Ensino à distância? Não é o regresso da Telescola, mas a RTP responde com conteúdos educativos

Em causa não está a reactivação da Telescola, mas encontrar um espaço que dilua o fosso social do ensino à distância assente no digital. RTP já está a coordenar conteúdos com o Ministério da Educação.

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Daniel Rocha

O Conselho de Opinião (CO) propôs ao Conselho da Administração (CA) da RTP o retomar do ensino à distância. Através do gabinete de imprensa da televisão pública, o presidente do CA, Gonçalo Reis, confirmou ao PÚBLICO ter recebido uma sugestão do CO para “a disponibilização de certas faixas horárias (materiais e recursos) na Rádio e na Televisão para a sua utilização, em coordenação com o Ministério da Educação, para fins educativos.” “A administração agradeceu e informou que os directores da RTP estão já a tomar várias iniciativas nesse sentido”, foi a resposta.

A sugestão, numa primeira fase, explicou Maria Emília Brederode dos Santos, presidente do Conselho Nacional de Educação e membro do CO da RTP, propunha que o ensino à distância pudesse recorrer à difusão radiofónica, “que não carece de presença e que será mais fácil de organizar”. A iniciativa, defendeu a responsável ao PÚBLICO, “poderia ser uma maneira de organizar o ensino à distância minimizando as desigualdades”, entre, por exemplo, quem tem um computador em casa e quem não tem, e “fazendo um apelo aos professores para que disponibilizassem os materiais”.

“Não basta dizerem que estão disponíveis e enviarem trabalhos aos alunos”, reflecte, considerando ser necessário “um passo à frente, com sugestões e actividades”, ao mesmo tempo que se deveria “aproveitar mais as ocasiões de educação informal”, exemplificando com o próprio SARS-CoV-2 que levou ao encerramento dos espaços de ensino. “Uma aprendizagem sobre o vírus presta-se a todas as abordagens: matemática, histórica, científica.”

Não é a Telescola

Maria Emília Brederode dos Santos ressalva que não se pode confundir estas medidas com a extinta Telescola. “A Telescola foi um projecto muito organizado que implicava também a presença, que aqui não poderá haver”, compara.

Criada numa altura em que se deu a expansão da escolaridade obrigatória até aos seis anos, não havendo nem professores nem espaços suficientes, o projecto da Telescola, recorda, “foi feito com um tempo que agora não temos”.

Da parte da RTP, esclarece-se que, desde o início da semana passada, os vários directores de canais, antenas e plataformas estão a adaptar as suas grelhas de programação ao facto de haver mais crianças e jovens em casa. O ajustamento, garantem, está a ser feito “em articulação com o Ministério da Educação (ME), através da sua secretaria de Estado. Isto, além de novos conteúdos do site RTP Ensina, da rádio Zig Zag e de campanhas coordenadas por aquela tutela.

Paralelamente, indicam, foi iniciada “uma colaboração permanente com o ME com o objectivo de divulgar as iniciativas escolares à distância que estão a ser implementadas a nível nacional, focadas sobretudo no digital”.

Não é ensino doméstico

Ter professores a enviar trabalhos remotamente “não é a melhor solução”, começa por dizer António J. Osório, professor auxiliar da Universidade do Minho, apesar de ressalvar que é necessário “assumir que estamos a enfrentar uma realidade para a qual não estávamos preparados”.

Face ao ensino doméstico, por exemplo, uma das diferenças claras, aponta o investigador, é a ausência de alguém capaz de acompanhar as actividades lectivas — um defeito que se junta ao facto de não existirem as ferramentas nem a preparação necessárias para o ensino doméstico e ainda à possibilidade de os encarregados de educação estarem absorvidos em teletrabalho — algo que também poderá limitar a disponibilidade dos recursos tecnológicos. Afinal, em casa, pode não haver computadores para todos os membros da família, por exemplo.

No entanto, o professor não desanima, considerando que “esta necessidade será também oportunidade para aguçar o engenho”. “Vamos inventar, construir, encontrar soluções que resolvam o nosso problema – dos alunos, das famílias, das formações de empresas.”

Apesar de reconhecer que “as instituições, as escolas, as universidades e as empresas que já utilizavam estas ferramentas estão em vantagem”, António Osório acredita que o primeiro passo é “aceitar a diversidade de soluções”. “Cada grupo deve encontrar a solução que está ao seu alcance.” Já dos responsáveis, o investigador defende que a sua função passa por “encorajar essa diversidade e a partilha da mesma”, dando como exemplo o projecto já aplicado no município do Fundão (NEO - Nota Êxito Online), com aulas e explicações remotas. “Alguém deveria perguntar-lhes como fazem e o que funciona.”

