Editorial

A Turquia e a chantagem com os refugiados

Já lá vai o tempo em que Ancara podia ser considerada como uma potência amiga.

As centenas de milhares de refugiados acantonados em campos turcos tinham já servido como fonte de receita para o brutal regime de Recep Erdogan; agora que a escalada do conflito na Síria ameaça chegar a uma guerra aberta entre os dois vizinhos, os refugiados tornaram-se objecto de chantagem. Ou há um maior empenho europeu nos combates na zona de Idlib, ou Ancara abrirá as fronteiras aos refugiados que, a troco de seis mil milhões de euros, tinha prometido manter fechadas.

No horror da Síria, a desumanidade desce assim ainda mais um nível abaixo do impensável. E a segurança da Europa fica assim ainda mais frágil e sem resposta.

Há neste cenário um contexto que a Europa (e os seus aliados da outra margem do Atlântico) tem de assumir em definitivo: já lá vai o tempo em que a Turquia, membro da NATO e outrora candidata a integrar a União Europeia, podia ser considerada como uma potência amiga. As barreiras construídas ao acesso à União foram-na afastando do Ocidente e a guerra na Síria, que as democracias cobardemente ignoraram, aproximou-a da Rússia.

No caso de perigos ou de ameaças vindas do caos político ou do horror humanitário, a Turquia só será um travão com um custo altíssimo. Um custo que a Europa não consegue pagar.

Participar no vespeiro sírio implica uma determinação, uma coragem e uma força militar que a Europa enlevada pelo seu estatuto de pomba não tem. Reuniões em Genebra, promessas de cessar-fogo, tweets de Donald Trump ou as boas palavras de António Guterres de nada servem numa guerra entre o ditador sanguinário da Síria, o exibicionismo russo em busca de um regresso ao passado imperial e o regime musculado de Ancara.

As ameaças e chantagens turcas são reais, vão proliferar e, para que não restem dúvidas, já começaram a acontecer.

A pressão migratória sobre a Grécia e a Bulgária está a resultar no que todos tememos: em instabilidade, em violência e em novos argumentos para a extrema-direita. O perigo que vem da Turquia é imenso, como imensa é exigência ética da Europa face aos milhões de vítimas da guerra e da perseguição.

Sabemos que é impossível abrir simplesmente a porta, mas sabemos também que não a podemos fechar por completo e esquecer que naquele drama humano há crianças, mulheres ou jovens com direito a uma vida decente. Já nos tínhamos esquecido da crise migratória de 2015, mas o mais dramático problema que a Europa enfrenta não morreu. Esteve sempre latente do outro lado das fronteiras turcas, como uma bomba ao retardador, pronta para ser lançada na primeira oportunidade.