,Lar de idosos
Daniel Rocha

Operação de testes em lares arranca esta segunda-feira pelo país

Governo lança operação preventiva da pandemia em lares de idosos através da realização de testes de diagnóstico. O teste que vai ser aplicado é sobretudo a versão desenvolvida pelo Instituto de Medicina Molecular de Lisboa, ao qual o Estado encomendou já um total de dez mil testes.

A partir dos 70 anos faz-se parte de um dos grupos de risco da covid-19, doença provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2 que, nos casos mais graves, pode levar a uma pneumonia com insuficiência respiratória aguda, falência dos rins e de outros órgãos e à morte. Como é neste grupo etário que a taxa de mortalidade do vírus é maior, a partir de segunda-feira começa uma operação de testes de diagnóstico em lares de idosos por todo o país. É uma operação do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (que tutela os lares) articulada com o Ministério da Ciência, em parceria com a Cruz Vermelha Portuguesa e o Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Universidade de Lisboa, que criou uma versão própria de um kit de diagnóstico do vírus adaptando um protocolo para os testes desenvolvido pelos Centros para Controlo e Prevenção das Doenças dos Estados Unidos. 

“Vamos iniciar na segunda-feira uma operação para testar a covid nos lares por todo o país, para prevenir a contaminação e a propagação”, diz ao PÚBLICO a ministra Trabalho Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho. “É uma operação de logística complicada.” Manuel Heitor, ministro da Ciência, acrescenta que essa logística complexa envolve ir aos lares fazer a recolha. “As amostras têm de ser feitas nos lares e entregues no laboratório”, diz Manuel Heitor, que neste processo teve o papel de articulação com a comunidade científica. 

Para tal, a recolha de amostras será feita no terreno, principalmente pela Cruz Vermelha Portuguesa. Logo no início da primeira semana da operação, os testes começam em quatro concelhos – Lisboa, Aveiro, Évora e Guarda. “Fizemos uma análise de risco em função dos concelhos onde há mais lares e onde há mais lares com maior número de pessoas”, adianta a ministra, explicando os níveis de prioridade. “Vamos começar com os profissionais que estão a trabalhar nos lares – são quem entra e sai dos lares e podem ser veículos da infecção – e também em pessoas que tenham algum tipo de suspeita e sintomas”, diz ainda.

“Esta operação nos lares é preventiva. É uma operação paralela à operação normal do Ministério da Saúde quando são detectados casos.”  

E a meio da semana, os testes deverão estender-se aos lares de idosos dos concelhos de Portimão e Loulé através do Centro Académico de Investigação e Formação Biomédica do Algarve, em colaboração com o IMM, informa Manuel Heitor.

Começa-se por Portimão e Loulé porque são os concelhos onde surgiram os primeiros casos no Algarve há mais tempo, refere o presidente daquele centro, Nuno Marques. “A partir de quarta-feira pensamos estar no terreno a fazer a colheita de amostras, a análise e o acompanhamento aos lares. Somos nós também que vamos ajudar os lares [algarvios] a reorganizarem-se”, esclarece Nuno Marques, dizendo que vão começar com 200 testes por dia e que esta semana ainda vão incluir Albufeira e Faro, agora os concelhos algarvios com mais casos. O objectivo, conclui Nuno Marques, é abranger de forma sequencial os lares dos 16 concelhos do Algarve. 

Na segunda semana de testes em lares, Ana Mendes Godinho prevê que a capacidade de resposta já tenha aumentado bastante. “O objectivo é fazer testes por todo o país.” A ministra do Trabalho, que criou uma task force de acompanhamento permanente da situação dos lares no seu ministério, adianta que os restantes concelhos do país onde irão aplicar-se testes em lares está a ser identificada, em função dos níveis de prioridade, do número de trabalhadores nos lares e da capacidade diária dos testes. “Estamos a desenhar o mapa.” 

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O vírus SARS-CoV-2 visto ao microscópio electrónico NIAID

Encomenda de dez mil testes 

O teste de diagnóstico que vai ser aplicado resulta de um repto lançado a 12 de Março por Maria Manuel Mota aos investigadores do IMM, o instituto que dirige: pediu-lhes que criassem o seu próprio kit de diagnóstico do coronavírus. Seguindo o protocolo estabelecido pelos Centros para Controlo e Prevenção das Doenças (CDC) dos Estados Unidos para os testes de diagnóstico deste vírus, os cientistas do IMM adaptaram essa “receita” usando reagentes fabricados em Portugal.

