Coronavírus: Como viver o isolamento com a sua cara-metade

“O isolamento pode exacerbar emoções e conduzir ao aumento de momentos de tensão emocional e maior número de conflitos”, avisa a terapeuta de casais, Margarida Vieitez.

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O isolamento pode ser uma oportunidade para falar sobre a relação e os projectos em casal Soroush Karimi/Unsplash

Ninguém duvida que gosta do seu companheiro, mas é provável que não estejam habituados a passar todas as horas de todos os dias da semana juntos. Agora, no isolamento que a pandemia de covid-19 nos pede, é natural que surja alguma tensão entre o casal. Em conversa com o PÚBLICO, especialistas garantem que a comunicação é fundamental para reduzir conflitos.

Em primeiro lugar, importa estruturar o dia, começa por explicar a psicóloga Teresa Espassandim: “Pode haver a tentação de as pessoas não criarem hábitos como tinham no dia-a-dia de trabalho.” E esse pode ser “o primeiro passo para uma maior desestruturação”, alerta.

Teresa Espassandim e Margarida Vieitez, terapeuta de casais, concordam que é natural que o casal se sinta mais ansioso, dada a situação. “O isolamento pode exacerbar as emoções e conduzir ao aumento de momentos de tensão emocional e maior número de conflitos. Se a relação já se encontrava fragilizada, então poderá passar por uma grande provação”, avisa Margarida Vieitez. 

"Reconhecer que vai ser difícil" é um bom ponto de partida, sugere a terapeuta sexual, Joana Almeida. Assim, Teresa Espassandim acredita que é importante “gerir expectativas”. “Como não sei o que hei-de fazer, coloco expectativas no outro para aquilo que é o meu bem-estar”, exemplifica a psicóloga. Estas expectativas não comunicadas (por exemplo, se achava que o outro ia lavar a louça do almoço ou estender a roupa) podem facilmente gerar conflitos entre o casal.

Como estruturar a rotina do casal?

Planear o dia é o mais importante, mas “não significa ser obsessivo em relação às horas”, salvaguarda Teresa Espassandim. Acorde e vista-se (não é por estar em casa que deve ficar de pijama o dia todo). Esta rotina serve para que o outro olhe para si “com a mesma admiração que tinha antes”, explica a psicóloga.

Margarida Vieitez sugere que preparem o pequeno-almoço e o tomem em conjunto. Enquanto bebem o café, conversem sobre o que gostariam de fazer nesse dia, “os dois e a sós”. Depois, determinem o que têm para fazer em termos de trabalho e escolham alguns momentos do dia para fazer actividades em casal.

O isolamento é uma “oportunidade para fazer coisas em casal” e “isso implica uma negociação sobre o que gostariam de fazer naquele dia”, diz Teresa Espassandim. É importante que pensem em actividades diferentes, aquelas para as quais, em circunstâncias normais, não têm tanto tempo.

Os momentos de prazer também podem ser um escape à realidade. A terapeuta sexual Joana Almeida garante que “estar em intimidade pode ser uma forma de combater o stress”. A profissional, membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Sexologia, sublinha, no entanto, que é importante compreender que pode “não apetecer” ao outro. “Cada casal é diferente”, aponta.

A situação de isolamento pode também ser a oportunidade perfeita para falar sobre a sua relação ou sobre um projecto de vida a dois. “Confortem-se emocionalmente e perdoem-se sempre que um ou outro disser algo menos agradável”, recomenda Margarida Vieitez.

Se a tensão se instalar, como resolver?

A prioridade é manter a “serenidade conjugal e familiar”, mas se o conflito se tornar inevitável, a psicóloga Teresa Espassandim aconselha que comece as frases com ‘eu'. Por exemplo, em vez de dizer: “Tu nunca me valorizas”, diga: “Eu fico triste quando sinto que não vês as coisas que eu faço”.

Este tipo de diálogo não exige que o outro concorde, “nem tem direito a negociação”. A seguir, explica a psicóloga, deve seguir-se uma lógica de pedido: “Ser-te-ia possível dizeres o que pretendes sem me criticar?” “Pedir ao outro o que quero é um exercício de liberdade individual que também permite a liberdade individual do outro”, defende Teresa Espassandim.

A psicóloga admite que o diálogo pode “parecer muito artificial”, mas que é uma técnica simples e eficaz. “Se disser o comportamento que é praticado, mas não o impacto que isso gera em mim, o outro não consegue colocar-se no meu lugar”, justifica Espassandim.

“Mostrar empatia para com os medos, receios e necessidades do outro” é fundamental, garante Margarida Vieitez. A terapeuta de casais explica que é importante respeitar “as diferenças, o tempo e o espaço do outro”.

Texto editado por Bárbara Wong

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