Aumento do uso dos meios digitais pelas crianças não deve ser dramatizado, defendem especialistas

“Uma das formas de a criança fugir a pensamentos maus será, por exemplo, jogar um videojogo ou ver um vídeo divertido.”

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“O tempo para ecrãs, sem excessos, deverá ser distribuído mediante as prioridades” Reuters/Wolfgang Rattay

O uso excessivo de videojogos ou telemóveis pelas crianças continua a ter riscos, mas há que desdramatizar a multiplicação do contacto com meios digitais, nomeadamente para acesso à escola, nos “dias atípicos” de confinamento devido ao surto de covid-19, sustentam especialistas.

“Estamos à procura de um equilíbrio o mais estável possível para poder voltar à normalidade sem prejuízo para cada um de nós”, observa Hercília Guimarães, pediatra e professora catedrática, recusando contradições entre as críticas e avisos pré-pandemia sobre o contacto dos mais novos com meios digitais e todo o contacto que eles têm actualmente, seja para lazer seja para acesso às aulas à distância.

Para a especialista, o que está em causa é a “adaptação” da sociedade actual a uma pandemia, algo que terá uma “duração limitada” e vai passar, sendo necessário “não dramatizar” o contacto acrescido que as crianças estão a ter com ecrãs e novas tecnologias.

A psicóloga Sofia Moreira alerta que se vive “uma situação atípica cujas exigências fogem ao que seria ideal, quer em termos de aprendizagem escolar, quer ao nível do desenvolvimento das competências pessoais e sociais”. “Desta forma, é importante procurar um equilíbrio no uso das tecnologias, independentemente de a finalidade ser o lazer ou efeitos académicos”, sustenta. 

Hercília Guimarães avisa, porém, que “a utilização inadequada e excessiva” por parte de crianças de videojogos, computadores, telemóveis e tablets não é aconselhável, “pelos riscos para a saúde bem conhecidos, nomeadamente a nível de visão e postura, entre outros” — “isto não mudou”.

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Jelleke Vanooteghem/Unsplash

Acontece que a pandemia de covid-19 “veio alterar os hábitos do mundo e a normalidade no nosso dia-a-dia será outra, que todos teremos que compreender e aceitar”.

“É preciso controlar a pandemia e poupar vidas, impedindo a sua propagação. Por outro lado, o mundo não pode parar e, no ensino, houve realmente mudanças extraordinárias que ocorreram em tempo útil para procurar minimizar os riscos nesta área fulcral no desenvolvimento do país, e que felizmente maioritariamente foi conseguido”, observou.

Lidar com a agitação

A psicóloga Sofia Moreira defende que os pais precisam de conseguir “tranquilizar e trabalhar com os filhos estratégias de resiliência e de lidar com a exigência” da pandemia, de modo a enfrentar o distanciamento social “de uma forma mais saudável”. 

Sofia Moreira refere a importância de “perceber que o desgaste psicológico decorrente do confinamento e distanciamento social, quer nas crianças, quer nos jovens, é normal”.

Tal pode traduzir-se em “alguns quadros de ansiedade e maiores dificuldades na auto-regulação do comportamento”, designadamente com “maiores níveis de irritabilidade, intolerância e agitação”.

O psicólogo clínico Jorge Ascensão sustenta que “o tempo para ecrãs, sem excessos, deverá ser distribuído mediante as prioridades, nomeadamente, aprendizagem via telescola ou plataformas de aulas online, contacto com familiares ou amigos distantes, distracção via séries, filmes ou jogos que a família possa usufruir em conjunto, por exemplo”.

Também é “essencial acautelar-se contra a exposição das crianças a imagens ou notícias mais chocantes relacionadas com a pandemia”, refere.

Do mesmo modo, importa perceber que “uma das formas de a criança fugir a pensamentos maus será, por exemplo, jogar um videojogo ou ver um vídeo divertido”.

O psicólogo sugere negociações entre “uma actividade de família em conjunto em troca de uma hora de videojogo” ou outra actividade ambicionada pelos mais novos do agregado.

Tolerância e flexibilidade

“Se formos essencialmente proibitivos é provável que arranjem modo de o fazer nas nossas costas, saindo durante a noite para estar com os amigos e namorados porque não os deixamos fazer videochamadas ou acordarem às duas da manhã para jogar enquanto dormimos, porque não os deixamos jogar ao final da tarde depois das aulas”, alerta.

Para diminuir o impacte da quarentena, Jorge Ascensão aponta a necessidade de “organização e estrutura, mas com tolerância e flexibilidade, aproveitando saudavelmente o que a tecnologia tem para nos oferecer”.

