A era de ouro das séries também pode ser portuguesa: produtores apelam à co-produção — e à Netflix

Encontro de produtores independentes de televisão debate como elevar o nível. “Se tivermos boas histórias vamos chegar à Netflix.”

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Vidago Palace RTP

A importância das co-produções é um dos temas-chave do audiovisual português: só nos últimos meses o tema é central para o discurso público do sector, fazendo eco de uma realidade há muito explorada no vizinho cinema. Mesmo neste “momento fantástico do audiovisual português”, como descreve a produtora Pandora Cunha Telles, e em plena “época dourada do audiovisual em termos de séries”, completa o produtor Henrique Oliveira, para a ficção nacional crescer os produtores consideram fundamental a co-produção — mas também a resolução do problema de circulação e distribuição das séries portuguesas. A Netflix faz, claro e num ano como 2020, parte da equação.

Reunidos no 6.º Encontro de Produtores Independentes de TV no Centro Cultural de Belém em Lisboa, dezenas de produtores e responsáveis dos canais generalistas e do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) assistiram a um debate sobre Financiamento e Co-produções esta quinta-feira, numa manhã que começara por reflectir sobre a transposição, em 2020, da directiva comunitária do audiovisual (AVMS), ou a “directiva Netflix”. Imediatamente antes, Géraldine Gonard apresentava o ONSeries Lisboa, o primeiro evento dedicado à ficção televisiva portuguesa que decorre no final de Abril, e os temas streaming e co-produção cruzavam-se inevitavelmente.

“Estamos num momento muito bom da criatividade, da produção e reconhecimento internacional da produção nacional”, decretava no debate o presidente do ICA, Luís Chaby Vaz. Com uma “visão muito optimista” apesar do momento “muito desafiante, para Portugal e para o mercado europeu” na produção audiovisual, “há cada vez mais janelas para que o nosso talento seja exibido”, detalhava.

Mas o mercado é desigual. Na óptica da produção, as co-produções beneficiam “orçamentos relativamente baixos — temos um terço ou um quarto do que têm os nossos congéneres europeus”, como nota Pandora Cunha Telles, da Ukbar Filmes, já para não falar da ficção americana. A co-produção, porém, também permite elevar a fasquia além dos euros. “A partilha de ideias, conceitos, experiências, trabalhar com produtores que já estão num outro nível”, exemplifica a produtora. “Não queremos ir lá para fora porque somos bons, queremos ir lá para fora porque queremos ser melhores”, resume José Amaral, responsável pelo braço internacional da produtora SPTV, a SPi.

Para se chegar onde se está hoje, com séries portuguesas regularmente no ar (na RTP) ou um mercado específico já a pensar nelas para Abril e a tentar trazer a Netflix a Lisboa, “foi determinante” que em 2014 o ICA tenha aberto o seu primeiro concurso para o audiovisual, diz Henrique Oliveira, da Hop! (a proporção, que na lei deve ser de 70% para o cinema e 30% para o audiovisual, é ainda de 80%-20%). O Fundo de Apoio ao Turismo, Cinema e Audiovisual ou a Portugal Film Commission são mencionados, mas o debate desemboca inevitavelmente no streaming.

“A distribuição é que nos vai permitir essa ligação com os ‘streamers’. É a nossa chave, o próximo passo, juntar logo à partida e nos primeiros passos [de um projecto] uma distribuidora que tenha esses acordos”, frisou Henrique Oliveira, cuja Hop! fez a série Vidago Palace, uma co-produção com a Galiza. “[Assim] garantimos logo à partida que vai ter um circuito internacional. Caso contrário vai ser muito mais difícil”, concorda José Amaral.

Netflix, Netflix, Netflix — nome da empresa líder que se tornou sinónimo da tecnologia e serviço que presta, é também o símbolo de como o mercado está definitivamente alterado pela entrada do streaming nos hábitos de consumo. Em França, a Netflix já é o quinto canal em termos de audiências; o audiovisual tradicional e o novo audiovisual “já não [perfazem] um mercado separado, é um mercado global”, decretava ao início da manhã Jérôme Dechesne, presidente da Associação Europeia de Produção Audiovisual (CEPI). A SIC vai lançar a sua plataforma de streaming, as séries portuguesas tentam estar nos gigantes internacionais, o segmento cresce num país dominado pelos generalistas e pelo chamado cabo.

O streaming parece o destino evidente, sedutoramente cheio de séries em várias línguas, mas ao mesmo tempo uma fortaleza impenetrável. “Se tivermos boas histórias vamos chegar à Netflix, o problema é que a Netflix esconde-se”, sorriu Henrique Oliveira. O produtor exemplificou como tentou chegar à fala com a empresa de Ted Sarandos no último mercado televisivo de Cannes, o MIPTV (o de 2020 acaba de ser cancelado devido aos riscos do coronavírus), e de nada conseguir. Uma história que contrasta com a imagem da empresa com bolsos sem fim sempre a produzir mais e mais, e que mostra que “dificilmente será o próprio produtor a falar directamente com a Netflix”, como confirma Susana Costa Pereira, do programa financeiro comunitário Europa Criativa.

A nova directiva AVMS pode trazer “um ou dois milhões de euros por ano” para o ICA se for aplicada a obrigação de investimento das plataformas de streaming através de uma taxa paga ao Estado, atirou Pandora Cunha Telles — “essas são as estimativas, são só estimativas”, assinalou Chaby Vaz — mas pode seguir um outro caminho que empodera os produtores.

Pandora Cunha Telles, que produziu Soldado Milhões ou Solteira e Boa Rapariga, defende outra via — a da obrigação do investimento directo na produção. Ou seja, que o Governo que actualmente trabalha na transposição da directiva para Portugal crie “legislação que permita aos operadores fazerem esse financiamento junto dos produtores que desejam”, o que “permitirá a esse produtor ter uma capacidade de crescimento enorme, que em um ou dois anos o poderá posicionar como um ‘target’, algo que o investimento público não poderia ter”. José Amaral acrescenta que o produtor deve também acautelar, além do trabalho com distribuidores internacionais logo na casa de partida, “a capacidade de deter direitos”, o que lhe dará maior margem negocial e financeira.

O exemplo dos países vizinhos foi também aflorado numa manhã em que o ONSeries acena com as co-produções com Navarra ou em que o centro de produção Netflix em Madrid e o fenómeno Casa de Papel são chamarizes. Mas o presidente do ICA avisa: “O modelo implementado em Espanha é irrepetível” e Portugal tem “características próprias”, o que não impede que “o mundo das plataformas de amanhã até nos possa vir a ajudar”. Nas suas conversas com a incontornável Netflix, tira uma conclusão que partilhou com os produtores: “A diversidade é uma característica muito apreciada [pela Netflix]”.