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Afinal, o que testam os testes?

A técnica envolvida nos 280 mil testes encomendados por Portugal é a de PCR, que procura o material genético do próprio vírus.

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Denis Balibouse/Reuters

Nos testes que têm sido aplicados em Portugal no diagnóstico do novo coronavírus, o que se procura exactamente nas amostras das pessoas?
Procura-se o material genético do próprio vírus. Por outras palavras, estes testes detectam ácidos nucleicos – neste caso, o ácido ribonucleico (ARN) do vírus. Para tal, nestes testes usa-se uma técnica chamada “reacção em cadeia da polimerase” – ou PCR, na sigla em inglês. Aliás, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Centro Europeu de Controlo de Doenças (ECDC) recomendam testes com a metodologia PCR para detectar o SARS-CoV-2, o vírus responsável pela doença covid-19 e que irrompeu bruscamente pelo planeta a partir de Dezembro do ano passado. Isto porque este tipo de testes permite detectar a presença efectiva no vírus naquele momento no organismo da pessoa. “O paciente só é positivo se tiver uma carga viral. Se tiver recuperado, o teste não vai ser positivo”, explica Vasco M. Barreto, biólogo doutorado em imunologia do Centro de Estudos de Doenças Crónicas (Cedoc), da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

São, por isso, os testes com a técnica de PCR que os laboratórios de hospitais e o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa) têm aplicado no diagnóstico da covid-19 em Portugal.

A técnica de PCR permite resultados rápidos?
Sim. Além da técnica de PCR convencional, mais morosa, existe a PCR em tempo real (RT-qPCR) e permite obter resultados em três horas, ou menos. Quando o primeiro-ministro, António Costa, falou esta semana da uma encomenda de testes rápidos, era a este tipo de testes com a metodologia de RT-qPCR que se referia. Segundo o gabinete de imprensa do Ministério da Saúde, a RT-qPCR está neste momento a ser usada no diagnóstico do novo coronavírus em cinco hospitais portugueses (Centro Hospitalar do Porto; Hospital de São João; Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho; Centro Hospitalar de Lisboa Central; e Instituto Português do Sangue e da Transplantação).

Os 280 mil testes de diagnóstico encomendados por Portugal, para combater a pandemia, também vão procurar o material genético do vírus?
Sim. A técnica envolvida nos testes encomendados é a PCR, pelo que tanto os testes de diagnóstico existentes actualmente no país como aqueles que vão chegar identificam pedacinhos do material genético do vírus. “O RT-qPCR apanha a janela temporal em que a pessoa tem uma carga viral detectável pelo teste”, explica ainda Vasco M. Barreto.

Portanto, todos estes testes em stock e encomendados não detectam nas amostras dos doentes a presença de anticorpos – moléculas produzidas pelo sistema imunitário em resposta à infecção pelo vírus.

“Os testes encomendados pelo Ministério da Saúde, através da Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, são todos testes de PCR, que em tempo real têm elevada sensibilidade e especificidade”, refere ainda o gabinete de imprensa do Ministério da Saúde. “Estes testes serão distribuídos por diferentes laboratórios do país, dependendo das suas necessidades e compatibilidade com os equipamentos.”

Por que razão não se aplicam já nesta fase da pandemia testes de detecção de anticorpos?
Os anticorpos produzidos pelo sistema imunitário de uma pessoa infectada em reacção ao vírus só surgem cerca de uma dezena de dias após a infecção. Por isso, os testes a anticorpos “apenas” dizem que a pessoa esteve em contacto com o agente patogénico, neste caso o novo coronavírus. Ou seja, a pessoa tanto pode estar ainda infectada – o vírus ainda se mantém no seu organismo –, como pode já não ter a infecção e ter ficado a memória dessa infecção no seu sistema imunitário através da presença de anticorpos, conferindo-lhe algum grau de imunidade.

Na última situação descrita, a pessoa já não está doente. Nesta fase de combate à pandemia, com confinamento social em Portugal e em muitos países, o que interessa saber de forma muito rápida é se a pessoa está doente e se representa um risco para si própria e para os outros. Numa fase posterior, os testes de anticorpos são importantes para avaliar, por exemplo, a imunidade adquirida por cada um de nós individualmente e como grupo. Nestes testes procuram-se os anticorpos no soro das pessoas, daí que sejam testes serológicos, e também são rápidos.

Qual a diferença entre testes a anticorpos e testes a antigénios?
Têm-se ultimamente ouvido falar ora de testes a anticorpos, ora de testes a antigénios. Embora possam parecer diferentes, na realidade trata-se do mesmo teste. Por outras palavras, são dois lados da mesma moeda.

O antigénio é uma partícula da superfície de uma agente patogénico, por exemplo proteínas virais. Quando entram no nosso organismo, essas partículas são reconhecidas como entidades estranhas e o sistema imunitário ataca-as. Uma forma de ataque é através da produção de anticorpos por um dos tipos de linfócitos existentes no nosso sistema imunitário, explica Vasco M. Barreto. Ora esse tipo de linfócitos tem a capacidade de produzir moléculas específicas – os anticorpos – para aquele antigénio. Feitos à medida, esses anticorpos encaixam na perfeitamente no antigénio desse agente patogénico específico. Passada a infecção, essa memória permanece nas células imunitárias que produziram anticorpos específicos para um determinado agente patogénico.

Para detectar um agente patogénico – por exemplo, o novo coronavírus –, inclui-se no teste o antigénio que é reconhecido pelo anticorpo. “O antigénio é como se fosse o isco que damos à amostra [recolhida no doente]”, explica Vasco M. Barreto. Se a amostra tiver anticorpos, estabelece-se a interacção com o antigénio. Enquanto os anticorpos estão na amostra do doente, o antigénio está no teste de diagnóstico.