O psicólogo assinala que a “evidência científica identifica preocupações com a saúde” no uso dos meios tradicionais como a televisão, “bem como resultados negativos que se correlacionam com a duração e o conteúdo das visualizações”, sendo disso exemplo o desenvolvimento de obesidade.

Mas, para o especialista, “o mecanismo não é claro” e, “se é verdade que existe correlação entre a utilização activa de ecrãs pelas crianças, competências sociais mais pobres, e diminuição da qualidade e quantidade da interacção com pais e irmãos”, também é correcto afirmar que “correlação não implica necessariamente causalidade”.

Kuala Lumpur, Malásia. Maryem Abdul Hadi, 11 anos, e Abbaas Abdul Hadi, 7 anos, seguram nos desenhos que fizeram durante o surto da doença covid-19 ao pé de uma janela com os seus irmãos Faathimah Abdul Hadi, 3 anos, Shofiyyah Abdul Hadi, 5 anos, e Muhammad Abdul Hadi, 10 anos. "Desenhei-me a brincar com os meus amigos", disse Maryem. "Tenho saudades de brincar com os meus amigos" REUTERS/Lim Huey Teng
Lent, Holanda. "Eu desenhei uma mulher numa posição de ioga porque penso que muitas pessoas estão muito stressadas a cuidar dos filhos... Sinto-me triste porque muita gente se sente triste", contou Noalynne, 9 anos. "Eu desenhei o meu avô e a minha avó porque sinto muito a falta deles. É tão doloroso que muitas pessoas estejam a lutar pelas suas vidas nos hospitais para sobreviver à doença", explicou Annelou, 10 anos REUTERS/Piroschka van de Wouw
Casablanca, Marrocos. "Desenhei uma bicicleta porque tenho saudades de a andar na rua", desabafou Youssef, 6 anos, que pousou para a fotografia com a irmã mais nova, Myriam, 4 anos REUTERS/Youssef Boudlal
Naklo, Eslovénia. Pika Kranjec, de 7 anos, desenhou uma árvore com muito verde à volta, dizendo que lhe faz falta passear: “Não posso ir a lado nenhum" REUTERS/Borut Zivulovic
Budapeste, Hungria. Ivan, 8 anos, deseja “jogar futebol com os amigos", tal como Vince, de 11. Já Vilma tem saudades dos amigos. "Estou bem, só que os professores dão demasiados trabalhos " REUTERS/Bernadett Szabo
Lagos, Nigéria. Sofiat, 8 anos, diz estar “furiosa” por não poder ir à escola: "O que eu desenhei agora é diferente do que normalmente desenho". Olatunji, 11 anos, desenhou uma bola de futebol porque sente “falta de jogar futebol com os amigos”. Amira, 11 anos, desenhou a professora: “Sinto falta da minha escola” REUTERS/Temilade Adelaja
Bruxelas, Bélgica. Marie Lou, 4 anos, tem saudades da avó; Paolo, 9 anos, quer ir passear quando terminar o isolamento. "A [quarentena] é um pouco aborrecida porque não sei o que fazer" REUTERS/Johanna Geron
Tel Aviv, Israel. Mila, 4 anos, está chateada com o coronavírus: “Fiz planos com a minha mãe e estragou tudo... Planeámos fazer uma viagem com Jan (irmão) com a minha bicicleta e depois não fomos” REUTERS/Corinna Kern
Samut Prakan, Tailândia. Nipoon Kitkrailard, 10 anos, desenhou o novo coronavírus. "[O isolamento] pode ser aborrecido, mas vai ajudar tremendamente na luta contra a covid-19" REUTERS/Athit Perawongmetha
Pequim, China. Li Congchen, 11 anos, construiu uma história que acompanha as várias fases do surto, incluindo o futuro: “Os seres humanos derrotarão e diminuirão os vírus com armas de vacinação" REUTERS/Tingshu Wang
Munique, Alemanha. Matthew Bekele, 13 anos, Lidya Bekele, 10, e Eviana Bekele, 4. O mais velho queixa-se do tédio; a do meio sente saudades dos amigos e da escola REUTERS/Andreas Gebert
Salónica, Grécia. Vasilis Bekiaris, 10 anos, e Aggeliki Bekiaris, 7 anos. "Quero a Primavera de volta" e "Ficamos em casa" são as frases que se lêem nos desenhos REUTERS/Murad Sezer
