Coronavírus: Produtores de cinema e audiovisual entre a inquietação e a dúvida

Processos de criação e produções em suspenso ameaçam o sector. É preciso que ICA mantenha calendários dos programas de apoio, defendem.

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Apesar de realizadores e produções parados, as produtoras mantêm despesas fixas que têm de pagar Miguel Manso / PUBLICO

Entre a inquietação e a dúvida, quatro produtores de cinema e audiovisual disseram à agência Lusa que estão ainda a tentar perceber o impacto da pandemia Covid-19 no sector e a reajustar planos de produção.

“O problema é não se conseguir perceber quanto tempo vai durar e como é que se retoma”, afirmou o produtor e exibidor Pedro Borges, que fechou temporariamente o Cinema Ideal, em Lisboa.

Segundo o produtor da Midas Filmes, o realizador João Canijo suspendeu o trabalho criativo de preparação para o projecto As filhas do Enforcado, cuja rodagem está marcada para Setembro, e há incertezas sobre se consegue manter o plano de filmagens, em Junho, da primeira longa-metragem da luso-francesa Cristèle Alves Meira.

“Esta é uma questão sensível, porque [os trabalhadores nesta área] só têm rendimento quando há trabalho e parar implica que não entre rendimento e há despesas fixas que não param”, lembrou.

Fernando Vendrell, da produtora David & Golias, fala de “uma incógnita muito grande” perante a possibilidade de paragem do sector, porque “há riscos financeiros muito grandes”.

Entre os projectos em mãos, tem actualmente em fase de montagem financeira a longa-metragem Sombras Brancas, a partir de um texto de José Cardoso Pires, e conta com o apoio do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA).

Aliás, Pedro Borges apela para que os concursos de apoio financeiro do ICA não parem, por serem relevantes e imprescindíveis para a produção em Portugal.

Também Pandora da Cunha Telles, da Ukbar Filmes, sublinha a importância de o ICA manter os calendários dos vários programas de apoio e defende outras medidas, como a criação de um fundo suplementar, e medidas de crédito com redução de juros bancários.

A produtora lamenta que esta interrupção por causa da pandemia com o novo coronavírus “tenha um impacto enorme no sector”, mas considera que esta é também “uma oportunidade para estudar novas ideias”.

Luís Urbano, da produtora O Som e a Fúria, não tem nada previsto em rodagem para as próximas semanas, mas admite que a pandemia o apanha “na incerteza” em relação já ao que vai acontecer em 2021.

Na página oficial, o ICA explica que se “mantêm as datas previstas de fecho dos concursos de apoio financeiro”, sendo que grande parte dos procedimentos decorrem via Internet.

Em Portugal, a propagação da doença Covid-19 levou ao encerramento da maioria das salas de cinema, ao adiamento de estreias e da realização de festivais, em linha com o que aconteceu já noutros países.