As sestas deixam-nos atordoados? A culpa está nos genes

Embora uma sesta possa certamente ajudar a compensar o sono insuficiente, a capacidade de alguém se sentir ou funcionar melhor pós-sesta depende da sua fisiologia — do quão receptivo o seu corpo está a um horário de sono menos consolidado.

As pessoas que dormem em média seis horas ou menos tendem a fazer "sestas habituais"
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As pessoas que dormem em média seis ou menos horas tendem a fazer "sestas habituais" The Creative Exchange/Unsplash

Toda a gente gosta de uma boa sesta de vez em quando, certo? Quer se passe pelas brasas durante um filme chato ou se repouse a cabeça na secretária durante cerca de 20 minutos para lutar contra a típica quebra da tarde, as sestas podem ser uma importante forma de nos sentirmos revitalizados.

Um estudo até mostrou que as sestas podem ser mais eficazes a melhorar o desempenho e a regular a memória do que a cafeína. O que, em teoria, parece maravilhoso. Não fosse o senão de que para muitas pessoas — eu incluída — as sestas fazem o oposto.

Quando durmo uma sesta, acordo como se estivesse com a ressaca do dia de Ano Novo. Demoro pelo menos 20 minutos para recuperar e nunca consigo observar nenhum dos benefícios descritos pela ciência. Nem mesmo quando cronometrei a minha sesta para que a mesma não excedesse os 30 minutos — o tempo que os especialistas indicam ser o benéfico — escapei à sensação de estar numa fase inicial de uma gripe (não estava).

Naturalmente, sempre tive um pouco de inveja das pessoas que fazem a sesta e acordam sentindo-se renascidas. Sou uma mulher saudável, jovem, sem filhos, que dorme regularmente sete a oito horas por noite — porque é que as sestas não funcionam comigo?

A resposta simples: alguns adultos são geneticamente predispostos a precisar de mais horas de sono contínuo do que outros (deixo as crianças fora disto porque, como corpos em crescimento, elas precisam naturalmente de mais tempo de sono). De acordo com um estudo do Instituto Nacional de Coração, Pulmões e Sangue (NHLBI, na sigla original),​ há pelo menos 80 genes envolvidos na regulação do sono, o que “sugere que a duração do sono pode ser influenciada por uma grande variedade de processos biológicos”.

Simplificando, as necessidades de duração do sono variam consideravelmente porque se baseiam num amplo espectro de diferenças genéticas.

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Hamza Bounaim/Unsplash

Os ritmos do sono

Trata-se apenas de ritmos naturais do sono. Quando se considera que um em cada três americanos dorme pouco, faz sentido que aproximadamente a mesma percentagem faça uma pequena sesta uma vez por dia, independentemente dos benefícios que possam ou não colher. É o corpo a tentar compensar o desequilíbrio para que possa continuar a ter um desempenho adequado.

"O sono é extremamente importante para o nosso bem-estar geral e, portanto, a perda do mesmo ou a sua má qualidade pode prejudicar significativamente a capacidade de funcionamento", observa Neomi Shah, chefe da divisão de Pneumologia, Cuidados Críticos e Medicina do Sono da Escola de Medicina de Icahn, no Hospital Monte Sinai, em Nova Iorque. “Uma soneca pode ser a coisa certa para superar qualquer perturbação transitória na quantidade e qualidade do sono.”

Considerando a omnipresença da privação do sono e dos distúrbios crónicos do sono na América, não surpreende que tenham sido publicados inúmeros estudos sobre os potenciais benefícios da sesta.

E, embora uma sesta possa certamente ajudar a compensar o sono insuficiente, a capacidade de alguém se sentir ou funcionar melhor pós-sesta depende da sua fisiologia — o quão receptivo o seu corpo está a um horário de sono menos consolidado.

As pessoas que dormem em média seis horas ou menos, por exemplo, tendem a fazer “sestas habituais” e parecem beneficiar mais com a sesta ocasional. Já as pessoas que não dormem uma sesta regularmente, como eu, conseguem adormecer e dormir bem, mas têm mostrado uma funcionalidade motora visivelmente mais lenta ao acordar de uma sesta.

Uma razão para isto tem a ver com a forma como a pressão homeostática do sono (HSP), que regula a intensidade do sono, se alinha com o ciclo circadiano, que regula o momento do sono. Quanto mais tempo estiver acordado, mais a pressão homeostática do sono aumenta, tornando-o mais entorpecido até adormecer, o que permite que a pressão caia.

“Se se faz regularmente uma sesta, consegue-se colocar essas duas forças [HSP e o ciclo circadiano] a um bom ritmo para que estejam bem equilibradas”, explica Rebecca Spencer, professora de ciências psicológicas e cerebrais da Universidade de Massachusetts Amherst. “O problema é que poucas pessoas dormem a sesta tão regularmente.”

Quando as pessoas dormem a sesta ocasionalmente, muitas vezes têm dificuldade em adormecer à noite, porque libertaram a HSP durante a sesta e, por isso, a vontade de dormir durante o período em que o corpo normalmente dorme diminui. Isto pode levar a distúrbios do sono, que podem então levar a uma sesta mais irregular — e, assim, nasce um ciclo de sono insalubre.

Se a sesta se tornar um padrão para as pessoas que não são capazes de dormir a sesta habitualmente, ela pode desviar o seu ritmo circadiano natural, o que influencia funções como a digestão e a temperatura corporal. É também por isso que nos sentimos desorientados e até mesmo doentes quando estamos com jet lag — o horário interno do qual o nosso corpo depende para funcionar bem foi alterado.

“Sabemos que, além da qualidade e quantidade do sono, a consolidação do sono é igualmente importante, pois garante que a arquitectura normal do sono seja alcançada, especialmente uma quantidade adequada de sono REM, que normalmente é mais vista na segunda metade de um segmento de sono de oito horas”, diz Shah.

Ter muito sono pode significar estar doente

Mas existem outros aspectos negativos da sesta que podem afectar qualquer pessoa, por mais receptiva que esta seja aos benefícios da mesma. Por exemplo, a sesta excessiva pode estar a mascarar uma doença grave.

“Num estudo, olhámos apenas para adultos jovens (idade média: 29 anos) e vimos que o aumento da sesta estava associado ao aumento da inflamação cerebral independentemente da idade, mesmo quando se leva em conta a duração do sono nocturno”, relata Spencer. O especialista observa que a explicação provável para a inflamação cerebral é que ela se correlaciona com o nível de proteína C reactiva no corpo, que causa o sono. Isto faz sentido uma vez que temos tendência a dormir mais quando estamos doentes.

A relação entre sonolência excessiva e inflamação também explicaria o número de problemas de saúde que têm sido ligados à sesta habitual, incluindo o aumento do risco de hipertensão, diabetes, depressão e declínio cognitivo — mas não só...

Portanto, se alguém se sente demasiado sonolento e estiver a dormir muitas sestas, provavelmente será uma boa ideia consultar um médico para descartar problemas de saúde mais sérios. O médico poderá, então, recomendar um especialista do sono como o Shah.

“A primeira coisa que faço com meus pacientes é obter um histórico de sono que inclua, tempo na cama, latência de início do sono (quanto tempo demora alguém a adormecer uma vez na cama), hora do despertar final, quantas vezes acorda após o início do sono”, explica Shah. “Procuro então sinais e sintomas de apneia do sono, tais como ronco, sonolência diurna, pausas na respiração geralmente relatadas pelo parceiro de cama, etc..”

Mas, se se sente rejuvenescido após uma boa sesta, não a deixe de fazer. Apenas não se vanglorie disso aos seus amigos que podem não ter tanta sorte.

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