Nova Iorque, EUA. Jane Hassebroek, 13 anos: "Escolhi desenhar o parque do bairro porque é um lugar onde eu e os meus amigos podemos ir uns com os ouros e simplesmente divertirmo-nos” REUTERS/Caitlin Ochs
Santiago, Chile. Matilda Soto Quilenan, 6 anos, desenhou-se a si própria com a sua melhor amiga Ema, de quem diz sentir muita falta REUTERS/Ivan Alvarado
Berlim, Alemanha. Willem Vorbau, 14 anos, sente falta de jogar voleibol. “É do que sinto mais falta neste momento" REUTERS/Hannibal Hanschke
Tóquio, Japão. Reku Matsui, 8 anos, fez um desenho de si próprio com os avós, de quem sente falta; Yaya Matsui, 12, desenhou-se com um amigo — “O que eu mais quero fazer agora é sair com os meus amigos" REUTERS/Kim Kyung-Hoon
Colombo, Sri Lanka. Sandithi Illeperuma, 14 anos, diz sentir-se sozinha, como a rapariga que surge no seu desenho, sentada, de queixo nos joelhos, com uma máscara, enquanto um grupo de figuras femininas de saias dançam juntas REUTERS/Dinuka Liyanawatte
Zenica, Bósnia e Herzegovina, "Costumava desenhar números e letras antes do isolamento... e agora vejo muitas séries de televisão 911 e é sobretudo isso que eu desenho", explica Ilhan Ruvic, 5 anos. "Desenhei bombeiros porque são heróis" REUTERS/ Dado Ruvic
Tóquio, Japão. "Tenho saudades de estar com a minha avó e o meu avô", disse Reku, 8 anos, enquanto Yaya, 12, quer estar com os amigos REUTERS/Kim Kyung-Hoon
Madrid, Espanha. Sergio Martinez, 15 anos: "Desenhei uma sapatilha porque agora não a posso calçar. Tenho saudades de sair, de jogar com os meus amigos, de jogar basquetebol e de treinar com a minha equipa” REUTERS/Sergio Perez
Sydney, Austrália. Oriana e Rafaela têm 8 anos e são gémeas. Mostram os desenhos, mas confessam ter medo. “Sinto-me muito triste e frustrada por no ano passado termos tido os incêndios e este ano termos o vírus”, desabafou Rafaela REUTERS/Loren Elliott
Nova Deli, Índia. Shaurya Pratap Singh, 10 anos. "O que mais sinto falta [da] vida antes do encerramento é de conhecer pessoas” REUTERS/Anushree Fadnavis
Castiglione della Pescaia, Grosseto, Itália. Arianna Sorresina, 7 anos, desenhou uma recordação do tempo que passou com os seus melhores amigos. “[O confinamento] faz-me sentir mal, muito mal mesmo" REUTERS/Jennifer Lorenzini
Havana, Cuba. Cristofer Lucas Reyes, 7 anos: "Antes, eu desenhava coisas abstractas, mas agora desenho a realidade do que se passa". O seu desenho mostra-o com a mãe dentro de casa, com máscaras, enquanto o pai, que é médico, está a trabalhar REUTERS/Alexandre Meneghini
Lausanne, Suíça. Eva e Camilla têm saudades da rua, da escola, dos amigos REUTERS/Denis Balibouse
Singapura. Nasya Danial Cheng, 8 anos: "O encerramento deixa-me triste pelas pessoas que estão doentes e não conseguem ver as suas famílias" REUTERS/Dawn Chua
Bruxelas, Bélgica. Marie Lou, 4 anos, tem saudades da avó; Paolo, 9 anos, quer ir passear quando terminar o isolamento REUTERS/Johanna Geron
Hombourg-Haut, França. Arthur, 9 anos, desenhou um helicóptero depois de ter visto um a sobrevoar a sua casa; Zoe, 6 anos, fez um desenho de uma ilha porque sente falta de férias REUTERS/Christian Hartmann
Nove Jirny, República Checa. Os meios-irmãos Dominik, 9 anos, e Filip Kasuba, 6, fizeram desenhos sobre o que gostavam de estar a fazer REUTERS/David W Cerny
Hombourg-Haut, França. Zoe, 6 anos: “Fazem-me falta as férias" REUTERS/Christian Hartmann
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São pequenos, mas nem por isso estão a ser menos afectados pelo confinamento. E, mesmo que a maioria exiba rasgados sorrisos, crianças de diferentes latitudes e longitudes confessam-se tristes e preocupadas.

Reuters

“Poderíamos também inferir que as crianças procuram mais os ecrãs como escape ou complemento, quando a comunicação dos pais e irmãos é diminuta”, alerta.