#EstudoEmCasa também já conquistou quem não vai à escola

Entre um misto de nostalgia e o desejo de voltar à escola, são muitos os adultos, com e sem filhos, em teletrabalho ou não, que vão deitando o olho às aulas que começaram na RTP Memória.

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Mesmo com críticas, a apreciação global do projecto é positiva LUSA/ANDRÉ KOSTERS

O #EstudoEmCasa, uma variação da extinta Telescola, voltou a trazer as salas de aula para o conforto do lar, numa altura em que muita gente se encontra em isolamento, quer ou não em teletrabalho. Por isso, não são só os miúdos que estão com atenção aos professores — há pais a acompanharem as aulas e outros adultos que, mesmo sem crianças em idade escolar, aproveitam para “recordar certas matérias, reaprender outras”. E, mesmo com críticas, a apreciação global é positiva. Afinal, sintetiza Rita Camões “é um quentinho que faz falta nesta altura”.

Sócia-gerente de uma empresa de venda e distribuição de bebidas a operar sobretudo nos distritos de Bragança e Vila Real, Rita Camões está em casa desde que se viu forçada a colocar quase todos os funcionários em lay-off. “Vendemos muito pouco: só algum take-away e minimercados”, justifica.

Sobre o #EstudoEmCasa, acha que “todos tínhamos saudades de voltar a uma sala de aula” e, com o filho mais novo com 11 anos, acaba por acompanhá-lo — “motiva-se só de me ver entusiasmada a repetir o que os professores pedem” —, mas não só: “Vejo várias [aulas]: Alemão, Ginástica, Artes (que teve aula de Música pelo meio), Matemática dos 7.º e 8.º ano.”

Em geral, está a gostar dos professores mas, para já, a preferida é justamente a de Matemática daqueles anos: “A senhora era uma máquina! (…) Parecia que fazia isto desde sempre, e nota-se que adora dar aulas.”

A apreciação das aulas varia segundo o público-alvo e também de acordo com o ritmo de quem está na pequena caixa mágica. É essa a observação de Cláudia Vieira, em teletrabalho e com três filhos em ciclos distintos: “No pré-escolar, o desafio diário é muito giro, mas é pena não ter momento de leitura como existe para 1.º ciclo; a que está no 4.º ano, está a adorar, diz que percebe melhor e é mais fácil; o que está no 7.º só as vê obrigado. Diz que as aulas da televisão são mais chatas que as que tem com os professores.”

Mas, repara Cláudia Vieira, “nota-se que os professores têm bem presente que estão a comunicar para dois anos diferentes, para miúdos que podem ter mais dificuldades e que não têm acesso aos materiais”. A preferida desta técnica de controlo de qualidade para o Sapo, para já, foi a de Educação Artística: “Achei fantástica a aula da manhã de terça-feira.”

Professora de Inglês na plataforma online Learnlight, Vírginia Nini sentiu-se logo conquistada à primeira aula: “Na segunda-feira, fiquei muito satisfeita com a primeira aula de Português (a minha filha está no 2.º ano). Gostei da forma como a professora, além de ler as histórias às crianças, quase que deu uma aula de práticas pedagógicas para os pais.”

Entretanto, também está a aproveitar para recuperar matéria perdida. “Assisti à aula de História do 9.º ano porque a minha professora faltava imenso e fiquei sempre com a ideia de que faltava alguma coisa. Não que já não tenha aprendido, mas gosto de rever.” Já na terça-feira, viu a aula de Alemão, disciplina que não lecciona há muito tempo, “por prazer” e achou a aula “muito bem estruturada”.

Televisão nostalgia

“Como dizia Piaget, a melhor escola é a que está mais perto de casa”, recorda Sílvia Melo, justificando a decisão dos pais de a manterem, no 5.º e 6.º ano, na Telescola, na aldeia de Salto (agora, é vila), concelho de Montalegre. “Tínhamos aulas só de tarde: a primeira meia hora de aula era pela televisão, com um professor da disciplina que nos explicava a matéria, e a meia hora seguinte com a professora na sala com quem fazíamos as fichas e tirávamos dúvidas”, recorda.

Esta é, aliás, a principal diferença entre a Telescola, extinta em 2004, e o modelo do #EstudoEmCasa actual: a existência de professores de apoio: “Na sala, tínhamos duas professoras, uma das letras e outra das ciências, que depois [da emissão televisiva] apoiavam nas respectivas áreas.”

Quando chegou ao 7.º ano, a actual engenheira química, agora a residir no concelho de Tomar, nunca se sentiu menos preparada que os alunos que tinham completado o então ensino preparatório com aulas presenciais. Pelo contrário: “A Telescola dava-nos mundo, porque não se limitava a ensinar debitando conteúdo, mas mostrando experiências, filmes, vídeos da realidade que estávamos a aprender.”

