Opinião

Para onde vais, Israel?

Para Benjamin Netanyahu, acima do seu país está ele próprio, e todos os meios, mesmo a actual pandemia, servem esse único objectivo.

Não sou cidadã israelita, mas o país é, e sempre foi, a minha segunda pátria: porque faço parte de um povo que concretizou o sonho milenar de ser dono do seu próprio destino na sua terra ancestral; um povo que, sem outros meios senão uma vontade férrea e a tensão máxima das suas capacidades intelectuais, conseguiu transformar no curto espaço de pouco mais de sete décadas um território desértico e pantanoso numa das sociedades mais desenvolvidas do planeta; e também porque vivi lá e também é aí que tenho uma grande parte da minha família…

Por isso, não posso ficar indiferente, nem calada, face ao comportamento do governo liderado por Benjamin Netanyahu nestes últimos anos e especialmente neste momento crucial em que todos vivemos e em que a preocupação central, em particular dos responsáveis políticos, deveria ser apenas uma e só uma: a vida e a saúde dos seus concidadãos, sejam eles judeus, árabes muçulmanos ou cristãos, drusos ou beduínos.

Em vez disso, assistimos ao triste e inédito “espectáculo” de um primeiro-ministro a dissolver o Parlamento, ou seja, a voz da democracia, a tentar calar a justiça e, fazendo tábua rasa do convite do Presidente de Israel à coligação Azul e Branco para formar governo, a amarrar as forças políticas a um governo de “unidade nacional” liderado obviamente por ele. Tudo isto em nome da “saúde pública” contra a covid-19, mas de facto, e com uma clareza cristalina, apenas para se manter no poder, escapando assim à mais do que provável inculpação judicial que o espera.

Face à dissolução da Knesset (Parlamento) e demissão do seu presidente, o Supremo Tribunal de Justiça, pela voz da sua presidente, Esther Hayut, tomou uma medida excepcional, ordenando a eleição de um substituto: “A contínua recusa em permitir que a Knesset eleja um presidente permanente está a minar os fundamentos do processo democrático. Isso prejudica evidentemente o estatuto da Knesset como uma autoridade independente, assim como o processo de transição do governo (…). Este é um daqueles casos excepcionais em que este Tribunal deve intervir para evitar a violação do nosso sistema parlamentar. A Knesset não é um órgão de apoio ao governo, a Knesset é soberana.” No seguimento desta ordem, e contra a vontade dos principais dirigentes do seu partido, Benny Gantz, líder do partido Azul e Branco e principal opositor de Netanyahu, decidiu assumir essas funções abrindo assim caminho a um governo de união nacional liderado por Benjamin Netanyahu pelo menos nos próximos dois anos.

Muitos poderão ter sido os motivos da decisão de Gantz: evitar umas novas eleições e um clima de instabilidade política num momento crucial de pandemia global; desapego ao poder ou, como alguns comentadores apontam, simplesmente cansaço… Ou seja, precisamente tudo ao contrário do que motiva e caracteriza Benjamin Netanyahu.

Ainda é cedo para prever as consequências desta decisão, até porque o acordo ainda não está assinado. Mas, se o for, uma coisa é certa: Netanyahu ganha mais uma vez, mantendo-se no poder, afastando assim ou pelo menos adiando o julgamento por corrupção que lhe pende em cima. O ainda primeiro-ministro em exercício pode invocar os argumentos mais nobres para justificar a sua eterna manutenção no poder, incluindo a covid-9, mas acima do seu país está ele próprio, e todos os meios, mesmo a actual pandemia, servem esse único objectivo.

O seu comportamento é uma traição à memória de David Ben Gurion, Golda Meir, Menahem Beguin, entre tantos outros, mas em particular à memória do seu próprio irmão Yonathan, morto em 1976 na Operação Entebbe no Uganda. Como é do conhecimento público, esta foi uma acção de resgate bem-sucedida de 102 cidadãos israelitas e judeus não israelitas, únicos reféns do sequestro terrorista conjunto de um avião da Air France pela Frente Popular de Libertação da Palestina e pelas Células Revolucionárias da Alemanha. Yonathan Netanyahu era o comandante militar da operação e o único militar que perdeu a vida ao salvar os reféns. Depois da sua morte, a operação passou a chamar-se Operação Yonathan, em homenagem ao homem que a liderou.

O comportamento de Benjamin Netanyahu envergonha Israel, os seus cidadãos e, creio poder dizê-lo, os judeus de todo o mundo. O espectáculo destes últimos anos, em que assistimos às tentativas desesperadas para se manter no poder e fugir à justiça, é confrangedor porque percebemos que este homem, que é um político hábil e inteligente, não hesitará em recorrer a nenhum estratagema, mergulhando o país no caos se necessário.

Apoiando-se nas forças mais retrógradas e extremistas de Israel, procurando amordaçar os órgãos da imprensa que a ele se opõem, controlar e limitar a independência do poder judicial, essência da própria democracia, usando o medo, a angústia e a insegurança dos seus cidadãos como mais uma oportunidade de fuga ao que inevitavelmente será o desfecho da sua vida política, tudo isto é não só patético, mas altamente perigoso para Israel.

Espero que a população israelita, cujos princípios democráticos têm resistido a uma vida inteira passada em contínuo estado de alerta num ambiente exterior hostil, saiba desta vez defender-se também dos perigos no seu próprio seio.

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