Randstad. Nuno Troni dá o exemplo da FNAC, a retalhista que fechou as lojas físicas mas que continua a vender online e que, por isso, precisa de trabalhadores qualificados. O que se segue não é uma lista da FNAC, mas a título de exemplo entram neste grupo quem tem competências de programação, webdesign, usabilidade e marketing digital.

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Também o retalho e a logística surgem como solução temporária para alguns dos milhões de trabalhadores que nas próximas semanas vão ser pagos para ficarem em casa. A nível mundial, o melhor exemplo é o da Amazon. A empresa do homem mais rico do mundo quer contratar mais 100 mil pessoas.

Isto enquanto a concorrente Walmart (a maior retalhista “física” do mundo, com 2,2 milhões de trabalhadores) encontrou, em sete dias, 25 mil trabalhadores à hora para manter prateleiras cheias e lojas a funcionar durante esta pandemia. Isto tudo numa semana negra nos EUA, onde os pedidos de subsídio ao desemprego escalaram dos 282 mil da semana anterior para 3,3 milhões na semana que agora finda. E a Walmart não fica por aqui. Ao todo quer contratar 150 mil trabalhadores à hora.

Em Portugal, o retalho alimentar parece ir de vento em popa. Segundo o barómetro Nielsen, os portugueses gastaram numa semana 250 milhões de euros em supermercados e hipermercados na semana que terminou a 1 de Março, mais 30 milhões (ou 14%) face ao período homólogo de 2019. Daí que se perceba que o Lidl em Portugal quer, tal como a cadeia concorrente DIA (Minipreço), reforçar o número de pessoas ao serviço. 

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Para quem perdeu o emprego, viu o contrato expirar ou está em layoff, esta pode ser uma saída, admite Nuno Troni. Mas ainda é cedo para perceber que mudanças e quão profundas serão as alterações no mundo laboral, visto que a crise ainda está no início. Ainda assim, o Wall Street Journal  já lhe chama “a mais rápida realocação de recursos desde a II Guerra Mundial”. Os críticos, no entanto, dirão que este é o jornal liberal que tem publicado artigos de opinião e editoriais a questionar se os custos económicos do lockdown ocidental é tido em conta pelos governos que decidiram fechar largas fatias da actividade empresarial para evitar mais contágios e salvar mais vidas.

"Uberização” da pandemia

Mesmo em layoff pode-se trabalhar para outra empresa. É isso o que diz o Código do Trabalho, e a regra foi transposta tal e qual para o chamado layoff simplificado. E em Portugal, onde a adesão a este mecanismo só deverá começar a crescer esta semana (durante a qual se ficará a saber se o país vai continuar sob estado de emergência) já se nota, mesmo assim, um aumento de procura na chamada economia do biscate (a famosa gig economy), que assenta em recursos ociosos. É uma constelação de empregos em part-time, encabeçada por empresas conhecidas por todos, como a Uber que, em Portugal, viu explodir o número de restaurantes que nos últimos dias aderiram à plataforma electrónica Uber Eats, para entregas de comida em casa.

Isso mesmo é testemunhado por fonte da empresa, ao PÚBLICO, indicando que acolhe 12 novos restaurantes em Lisboa e 11 no Porto. “Algumas destas casas já eram procuradas por nós há muito tempo, mas só agora aderiram, devido à situação”, garante a mesma fonte da Uber em Portugal.

A logística e o transporte de bens têm realidades muito distintas, até dentro da mesma empresa. Na Uber, por exemplo, o transporte de passageiros caiu drasticamente, ao passo que a entrega de encomendas regista uma subida em flecha. Esta é a realidade mundial conforme foi descrito pelo CEO nos EUA e que, segundo a fonte portuguesa, é a mesma em Portugal.

Pedro Fontes, empresário de Gaia, ajuda a gerir um negócio familiar que inclui pastelarias, pizzerias e entregas de pequenos-almoços em empresas e ao alojamento local. Esta última está “praticamente parada”, e para os negócios principais, a família teve de rapidamente reajustar-se para reduzir as perdas. “Começa a ser muito complicado. O meu pai esforça-se. Já usa o WhatsApp e o MBWay. E ele era completamente avesso a essas coisas”, descreve, acrescentando que outro grande desafio foi “conceber rapidamente um processo de entregas que não existia para as padarias”.

A necessidade de “estafetas” está a atrair pessoas que agora procuram ocupações temporárias para cobrir rendimento perdido.

O potencial de “uberização” desta pandemia é tão grande que até a Uber vê o futuro com outros olhos. Após meses de desvalorização na bolsa, as acções da empresa subiram esta semana da fasquia dos 21 dólares para os 27. E no meio de bolsas em pânico, surgiu o CEO da Uber a mostrar à imprensa muitas expectativas positivas. Chegou mesmo a anunciar que pode estar em posição de adquirir eventuais concorrentes e promover a consolidação do seu sector, aproveitando a desvalorização atrelada à crise.

Mas nem todo o transporte de bens está tão optimista ou servirá de solução aos que procuram uma alternativa para os próximos meses. Em Portugal, a ANTRAM, que representa mais de 2000 transportadoras rodoviárias, segue atónita com a falta de apoios específicos por parte do Governo. André Martins, porta-voz daquela associação, sublinha que o sector já perdeu mais de 50% das encomendas no transporte internacional, o que coloca uma “pressão tremenda” sobre as empresas que operam nesse segmento.

“Os camiões costumavam ir cheios e regressar cheios. Agora, os que vão cheios, ainda para mais, regressam vazios”, enfatiza, acrescentando que “se estão à procura de um sector que possa absorver mão-de-obra livre, não será no transporte de mercadorias”.

“Tudo isto acontece depois do maior aumento salarial da história, que só agora começou a produzir efeitos. Não é com crédito que vão ajudar estas empresas”, conclui.

Para o director da Randstad, mesmo que alguém encontre um sector livre de dificuldade, a transferência de uma função para outra “será sempre complicada de se fazer”. Sobretudo quando estão em causa perfis com qualificação específica e com salários um pouco ou nada mais elevados. Porque tal como não se obtém um motorista de pesados em 48h, “um jornalista não se torna num gestor de produto do dia para a noite”, exemplifica Nuno Troni.

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