Agricultura
Pedro Fazeres

O êxito dos cabazes de produtos frescos deixa de fora o interior envelhecido

A distribuição de cabazes porta a porta e um novo olhar sobre o interior são sinais positivos, mas serão suficientes para redesenhar o futuro? “Vamos chegar à conclusão que temos de mudar o estilo de vida”, diz a Associação de Desenvolvimento Local In Loco.

O negócio da distribuição de cabazes alimentares porta a porta floresce dia após dia, mas está passar ao lado dos pequenos agricultores. O Algarve é apenas um dos vários espelhos dessa situação, que se expande por muito do interior do país, onde as tecnologias não chegam aos mais isolados e mais idosos, que perderam os mercados de proximidade para escoar os seus produtos. “Ainda não me adaptei à situação”, diz João Cabrita, um produtor de hortícolas, de Alte (Loulé). Os clientes habituais, que o procuravam nos mercados de quarta-feira, em Quarteira, e ao sábado, em Loulé, meteram-se em casa. “O que andarão eles a comer?”, pergunta. As restrições de mobilidade favorecem os circuitos de curta distância, mas a face negra da interioridade não desapareceu. Este agricultor, de 62 anos, domina a enxada, mas não frequenta as redes sociais. “Só tenho um telemóvel, de 20 euros, dos mais baratinhos.”

Já a jovem agricultora Ângela Rosa, em Tavira, que marca presença nos movimentos ambientalistas e faz da agricultura profissão, é a outra face desta moeda. “A chuva que tem caído é uma bênção dos céus”, diz, lembrando que o espectro da seca continua presente nestas paragens. Quando na segunda-feira passada o sol rompeu, aproveitou para ir sachar abóboras, pepinos e tomate-rosa. “Tenho produção biológica”, diz, lembrando que as ervas daninhas invadem o campo de cultivo, se não lhes deitar a mão a tempo. Antes da quarentena, revela, já fazia cabazes, mas só distribuía pelo concelho, a pessoas idosas, ou de mobilidade reduzida. “Agora vêm buscar à porta da quinta, de todo o lado, e os pedidos sucedem-se uns atrás dos outros as vendas quadruplicaram.” O motivo, presume, prende-se com o facto de as pessoas procurarem evitar as concentrações, nas grandes superfícies, encontrando ao mesmo tempo um pretexto para saírem de casa: “Aproveitam para fazer um passeio e apanhar ar.”

A Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve, entretanto, aproveitou O Prato Certo, criado pela In Loco, para promover os valores e produtos associados à dieta mediterrânica (Património Cultural Imaterial da UNESCO). À oferta das hortícolas juntou o sector da pesca artesanal. O director regional, Pedro Monteiro, justifica: “Procuramos garantir a sobrevivência do tecido empresarial de cariz familiar”. A receita tem duas componentes. À utilidade da venda directa, diz, juntou-se “um modo ambientalmente mais agradável para fazer compras”. A plataforma digital dá a conhecer a bolsa dos produtores e cabazes disponíveis. O preço mínimo ronda os 15 euros a 20 euros.

Mas o agricultor de Alte ainda não está para aí virado. “Não sei mexer na Internet, e acho que não vou aprender”, desabafa. Nas últimas semanas, o que tem vendido é quase nada. “Só à vizinhança, umas laranjas, favas, ervilhas muito pouca coisa. Não há quem apareça para comprar”, queixa-se. Nos mercados as coisas processavam-se de modo diferente. “Tinha clientes certos, que me procuravam todas as semanas, e vendia tudo o que produzia.”

O preço justo

O Algarve alicerçou o seu desenvolvimento na monocultura do turismo, mas o edifício ameaça desmoronar-se – ou, pelo menos, ficar seriamente danificado. O panorama geral é preocupante. À volta da marina de Vilamoura, o que se observa são bares e restaurantes encerrados, com rendas mensais na ordem dos cinco a 15 mil euros. Os tempos que correm são incertos, mas há uma certeza, como diz João Cabrita: “As pessoas têm de comer todos os dias e não se valoriza quem trabalha a terra.” João Cabrita defende a venda directa ao consumidor, em moldes tradicionais. “Não estou para encher a barriga aos intermediários”, enfatiza. Nos mercados, acrescenta, “as pessoas pagavam o preço justo e sabiam o que comiam”. A quinta tem cerca de dez hectares, mas a parcela ocupada com hortícolas é apenas de meio hectare. “Se houvesse escoamento, produzia mais”, admite.

No mesmo sentido, também Ângela Rosa, embora esteja a ter grande saída das hortícolas, diz preferir o “contacto social nos mercados”, fomentando a confiança entre produtores e consumidores. “Os estrangeiros ficam encantados quando explico porque há tantas variedades de figos, e todos são bons”, exemplifica. Na horta, a sementeira e o cultivo das plantas faz-se “à moda antiga”, mas as vendas processam-se agora mais do que nunca com recurso às novas tecnologias. “Todos os dias tenho pedidos, através da plataforma digital.”

