Um copo para relaxar? Cuidados para não deixar que o isolamento leve ao aumento da dependência

Enquanto muitos se debatem com uma abstinência forçada, outros usam um copo para relaxar. Mas atenção: neste momento qualquer substância poder atrasar ou prejudicar o ajuste emocional — e da razão.

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“Em contextos de emergência, há normalmente um aumento de consumos” Anshu A./Unsplash

O isolamento pode promover comportamentos erráticos e, no caso do alcoolismo ou de outras dependências, aumentar as probabilidades de recaídas ou mesmo criar mais dificuldades a quem decidiu iniciar recentemente um processo de abstinência. Já entre quem não tenha iniciado qualquer caminho no sentido de deixar de beber, poder-se-á ver confrontado com uma abstinência forçada.

“Um alcoólico que não tenha acesso à bebida verá os seus níveis de angústia aumentar”, afirma António, que integra a associação Alcoólicos Anónimos (AA) a operar em Portugal, onde também é voluntário. Assim que foi decretado o estado de alerta, “ficámos todos assustados”, confessa ao PÚBLICO, explicando, porém, que, também por isso, “os grupos rapidamente se organizaram”, passando as reuniões presenciais para encontros online, onde são respeitados os mesmos princípios, nomeadamente de anonimato.

Um método que não é uma novidade. “Desde sempre, o apoio à distância existiu: por correio, e-mail, telefone, mIRC… Há três ou quatro anos, usam-se outras ferramentas e hoje fazem-se por Skype ou Zoom”, diz, adiantando que, antes da declaração do estado de alerta, “havia cerca de quatro reuniões por semana online”; agora, “são algumas dezenas”.

Além do mais, a linha de atendimento telefónico está a operar como sempre — “inicialmente, houve um decréscimo de chamadas; agora, voltámos a ter o fluxo habitual”. “Há sempre alguém, das 10h às 22h, para atender o telefone [+351 217 162 969]”, e, agora, chegam sobretudo novos pedidos de ajuda.

É a necessidade de acudir a novos pedidos que, neste momento, preocupa o psicólogo Mário Marques, presidente dos AA em Portugal: “Não me preocupa muito quem está inserido na comunidade [dos AA, dos Narcóticos Anónimos ou outros] porque esses têm uma rede de suporte.”

No entanto, teme por quem ainda não entrou em recuperação e que poderá ver-se numa situação difícil de controlar, tendo em conta os estados de ansiedade: “Preocupa-me a violência doméstica a que o alcoolismo está associado e o aumento dos conflitos gerados por esta situação”.

“Se isto não fosse uma desgraça, diria que estamos perante um momento histórico e extraordinário; mas as consequências vão ser dramáticas”, desabafa.

Emoções à flor da pele

Mário Marques estima que o problema não seja visível de imediato. “Em épocas de grande crise temos uma espécie de botão que nos dá a energia da acção, pondo-nos na fase de alerta, mais conscientes dos perigos”, analisa. “O problema será mais à frente, quando esse estado de alerta for substituído por sensações mais depressivas.”

A psicóloga clínica Maria Palha, com acções no âmbito de intervenções em cenários de catástrofe, nomeadamente durante o surto de ébola na Serra Leoa, concorda e explica. “Há hoje várias pessoas com ataques de ansiedade e de pânico, que se caracterizam por falta de ar que é precisamente um dos sintomas de covid-19”, começa por constatar, explicando que “a emoção por trás das dores psicossomáticas é o medo”.

“O sistema nervoso central está desregulado, por ter excesso de cortisol (a hormona associada ao stress) e menos dopamina e serotonina (habitualmente relacionadas com a alegria, a tranquilidade e a amizade) — e isso não é mau! Porque o medo tem uma função protectora de facto.”

No entanto, descreve, a primeira tentação passa por acalmar os sintomas: algumas pessoas recorrendo à automedicação, outras ao álcool ou a estupefacientes. E, apesar da sensação de bem-estar imediato, estas substâncias não vão permitir que as emoções cumpram as suas funções.

Dá o exemplo de quem se sente mais zangado, uma “emoção de energia, que nos impele a agir”, algo fulcral neste momento. “É um dar um murro na mesa, que precisamos de dar — mas não de uma forma literal; significa a necessidade de romper com hábitos e introduzir novos e a função da zanga serve como motor de energia.”

Um murro na mesa

Aos 49 anos, José (nome fictício) deu o seu murro na mesa há 18 anos, depois de ter passado por mais de um internamento. Fê-lo de forma tímida, e entre as hospitalizações — cerca de três anos antes de começar “a viver um dia de cada vez” — e o assumir da doença ainda teve algumas recaídas. “O que me ajudou foi os AA e os meus livros, sobretudo um, escrito por um dos fundadores da associação.” No entanto, sabe que “é muito complicado uma pessoa ser alcoólica e estar fechada em casa”, algo que, prevê, “poderá aumentar episódios de violência”.