Sensações que partilha com Teresa da Cunha, que trabalha como financial controller. “Sinto uma nostalgia imensa ao ver a nova telescola”, confessa. “Recordo-me de andar na primária em Moreira de Cónegos [concelho de Guimarães] e ter um fascínio imenso pela televisão guardada num armário da minha sala de aulas.”

Teresa da Cunha está em isolamento em casa e vai ouvindo as aulas do filho no 9.º ano, mas não só. “Tenho tido a televisão ligada na RTP Memória e vou ouvindo: Espanhol, História, Português...”

Aulas à la carte

Em teletrabalho, Sandra Flores, em Lisboa, aproveita a hora de almoço para assistir às aulas com o filho mais novo, de 13 anos. “A desta terça-feira, de Inglês [de 7.º e 8.º anos], achámos superinteressante, cheia de ritmo mesmo que a professora estivesse com ‘butterflies in the stomach’.” Tão cheia de ritmo que o resultado foi mãe e filho a terminarem o almoço e a aula a “cantar o karaoke proposto”.

Sem crianças em casa e desempregada, Ana Umbelino, a viver em Santarém, mudou o canal para a RTP Memória por curiosidade: “Lembro-me no meu tempo de escola de ter colegas que tinham aprendido pela Telescola.” Começou, assim, a ver aulas avulso e sem consultar horário. “Tendo em conta o tempo que os professores tiveram para se habituar a esta nova realidade, achei bastante bom.” De tal maneira, que acabou a estudar o horário e já tem aulas marcadas: “Interessei-me pelas aulas de Alemão e as de Francês: as primeiras por curiosidade, as segundas para revisão”. “Sabe bem um intervalo da televisão normal”, confessa.

Até pelo jornal PÚBLICO houve jornalistas a tornarem-se fiéis da nova Telescoa. Em Lisboa, Luís J. Santos, em teletrabalho, até recuperou um horário à antiga,  com detalhes pessoais mas que lembrará a muitos os horários que se usavam nos anos de 1980, o que dá um toque de nostalgia à sua escolha das aulas que lhe interessam: História, Geografia e Cidadania ("estamos todos a precisar destas matérias”, diz), Espanhol, Francês, até Português e Alemão… “Gostei da professora Cristina logo à primeira!”, elogia, referindo-se à docente de Alemão, a primeira aula a que assistiu.

PÚBLICO -
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Um toque de nostalgia: um novo velho horário, como se estivéssemos nos anos de 1980

Aos 83 anos, Matilde Ribeiro não teve aulas pela Telescola: “Na época, não podia ver porque já trabalhava.” A curiosidade leva-a a espreitar, não tanto para aprender (“Ainda não ouvi nada que já não soubesse…”), mas porque gosta de ouvir a forma como as aulas são dadas: “Há professores que explicam muito bem; dá gosto ouvir.”

É precisamente a riqueza que este projecto representa para a população adulta que enaltece Catarina Coutinho, professora numa escola do Agrupamento Dr. Azevedo Neves, concelho da Amadora, que, agora, tem a função dupla de fazer de docente do filho de 7 anos. “Tento conciliar as minhas aulas com o 1.º ciclo na telescola”, relata, ao mesmo tempo que elogia o facto de a escola que o menor frequenta, noutro agrupamento do mesmo concelho, ter adaptado o horário ao das aulas de televisão: “A maioria das escolhas públicas está a fazê-lo.”

E as aulas têm corrido bem: “O Gustavo está supercontente. Passou a acordar mais cedo e comporta-se como se estivesse mesmo em sala de aula, com respeito pela professora na televisão.”

Ainda assim, acusa o excesso de matéria para aqueles 30 minutos. Opinião corroborada por Maria José Mateus, que deu aulas ao primeiro ciclo durante 36 anos: “São muitas coisas para uma única aula; acho difícil que os meninos estejam a conseguir acompanhar”. Hoje, com 78 anos, decidiu acompanhar as aulas e, mesmo à distância ir apoiando os netos, de 6 e 11 anos. “Aqueles professores estão a fazer o melhor que podem” e, no contexto, “é melhor que nada”. Mas sente que muitas desigualdades não se desvanecerão com esta iniciativa, sobretudo para os que não podem contar com o acompanhamento dos pais, por estarem em teletrabalho ou por outro qualquer condicionalismo.  

No entanto, há momentos que valem a pena, como a aula de Educação Artística. Findo o momento, mandou mensagem aos netos a pedir um trabalho saído daquele período lectivo. “Ao fim de 15 minutos, tinha uma fotografia no WhatsApp.”

Já Rita Camões, que até já fez Educação Física (“e a vizinha de cima também”, calcula, pelo barulho), vê o projecto também como uma oportunidade para “os miúdos conhecerem outra forma de leccionar que não seja a dos seus professores”. “Às vezes, pensam que não gostam ou que não têm jeito para certas matérias, mas pode pura e simplesmente ser falta de empatia pelo professor, ou não encaixarem a forma como o mesmo explica.”

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