Os reagentes são essenciais a todo o processo dos testes, tanto na extracção do material genético do vírus como depois na sua detecção nas amostras. Mas correm agora risco de se esgotar, uma vez que têm grande procura a nível mundial para os testes de diagnóstico.

kit de diagnóstico do IMM é assim uma receita própria, em vez de ser importado, tal como explicava há uma semana ao PÚBLICO Maria Mota, conhecida investigadora na área da malária. Tem a grande vantagem de usar reagentes produzidos em Portugal, pela empresa de biotecnologia NZYTech. Obteve a certificação pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa), o laboratório de referência no país para os testes.

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Preparação da extracção do material genético do vírus após a sua inactivação no Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa Judite Sousa/IMM

Nas estimativas de Maria Mota, o IMM poderá chegar em breve aos 300 testes por dia e, mais tarde, aos mil. Cada teste custa à volta de 30 euros, sem incluir recursos humanos, que são todos voluntários e oferecem gratuitamente o seu trabalho. 

Quantos testes vão fazer-se por dia nos lares? “O IMM consegue fazer 150 a 200 testes por dia na primeira semana da operação”, responde Ana Mendes Godinho. 

Tanto Manuel Heitor como Ana Mendes Godinho informam que o IMM está a coordenar-se com outros centros de investigação científica pelo país para se aumentar a capacidade diária de testes nos lares de idosos. “Vamos avançar com dez mil testes com que o IMM se consegue comprometer”, acrescenta a ministra, que resume assim toda a operação: “O Ministério do Trabalho avança com dez mil testes em lares, com níveis de prioridade, em todo o país, numa parceria com o ministro Manuel Heitor e com o IMM e a Cruz Vermelha.” 

Bruno Silva Santos, vice-director do IMM, confirma a encomenda de dez mil testes ao instituto, sem um horizonte temporal. É precisamente o protocolo seguido pelo IMM no seu kit, uma vez que já tem a certificação do Insa e utiliza reagentes de fabrico português, que vai avançar numa escala mais alargada no terreno.

Um apelo da ministra 

O IMM já partilhou no sábado sua “receita” do teste de diagnóstico, bem como todo o método de trabalho que tem de ser seguido, com todos os laboratórios científicos do país. Muito em breve, muitos desses laboratórios esta semana, avança Bruno Silva Santos, entram já em acção. “Em breve teremos no terreno uma rede de investigadores do país a servir o diagnóstico da covid-19”, remata Bruno Silva Santos.

De Norte a Sul, eis a lista dos envolvidos por agora: além do IMM e do centro algarvio, participam o Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde da Universidade do Minho, em Braga; o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto; o Instituto de Biomedicina da Universidade de Aveiro; o Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra. Na região da capital, participam ainda o Centro de Estudos de Doenças Crónicas (Cedoc) da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa; o Instituto Gulbenkian de Ciência; e com uma receita própria de teste a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa.

Se os grandes centros de investigação portugueses se juntarem à volta do esforço de testagem para identificar os casos de infecção, os cientistas poderão assegurar nos seus laboratórios pelo menos dez mil por dia, dizia na semana passada ao PÚBLICO Vasco M. Barreto, investigador do Cedoc e um dos rostos de um movimento espontâneo de cientistas que quer contribuir para o esforço de realização de testes de diagnóstico do SARS-CoV-2.

Até há pouco tempo, as autoridades de Saúde diziam que a capacidade no país era de quatro mil testes por dia (2500 nos serviços de saúde públicos e outros 1500 nos serviços privados).

Quanto à task force de acompanhamento permanente da situação dos lares no Ministério do Trabalho, ela inclui a Cruz Vermelha Portuguesa, a União das Misericórdias Portuguesas, a Caritas, a Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade Social, a Direcção Geral da Saúde ou a Cooperativa António Sérgio para a Economia Social.

Esta equipa, explica a ministra, está em contacto com os centros distritais da segurança social do país que reportam situações nos lares e se é necessário intervir a nível nacional, em vez de local, como aconteceu na semana passada com um lar em Vila Real onde se identificaram 25 casos de covid-19 e os idosos tiveram de ser acolhidos noutras instituições. Se não necessitarem de cuidados médicos, acrescenta, é preferível manter os idosos que tenham a infecção nos lares e garantir que há uma separação de circuitos de idosos e funcionários, para evitar a contaminação cruzada. 

“Com a Cruz Vermelha, estamos também a criar uma bolsa de recursos humanos para alocar aos lares que precisem de recursos humanos para substituir os trabalhadores com testes positivos, o que muitas vezes é crítico. Trabalhadores com testes positivos não podem ficar nas instituições”, refere ainda Ana Mendes Godinho, que deixa um repto a quem quiser voluntariar-se, através da Cooperativa António Sérgio para a Economia Social: “Estamos a precisar muito de recursos humanos.” 

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