No seu caso, ainda que não frequente uma reunião dos AA há algum tempo, pensa entrar, por estes dias, num grupo online. Além disso, tem as suas ferramentas e sabe o que consigo funciona: “Cada um terá de encontrar a sua forma de se distrair [da vontade de beber]; comigo é a leitura que funciona e que faz com que o tempo passe mais depressa.” Mas deixa um alerta: “Nesta fase, a rede de apoio, da família, vai ser muito importante.”

Também António sabe que o método para não sucumbir à vontade de beber varia de pessoa para pessoa: “Não há receitas.” E exemplifica: “Conheci alguém que o conseguia fazer despejando gavetas e voltando a arrumar.” Para António, “a alegria de viver” é a sua principal razão para não ter vontade de deixar de ser a pessoa que é hoje: assumidamente alcoólico, mas saudável e de bem com a vida. Apenas tem de se manter abstémio, “um dia de cada vez”.

Tudo para que não se caia na tentação, numa altura em que Mário Marques se afirma preocupado com o aumento da pobreza,“que aumenta os consumos e as recaídas”, mas não tanto com quem, sem qualquer problema de alcoolismo, bebe um copo de forma mais regular.

Afinal, explica, “um alcoólico é como um carro sem travões; e ninguém decide pegar no carro para ir ao supermercado se o mesmo não tiver como travar”. “A maioria de nós tem esse travão; e mesmo que beba dois ou três copos por dia é improvável que se torne alcoólico.”

Um copo para relaxar

O facto de a maioria que, por estes dias, se socorre de um copo ao fim do dia não correr riscos de se tornar alcoólico — “não é alcoólico quem quer; ser alcoólico dá muito trabalho”, desanuvia Mário Marques, referindo outras características que levam alguém à doença, como a predisposição genética — não significa que a busca por esta espécie de ansiolítico seja aconselhável.

Maria Palha explica a razão pela qual até o copo de vinho extra pode ser contraproducente, defendendo que é importante agir (e sentir) para que todas as emoções se auto-regulem durante os primeiros três meses — o tempo dos ajustes emocionais, como já referira ao PÚBLICO, em entrevista.

O medo, a zanga, a apatia, o nervoso ou mesmo a negação são só algumas das possíveis reacções ao choque. Todas absolutamente normais, sublinha a psicóloga. Mas, avisa, as mesmas só reduzirão “se lhes dermos atenção”, o que não acontecerá se procurarmos diminuir a sua intensidade recorrendo ao álcool, a estupefacientes ou à automedicação.

O aumento do consumo de álcool que se assiste nestas situações, por ser uma forma de acalmar o sistema nervoso simpático, que deixa de estar tão alerta e tão acelerado, dando a sensação automática de relaxamento, não nos vai permitir que olhemos com atenção para o que o nosso corpo nos está a dizer e não permite que nos ajustemos em hábitos e práticas.

“Em contextos de emergência, há normalmente um aumento de consumos; as pessoas para gerirem o processo tendem a aumentar consumos, seja de álcool, de drogas ou de outro tipo de dependências, o que pode desencadear um momento de violência, seja psicológica ou física — e, aqui, as pessoas em quadros de violência doméstica, com histórico de doenças mentais, os sem-abrigo, os alcoólicos, os toxicodependentes, e quem lida com estes, estão mais vulneráveis”, alerta.

Isso não significa, porém, que a restante população esteja imune a efeitos adversos: “A aquisição de hábitos pouco saudáveis vai impedir que assimilemos tudo o que estamos a passar na nossa vida.” No caso de substâncias como o álcool, o seu consumo em excesso vai “tirar-nos alguma saúde em termos físicos porque nos baixa o sistema imunitário e torna-nos mais frágeis; e a longo prazo, além de não ajudar a assimilar a situação, pode originar problemas mais graves”.

Ter novos objectivos, a curto prazo

Mesmo com travões bem oleados, “quem está a aumentar o consumo de álcool”, considera a clínica, “fá-lo também por ter a sensação de que já devia estar a conseguir lidar com tudo o que está a acontecer e a corresponder às muitas exigências do momento”.

Por isso, explica, a primeira coisa a anular é o rol de autocríticas com que muita gente se debate neste momento — ou porque não está a conseguir ter a mesma produtividade em teletrabalho, ou porque não está a conseguir acompanhar as crianças nas aulas à distância, ou porque devia estar a fazer exercício, ou porque… “A autocrítica é meio caminho andado para começar a ter comportamentos destrutivos”, considera. Por isso, aconselha a “reduzir a exigência”.

O ideal para todos, com ou sem dependências passadas, verifica, é permitir que entremos em “modo de sobrevivência”, e isso implica “reposicionar objectivos”. “Não é desistir dos sonhos; é colocá-los como objectivos a longo prazo e, entretanto, encontrar objectivos específicos a esta situação, realizáveis — que vão ajudar a introduzir esperança para o que vem a seguir”.

Mário Marques remata com exemplos práticos para que ninguém “caia no vazio”: “Ter o dia organizado, criar uma rotina, organizar o espaço e dedicar-se a actividades criativas — boas para ocupar a mente.”