Coronavírus: Cinemas portugueses tiveram o pior fim-de-semana dos últimos anos e uma quebra histórica

“Não há memória de números tão baixos.” O impacto da covid-19 na exibição cifra-se em quebras superiores a 80%. Centenas de salas já fecharam em todo o país.

,Imagens da Sony
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Bloodshot, a estreia de quinta-feira passada que liderou um fraco box-office DR

Os resultados de bilheteira divulgados esta segunda-feira pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) confirmam um cenário que já se adivinhava: foi o pior fim-de-semana dos últimos anos e a quebra abrupta pode mesmo configurar uma baixa histórica desde que há medição da afluência de espectadores aos cinemas em Portugal. “Não há memória de números tão baixos”, diz ao PÚBLICO António Quintas, responsável pelo site FilmSpot e ex-responsável de marketing da Columbia-Warner em Portugal.

Se nos EUA os resultados de bilheteira do último fim-de-semana estão a ser comparados a quebras históricas como as sentidas após os atentados de 11 de Setembro, com descidas de 44% na afluência aos cinemas, em Portugal este fim-de-semana houve vários filmes com menos de 20 espectadores em sala. Os resultados são, em toda a linha, desastrosos. Os 40 filmes mais vistos dos últimos quatro dias (os que são listados pelo ICA na sua informação regular) tiveram 47.888 espectadores, ou seja menos 94,25% do que no fim-de-semana anterior, e 8322 espectadores, o que representa uma quebra de 94,7% relativamente ao número de pessoas que foram ao cinema entre 5 e 8 de Março.

De acordo com os dados do ICA que contabilizou entre quinta-feira, dia 12, e domingo, dia 15, o filme mais visto foi Bloodshot, com Vin Diesel, que acumulou 2357 espectadores em 530 sessões distribuídas por todo o país. O resultado bruto de bilheteira desta estreia foi de cerca de 14 mil euros. No mesmo período na semana passada, antes do agudizar da crise do novo coronavírus e das medidas extraordinárias de contenção da covid-19, o filme mais visto foi a animação Bora , também em estreia, com 154 mil euros de receitas brutas de bilheteira e cerca de 30 mil espectadores em perto de mil sessões.

Recuando até 2004 (o último ano disponível no arquivo online do ICA), não há registo de um fim-de-semana com números tão baixos. Só nos dois últimos fins-de-semana, de acordo com cálculos efectuados pelo PÚBLICO a partir dos dados disponibilizados pelo ICA, o mercado já tinha caído 51,5%. Nos últimos quatro dias, todos os filmes que já estavam em exibição (excluem-se portanto as estreias da semana, como Bloodshot ou O Caminho de Volta) tiveram quedas entre os 82,7% e os 98,3% nas suas receitas brutas de bilheteira e no número de espectadores.

Desde sexta-feira, várias salas de cinema anunciaram o fecho de portas durante pelo menos duas semanas, tendo os cinemas Nos e os seus 219 ecrãs confirmado esta segunda-feira que estarão encerrados até data a anunciar. Antes disso, e até domingo, várias salas por todo o país estiveram a trabalhar com capacidade ou lotação reduzida para respeitar as regras de distanciamento social recomendadas pela Direcção-Geral de Saúde, por exemplo. O efeito dominó no sector poderá também ter impacto na distribuição e no agendamento de estreias para as semanas vindouras - internacionalmente já aconteceu com filmes como o próximo James Bond ou Mulan, e em Portugal já foram anunciados os adiamentos da estreia do documentário #Anne Frank –​ Vidas Paralelas, bem como de Matthias & Maxime, de Xavier Dolan, Terra Nova, do português Artur Ribeiro, ou do ciclo Essencial Fellini (La Dolce Vita, Julieta dos Espíritos, A Estrada, Os Inúteis, Fellini 8 ½ e A Voz da Lua), por exemplo.

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