Sobre o facto de esta solução poder promover desigualdades sociais, o perito considera que o problema é mais profundo: “Tenha-se ou não acesso às ferramentas (e imagino que até computadores obsoletos sejam recuperados), o problema é o mesmo: a maioria não sabe explorar as ferramentas”, sublinhado que “o [trabalho] remoto e o digital não resolvem tudo”. “O mais importante será trabalhar em rede.”

Por estes dias Gilda Melo, professora de TIC - Tecnologias da Informação e Comunicação do 7.º ano numa escola do concelho de Sesimbra, movimenta-se num território que não lhe é totalmente desconhecido, sendo que já usava algumas ferramentas em sala de aula. Ainda assim, chama a atenção para o facto de a maioria dos alunos estar a desbravar um caminho novo e a precisar de apoio. “Desde segunda-feira, estou em contacto com os alunos, por e-mail, e vou orientando-os: como fazer o download do programa, mando fotografias a ilustrar, etc..” No entanto, sabe que vários alunos não têm computador em casa, mas smartphones: “Andei à procura de uma aplicação semelhante, com a qual consigam trabalhar no telemóvel — não é a mesma coisa, mas o importante agora é continuar a trabalhar alguma coisa.”

Professores e alunos afastados — o que fazer?

Quando as aulas presenciais foram suspensas, mas as actividades lectivas mantidas, iniciou-se uma correria para criar soluções para manter os alunos activos, com a Direcção-Geral da Educação a promover um vídeo com dicas para os encarregados de educação.

No entanto, ninguém estava preparado para este cenário: nem professores, nem pais, e muito menos alunos. E, enquanto há pais que, em teletrabalho e com os filhos em actividade lectiva no mesmo espaço, descrevem o cenário de isolamento com um “enlouquecimento relativamente contido”, outros, ao segundo dia, confessam já os ter mandado “calar uma data de vezes”.

“Os miúdos estão orientados com a escola e desse ponto de vista corre bem”, descreve Tânia Cunha ao PÚBLICO, adiantando que no caso do filho “até trabalha mais agora do que quando está na escola”. Ainda assim, admite que ter os filhos a estudar em casa “corta com fartura o ritmo de trabalho”. “Mas enfim, é o que é”, desabafa, resignada. 

Para o sociólogo João Teixeira Lopes, docente na Universidade do Porto, a solução encontrada é “apesar de tudo, melhor do que nada”, considerando que esta foi “uma primeira reacção”.

A utilização da Internet para o envio de actividades, explica, revela a “preocupação dos professores em criar rotinas e regras”, sendo também “uma forma de tentar manter o quotidiano”. No entanto, “é evidente que esta situação vai criar desigualdades no acesso à aprendizagem, que tem de ser igual”, adverte.

Citando dados do Inquérito às Despesas das Famílias, realizado pelo INE em 2016, o professor recorda que, na base da pirâmide dos rendimentos, onde se encontra uma grande fatia da população, apenas 45,6% tinham um computador e 46,3% ligação à Internet em casa.

“A fractura digital em Portugal é notória”, observa, considerando “fundamental existirem medidas de compensação quando regressarmos às modalidades presenciais”. “Acho importante que as crianças e os adolescentes possam ter um dia-a-dia o mais normal possível, mas não podemos fazer de conta que isto é equivalente às aulas presenciais.”

Numa segunda fase, estima que tudo isto seja aplanado. Ainda assim, considera impensável avaliar alunos à distância, seja através de exames ou de pauta. Também a professora Gilda Melo não está à espera que os alunos correspondam a 100%: “Não podemos exigir o mesmo, como se nada estivesse a acontecer.” Numa segunda fase, espera, porém, que as escolas façam o levantamento das necessidades e, eventualmente, encontrem uma forma de todos os alunos terem um computador em casa, mesmo que quase obsoleto.

Quando ao modelo da Telescola, que João Teixeira Lopes descreve como ter funcionado “muito bem no seu tempo”, o sociólogo considera que para se tornar útil nos dias de hoje teria de ser totalmente repensado, indicando que o mesmo “não resolve o problema do apoio mais directo, mais individualizado”. Ainda assim, para o futuro “poder-se-á criar um modelo [ao estilo da Telescola] multimédia e interactivo”.