Netflix Party: contra o isolamento, o mundo descobre formas de ver séries e filmes em conjunto

Sem salas de cinema e com as pessoas fechadas em casa, consumir streaming em simultâneo e à conversa convenceu até Beyoncé.

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Mike Blake/Reuters

Como um relâmpago, as tensões de anos entre cinemas e streaming foram revolvidas em poucos dias pelo novo coronavírus. Há milhares de cinemas fechados em todo o mundo, os grandes estúdios estão pôr alguns dos seus filmes mais preciosos em vídeo on demand e a indústria subitamente afunila para um canal –​ o streaming. E se estas medidas extraordinárias e temporárias deixavam uma coisa de fora, a experiência comunitária de ver algo em simultâneo, a tecnologia também já resolveu esse dilema. Chama-se Netflix Party e permite partilhar o que se está a ver streaming nestes dias de isolamento. Beyoncé já aprovou.

Netflix Party é uma extensão do browser Google Chrome e, não sendo um produto oficial que a Netflix ou o Google tenham endossado, está a ser uma das sugestões dos últimos dias face às centenas de milhares de pessoas que agora estão em casa. A extensão sincroniza a reprodução de vídeo entre todos os que a descarregarem e criarem um grupo com amigos e/ou família para assistir em simultâneo à série ou ao filme da sua escolha que esteja no catálogo da Netflix. Mesmo agora depois de, na quinta-feira, a Netflix se ter comprometido a baixar a qualidade da sua emissão na Europa para aliviar o congestionamento da rede.

A Netflix é a pioneira no streaming e na produção de conteúdos originais desde 2013 e a líder de um mercado cada vez mais cheio de concorrentes como a Amazon, a HBO e outras plataformas (como a Hulu, que não está disponível em Portugal). Com 167 milhões de subscritores (o que pode representar muitos mais potenciais espectadores, visto que as contas podem ser partilhadas por vários lares ou indivíduos), era inevitável que os criadores deste produto apontassem a mira ao seu catálogo. Porém, existem outras aplicações, como o Kast, que permite criar um grupo de até 99 pessoas para verem ao mesmo tempo títulos dos catálogos da HBO, da Amazon Prime Video, ou do YouTube (ou videojogos).

Outra ressalva: o Netflix Party existe pelo menos desde 2016, e até houve um serviço semelhante nas consolas Xbox, mas a popularidade desta funcionalidade criada pelo developer Stephan Boyer foi renovada pela pandemia. Nestes quatro anos de existência, também se tornou possível usá-la fora dos EUA, e eis que o mundo a redescobriu agora.

Nos últimos dias, um convite da gestora editorial da Netflix Jasmin Lawson para uma festa de visionamento do documentário Homecoming, de Beyoncé, na Netflix teve o apoio da própria cantora e tornou-se outro veículo de divulgação do Netflix Party – a festa teve lugar na noite de quarta-feira (no fuso horário da costa oeste dos EUA) e o Twitter ainda está a celebrar o sucesso do evento.

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Menos festivo e sem música, o cronista Stuart Heritage admite no diário britânico The Guardian estar a ter dificuldades a adaptar-se à experiência do auto-isolamento. É taxativo: “Neste momento, o Netflix Party parece absolutamente necessário. A auto-quarentena atomizou-nos e se isto é o mais perto que temos de ver filmes e séries com os amigos então vamos agarrá-lo com as duas mãos. E mesmo se não fosse uma altura de grandes dificuldades, o Netflix Party seria uma óptima ideia”, defende.

É um tema que se tornou premente nos últimos anos. Apesar do poder agregador dos canais generalistas em países como Portugal, os novos hábitos de consumo anunciam uma realidade em que cada vez menos há programas consumidos em simultâneo por grandes quantidades de pessoas. A Guerra dos Tronos, por exemplo, foi um dos últimos momentos recentes de partilha televisiva em que o tempo era colectivo e não individual e no cinema de massas só os grandes fenómenos, limitados por temáticas e géneros (sobretudo os blockbusters e os filmes Marvel), continuam a permitir essa experiência transversal. Se Heritage compara o Netflix Party a um salva-vidas no reino da televisão, o público que tem engrossado as audiências dos canais generalistas e os cinemas agora em apuros discordarão.

O mercado da exibição está a viver um momento sem precedentes, com a exibição comercial total ou parcialmente paralisada em países como Portugal, Itália, Espanha, Reino Unido, Coreia do Sul, China ou Japão total, e os exibidores independentes de vários países a pedirem ajuda aos seus governos para lidar com as consequências da pandemia. Muitas das estreias futuras estão suspensas, o que afecta também o mercado da distribuição, assim como as rodagens, o que estende o efeito dominó ao sector da produção. O mesmo se passa na televisão tradicional e mesmo na Netflix.

Para lidar com a situação, para já, filmes acabados de estrear como O Homem Invisível ou Bloodshot (o filme mais visto dos últimos dias em Portugal antes de os cinemas encerrarem), bem como o trunfo Disney Frozen – O Reino do Gelo 2, estão já nos serviços de video on demand dos seus estúdios e parceiros nos EUA. Em Portugal, o mesmo se passa no cinema independente: a Medeia Filmes montou a Quarentena Cinéfila no seu site com filmes novos às terças, quintas e sábados, disponíveis por um dia e meio, a plataforma FilmIn vai pôr o recém-estreado Mosquito, de João Nuno Pinto, e a versão mini-série de A Herdade, de Tiago Guedes, ao dispor dos assinantes, e vários realizadores portugueses estão a disponibilizar links para os seus filmes.

Ainda assim, uma festa Netflix e o funil do streaming para ver cinema por estes dias em que a vista para o mundo exterior se estreitou tem limitações que uma extensão informática não ultrapassa: o Netflix Party só pode ser usado em computadores, e se há por aí monitores de grandes dimensões, a distância para o ecrã de um cinema é tão grande quanto o distanciamento social a que cada vez mais países estão obrigados. Social é também o contrato que informalmente se estabelece entre espectadores desconhecidos numa sala escura investidos numa saída de casa para ver um filme num cinema. O Netflix Party é de facto sobretudo televisivo –​ até tem uma funcionalidade que contraria a etiqueta da experiência do cinema em sala, um chat que permite comentar em tempo real o filme ou a série que estão a ver, mas que é agora um escape para o estado de emergência.