Netflix já vale mais do que uma petrolífera e espelha revolução no entretenimento

Durante o Grande Confinamento mundial, as bolsas valorizam o streaming mais do que combustíveis e as vastas bibliotecas acessíveis de casa. “O futuro que Hollywood temia está a acontecer agora”, mas é imprevisível.

Los Angeles
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Reuters/Lucy Nicholson

A Netflix não é só um fenómeno da quarentena na sequência de êxitos virais como a bizarria de Tiger King ou o seu longo catálogo à medida do Grande Confinamento (como o classificou o FMI). Na quinta-feira, a empresa norte-americana bateu recordes e atingiu o seu mais elevado valor em bolsa, tornando uma plataforma de streaming numa empresa mais valiosa do que uma petrolífera como a ExxonMobil. A par de outras empresas que misturam tecnologia e entretenimento, o seu valor nos mercados pode permitir antever revezes da intriga na história do cinema e na televisão no pós-coronavírus.

A bolsa de Nova Iorque foi quinta-feira um espelho das mudanças radicais e sem precedentes que a pandemia da covid-19 trouxe para o mundo do entretenimento. A Netflix acabou o dia a valer 172 mil milhões de euros e foram negociados 413 milhões de euros, um valor recorde, de acções da empresa de Stranger Things. Mas, em simultâneo, o preço das acções da multinacional petrolífera ExxonMobil — que, como assinala a Bloomberg, há escassos anos era a maior empresa nos EUA — caía 3% e terminava o seu dia atrás da Netflix.

Foi também um dia em que a Amazon, Apple, Facebook, todas tecnológicas que são também produtoras de conteúdos, estiveram a subir na bolsa. A Disney não teve a mesma sorte mas ainda vale bem mais do que a Netflix e está neste mesmo jogo: no final de Fevereiro continuou a expansão do seu novo serviço de streaming Disney+ para a Europa, mesmo à beira do abismo do coronavírus; na semana passada, anunciou 50 milhões de subscritores nos primeiros cinco meses de plataforma. A líder e pioneira Netflix tem 160 milhões de subscritores e está em mais de 190 países.

Queda de investimento publicitário

Os primeiros sintomas desta viragem que agora faz parte do filme bolsista da pandemia foram os picos históricos de audiências da televisão tradicional e o aumento do tráfego dos serviços de streaming, de tal ordem que a Comissão Europeia teve de pedir ao YouTube e companhia que reduzissem a qualidade da transmissão para poupar largura de banda. Ao mesmo tempo, o Reino Unido e alguns países da Europa recebiam o Disney+ onde podiam ver Frozen II semanas depois de ter saído dos cinemas, que fecharam em massa nos países afectados, a Netflix estreava a série Tiger King ou mais uma temporada de La Casa de Papel e via-se Contágio na Amazon Prime, por exemplo.

Com os cinemas fechados por tempo indeterminado, as estreias adiam-se ou fazem-se em streaming, acelerando (temporariamente?) uma viragem no mercado. E o streaming não depende de outra crise do sector: a queda do investimento publicitário.

“O incremento de novos conteúdos na plataforma associados ao valor da biblioteca da Netflix para aqueles que estão em casa durante a crise da covid-19, alimentou este desempenho acima da média, mais do que compensando o impacto do aumento de preço [das assinaturas] no ano passado e a crescente concorrência”, escreveu o analista Heath Terry, da Goldman Sachs, num relatório enviado aos investidores e citado pelo site Nasdaq.com.

Negócio são as assinaturas

Nos bastidores, porém, desenrola-se outra história. Além de a Netflix ter uma aura de permanente expansão que ofusca a sua dívida galopante, os serviços de streaming não ganham mais por serem mais vistos — o seu negócio são as assinaturas.

E depois, há os verdadeiros bastidores. Tal como para o cinema, as filmagens de dezenas de novos filmes, séries, reality shows, concursos ou documentários pararam devido à pandemia que está a tornar as grelhas da TV e as bibliotecas do streaming bens de primeira necessidade neste grande movimento imprevisível do mercado audiovisual.

Os efeitos no streaming serão diversos e dispersos no tempo: no início de 2021 a Netflix não deverá poder contar com a quarta temporada de Stranger Things, que congelou a produção, mas a estreia da segunda temporada de The Mandalorian no Disney+ (que chega a Portugal no início do Verão) poderá não ser afectada porque as filmagens terminaram antes do surto. Outras séries-bandeira de serviços como a Amazon ou a Apple estão também a ser afectadas, como é o caso da segunda temporada de Morning Show, na Apple TV+, ou da sigilosa série baseada no universo Senhor dos Anéis da Amazon Prime Video.

Tudo isto, associado às previsões de uma recessão global que reduzirá o poder de compra, pode levar à queda das assinaturas de serviços de streaming no pós-covid-19. Mas como nota a analista Tara Lachapelle na Bloomberg, nesse cenário também as “assinaturas de pacotes de TV por cabo podem parecer ainda mais dispensáveis” na ausência de desporto ao vivo, por exemplo.

O dia histórico da Netflix nas bolsas, numa altura em que não há tanta gente nas ruas a precisar de gasolina quanto as que estão em casa a clicar no comando à distância, permite antever outro cenário. Os blockbusters de Verão podem tornar-se blockbusters de Outono, os Óscares poderão ter de ceder ao streaming, os festivais de cinema tacteiam à procura de um caminho e no fundo, como escrevia o New York Times esta semana, “o futuro que Hollywood temia está a acontecer agora”.

E se este “agora” é o do streaming, como defende Tara Lachapelle, poderá ter impacto em toda a cadeia. “Agora é tudo sobre o streaming e as plataformas de entretenimento estão a competir por fãs que por estes dias têm mais tempo do que dinheiro para gastar. Isso pode muito bem forçar uma mudança no pensamento dos gigantes dos media e provocar a mudança mais rápida que a indústria alguma vez viu.”