Na quinta do Maranhão (Lagos), Natividade Correia, antiga professora do 1.º ciclo, voltou a meter as mãos na terra, depois de reformada. “As pessoas estão assustadas, e com razão”, diz, comentando o momento que se vive. Trata da horta e gere uma casa de turismo rural. O escoamento dos produtos, antes da pandemia, fazia-se na banca, uma vez por semana, no mercado do Levante-Lagos. O novo coronavírus, diz, foi um “balde de água fria” que se abateu sobre a família, depois dos investimentos feitos na recuperação da quinta, com sete hectares, ocupando as hortícolas 1,5 hectares. O esforço da família concentra-se, agora, nas tarefas agrícolas. Não fazia cabazes, mas vai experimentar, procurando envolver as vizinhas, para ter uma oferta mais diversificada de produtos. “Fruto do isolamento e da vida difícil que sofreram, os agricultores padecem de algum individualismo”, observa. Sobre o futuro do sector prevê que haja “uma valorização momentânea”, mas a tendência é que, passando algum tempo, a “força do agro-industrial acabe por se impor”, empurrando, prematuramente para o lar os idosos que ainda trabalham a terra. “Estou neste projecto por respeito ao património e à vida difícil dos meus pais”, confidencia.

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A agrónoma Paula Pedro alia a agricultura à construção civil e ao paisagismo. “No Algarve, tudo se liga ao turismo”, justifica. Por isso, tanto anda na quinta de Moncarapacho a apanhar os caracóis, para evitar que os bichos lhe comam as couves, como a seguir está a fiscalizar uma obra. “Faço agricultura por paixão”, diz. As outras actividades são a principal fonte de rendimento. “A agricultura não compensa o esforço, sobretudo quando são culturas ao ar livre, como eu faço.” Os cabazes não são fechados. “A pessoa escolhe o que quer, na lista que apresento, e vêm cá levantar.” No entanto, sempre fez venda directa na exploração, procurando marcar a diferença: “Podem vir cá e apanhar a fruta à mão.” Porém, admite, há quem prefira “a comodidade de comprar numa grande superfície”, sem pensar nas voltas que as coisas dão para ali chegar.

Mudará a visão sobre o interior?

Numa altura em que o mundo parece girar ao contrário, o que irá mudar depois da crise? “Do mal pode nascer alguma coisa boa”, observa o presidente da Associação de Desenvolvimento Local In Loco, Artur Gregório, referindo-se ao “crescente número de pedidos de cabazes” e ao despertar para a importância do mundo rural. A pandemia, adverte, “pode ser um aviso da natureza”, chamando a atenção para outra emergência: o clima.

O ministro do Ambiente e da Acção Climática, Pedro Matos Fernandes, por seu lado, informou que pediu a 20 personalidades, para que se pronunciassem sobre o “modo como podemos valorizar as questões da sustentabilidade ambiental na saída da crise”. Uma das ameaças mais sentidas nas zonas do interior prende-se com o despovoamento e a desertificação. Por oposição, assiste-se à sobreocupação e ao acentuar das fracturas expostas no litoral. As casas de férias estão vazias, as gruas estão paradas, e o mar avança. “Como olhar para esta crise e quais as ameaças e as oportunidades que identifica no domínio ambiental e da sustentabilidade?”, questiona Pedro Matos Fernandes, na reflexão que lançou a vários especialistas na área do ambiente e economia.

Alcoutim é um exemplo do que se passa no interior. Neste concelho com 600 quilómetros quadrados, habitam pouco mais de 2500 pessoas. A situação replica-se por toda zona serrana aldeias desertas ou semidesertas, sem actores no terreno. Os principais empregadores são os lares de idosos – situados em Martim Longo, Barranco do Velho e Ameixial, a caminho do Alentejo. “Daqui para o futuro vai ser necessário uma nova visão para o interior”, diz o presidente da câmara, Osvaldo Gonçalves, relatando a sua experiência. Muitas pessoas, só agora, com isolamento social, descobriram a qualidade de vida na aldeia”, comenta. E, no monte Laborato [freguesia de Martim Longo], onde mora o autarca, “habitam duas dezenas de pessoas, agora estão cá umas 50”. Os novos residentes, chegados há cerca de um mês, saíram da cidade em busca de um lugar de refúgio, e reencontraram, florido e triste, o campo de onde partiram na juventude. 

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Foto
Sérgio Infante

“Vamos chegar à conclusão que temos de mudar o estilo de vida e encarar os territórios de baixa densidade com outro olhar”, antevê Artur Gregório. O ex-reitor da Universidade do Algarve João Guerreiro  autor de estudos científicos na área do mundo rural – lembra que está na altura de “recuperar alguma da capacidade produtiva das regiões, esmagadas pela globalização”. O preço, diz, não justifica tudo. A título de exemplo, refere, algumas panificadoras estão a fazer pão, “com muita qualidade”, a partir de variedades de trigo autóctones, recuperadas no Alentejo.

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