Lagarde criticada. Terá falhado o seu momento “tudo o que for preciso”?

Mercados e políticos europeus questionam-se se o BCE, agora liderado por Christine Lagarde e com menos instrumentos disponíveis para agir, conseguirá desempenhar o mesmo papel que na anterior crise.

,Presidente do Banco Central Europeu
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Charles Platiau

Passado um dia do seu primeiro grande teste como presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde está a ser alvo, em alguns dos principais países da zona euro, de forte críticas relativamente à sua resposta à crise económica lançada pelo coronavírus.

Em França, pela voz do presidente Emmanuel Macron, e em Itália, através de declarações do Presidente e do primeiro-ministro, ouviram-se queixas em relação ao que se considerou uma intervenção insuficiente ou mesmo contraproducente do banco central.

“O BCE partilhou hoje as suas primeiras decisões. Serão suficientes? Não me parece”, afirmou esta quinta-feira o Presidente francês, um dos responsáveis políticos europeus que mais têm apelado a que a Europa responda de forma agressiva às consequências económicas da crise sanitária.

Em Itália, o tom de crítica a Christine Lagarde e ao BCE ainda foi mais forte. O presidente Sergio Mattarella disse que aquilo que os italianos esperam das instituições da UE nesta fase é solidariedade e não “movimentos que podem pôr em causa as acções da Itália”. Na mesma linha, o primeiro-ministro, Giuseppe Conte, disse que a tarefa do BCE “não era dificultar, mas sim facilitar”, defendendo que o banco tem de criar “condições financeiras favoráveis”.

A reacção italiana deveu-se ao facto de, na sequência do anúncio das medidas do BCE e da conferência de imprensa dada por Christine Lagarde, se ter registado uma resposta muito negativa dos mercados a tudo o que tem que ver com Itália. A Bolsa de Milão acentuou a queda muito forte que já registava e terminou a sessão desta quinta-feira com uma desvalorização de 16,92%. E no mercado da dívida pública as taxas de juro das obrigações italianas a dez anos dispararam de 1,186% para valores acima de 1,8%, superando pela primeira vez a dívida grega.

Em particular, vários analistas ligaram a queda dos títulos accionistas e obrigacionistas italianos a uma frase dita por Lagarde na conferência, a de que “não competia ao BCE reduzir os spreads [das taxas de juro da dívida pública]”. Esta declaração constitui um problema porque, na anterior crise, foi precisamente o BCE, com a declaração de Mario Draghi de que estaria disponível para “fazer tudo o que for preciso”, que conseguiu inverter a escalada dos spreads da dívida pública nos países periféricos da zona euro.

O impacto negativo da frase de Lagarde parece ter sido reconhecido pela própria, já que, logo a seguir à conferência de imprensa, aproveitou uma entrevista à CNBC para recuar e garantir que o BCE estará sempre disposto a actuar para garantir que não existe uma fragmentação do mercado de dívida pública na zona euro.

E, para reforçar a contenção de danos, o economista-chefe do BCE, Philip Lane, escreveu no seu blogue que o banco “não irá tolerar quaisquer riscos para a transmissão suave da política monetária em todas as jurisdições da zona euro”, o que inclui uma vigilância dos “spreads mais altos a que se assiste em resposta à aceleração do contágio do coronavírus”.

De qualquer forma, com um conjunto de medidas que acabou por desiludir os mercados (em particular por não haver uma nova descida de taxas), confirmando a ideia de que o espaço de manobra do BCE é agora mais reduzido e centrando o seu discurso na mensagem de que têm de ser os governos, e não o BCE, a liderar o combate a esta crise, Christine Lagarde pode ter perdido a primeira oportunidade de mostrar, junto dos mercados e dos políticos europeus do Sul, que vai seguir o legado de Draghi e garantir que o banco central está disponível para fazer “tudo o que for preciso” para preservar o euro.

Em contrapartida, ao contrário do que acontecia geralmente com Mario Draghi, Lagarde recebeu o apoio explícito do presidente do banco central alemão à sua actuação. “Agimos de forma decidida, mas a política orçamental deve ser a primeira a combater a crise”, afirmou Jens Weidmann esta quinta-feira.

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