Coronavírus: Bolsas europeias afundam-se mais de 10%

Perdas chegaram aos dois dígitos nas principais praças europeias, com excepção de Lisboa, que ficou nos 9,76%. Stoxx 600 teve a maior queda diária. Petróleo acumula mais um dia de desvalorização

Bolsas reagem mal a medidas do Banco Central Europeu
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Bolsas reagem mal a medidas do Banco Central Europeu Reuters/RALPH ORLOWSKI

As principais praças europeias sofreram hoje quedas generalizadas de mais de 10% nos principais mercados. O índice industrial Stoxx 600, transversal a várias praças, perdeu hoje 11,48%, a sua pior sessão diária de sempre.

O PSI-20 foi dos índices que menos perderam, ainda assim, mas foi o seu segundo pior dia desde que há registo, encerrando nos 3805,92 pontos. Há 24 anos que o PSI-20 não se encontrava abaixo da barreira dos quatro mil pontos. 

Em Madrid, o Ibex-35 perdeu 14,06%, também a pior sessão de sempre; em Itália o FTSE MIB caiu 16,98%, um desempenho nunca visto antes; em Paris, o CAC-40 desvalorizou 12,28%, um novo recorde diário de queda; em Frankfurt, o Dax resvalou 12,24%, na pior sessão desde 1989; e em Londres, o FTSE-100 quebrou 10,87%. 

Na Europa, as perdas intensificaram-se depois de Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), ter anunciado que as medidas para contrariar o efeito negativo do novo coronavírus sobre as economias da zona euro passam por garantir empréstimos aos bancos a taxas de juro negativas (de modo a apoiar o crédito a pequenas e médias empresas) e pela compra de obrigações empresariais. 

O facto de o banco central europeu ter mantido a taxa de juro de referência inalterada desiludiu os investidores, que esperavam um estímulo económico mais forte, na linha das medidas já tomadas pela Reserva Federal dos EUA, a 3 de Março, e do Banco de Inglaterra, nesta quarta-feira. 

Juros da dívida sobem

Ao mesmo tempo que as bolsas registam perdas recorde, as taxas de juro da dívida pública nos países periféricos da zona euro sobem.

Em Portugal, a taxa de juro da dívida a 10 anos subia, às 17h desta quinta-feira, até aos 0,729%, quase o dobro da taxa de 0,376% registada no dia anterior. É necessário recuar até Maio do ano passado para encontrar um valor tão alto.

A evolução das taxas de juro portuguesas é ligeiramente menos favorável do que as de Espanha, que estão a subir de 0,266% para 0,51%.

No entanto, o país onde os mercados de dívida revelam maiores preocupações é claramente a Itália. A dívida a 10 anos italiana passou de uma uma taxa de juro de 1,186% na quarta-feira para valores já próximos de 1,8% e, pela primeira vez desde o início da crise financeira de 2008, acima da Grécia, que está nos 1,755%.

O BCE anunciou as suas medidas de combate à crise provocada pelo coronavírus e que incluem um reforço de 120 mil milhões de euros no programa de compra de activos até ao final do ano, incluindo dívida pública emitida pelos países da zona euro.

Nova Iorque a caminho de uma quinta-feira “negra"?

Em Wall Street, o dia está a ser igualmente desastroso. O índice S&P 500 chegou a cair abruptamente 7%, accionando uma suspensão automática após o arranque da negociação, retomada 15 minutos depois. A Reuters avança que o índice industrial Dow Jones poderá estar no caminho da pior sessão diária desde 1987. O índice desvalorizava a meio da sessão 6,30%.  

As bolsas de Nova Iorque afundaram esta quinta-feira para bear market (uma expressão que normalmente designa uma queda de 20% desde o último máximo), depois do presidente Donald Trump ter anunciado na noite de quarta-feira que, a partir desta sexta-feira, todas os viajantes da Europa (com excepção do Reino Unido) não terão entrada no espaço dos EUA.

Desde a “segunda-feira negra” de 1987, que na altura cortou um quinto do valor do Dow Jones (que afundou então 22,6%), que a bolsa nova-iorquina tem um sistema de interrupção da negociação a fim de refrear eventuais situações de pânico dos investidores, todas tendo como referência o índice S&P 500 (o número é referente ao montante de títulos que o índice agrega). A bolsa de títulos de Nova Iorque negoceia normalmente entre as 9h30 e a 16h00.  

Há três níveis de quedas que accionam estas paragens automáticas de negociação: uma desvalorização de 7%, uma queda de 13% e uma perda de 20%. Se as quedas de 7% e 13% ocorrerem antes das 15h25 da hora de Nova Iorque, a negociação é suspensa por 15 minutos. Se ocorrer nessa hora ou depois dela, a negociação continua normalmente. No caso de uma desvalorização de 20%, a suspensão de negociação é activada automaticamente, a qualquer hora do dia. 

Os três principais índices norte-americanos – o industrial Dow Jones, o tecnológico Nasdaq e o agregado S&P 500 já recuaram 24% desde o seu máximo intraday (durante a sessão) atingidos em Fevereiro último.

Surpreendido pela decisão de Donald Trump de restringir as viagens para os EUA, o mercado enfrenta ainda esta quinta-feira uma desvalorização de 6% do petróleo, com os contratos futuros de Brent - crude do mar do Norte que serve de referência para a economia portuguesa - a cair 6,4%, para 33,5 dólares, enquanto o West Texas Intermediate (WTI) caía 5%, para 31,32 dólares. 

Actualizado com fecho das praças europeias e meio da sessão de Wall Street

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