Há milhares de pessoas nas praias turcas preparadas para rumarem à Grécia

Em terra, o Governo grego bloqueou entrada de quase dez mil pessoas. Em Lesbos, há relatos de ataques e violência após chegada de mais de 400 vindas da Turquia. Ameaça de Erdogan concretiza-se nas ilhas gregas.

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Duas das centenas de pessoas que chegaram na madrugada de domingo a Lesbos vindas da Turquia ALKIS KONSTANTINIDIS/Reuters

A Grécia bloqueou a entrada, desde sábado, de quase dez mil migrantes provenientes da Turquia, anunciou este domingo fonte governamental. Mas se na região de Evros, a fronteira terrestre, as autoridades impediram a passagem, recorrendo a medidas como lançamento de gás lacrimogéneo, nas ilhas o retrato é diferente: na noite de sábado para domingo chegaram a Lesbos pelo menos 400 pessoas em oito barcos, e 58 chegaram a Quios, segundo a televisão grega Skai.

Os recém-chegados dizem que há milhares de pessoas nas praias da Turquia a preparar-se para fazer a viagem. Às dez horas da manhã na Grécia “as estimativas das autoridades passaram de ‘são centenas’ a ‘temos um grande problema’”, conta a correspondente do jornal alemão de grande circulação Bild na Grécia, Liana Spyropoulou.

A Grécia estava já com um grave problema de sobrelotação dos campos de refugiados nas cinco ilhas mais perto da Turquia, com tendas a estender-se além dos campos que não têm já condições mínimas: as pessoas dormem entre ratos e escorpiões, a água que têm sai de perto de montanhas de lixo não recolhido, e há crianças a desenvolver problemas psicológicos de tal modo que deixam de andar, comer ou mesmo ir à casa de banho.

Alguns habitantes de Lesbos (cuja maioria da população salvou, recebeu e ajudou milhares de pessoas que chegavam todos os dias em 2015) juntaram-se este domingo de manhã junto a um porto da ilha e impediam algumas pessoas num barco de borracha vindo da Turquia - incluindo mulheres e crianças - de desembarcar, mostra o correspondente da revista alemã Der Spiegel Giorgos Christides ​num curto vídeo no Twitter. 

Havia ainda relatos de jornalistas e de um eurodeputado alemão dos Verdes de ataques a jornalistas ou voluntários de organizações de apoio a refugiados por parte de habitantes locais furiosos. Os protestos dos locais contra a construção de campos fechados foram, na semana passada, contrariados com acções violentas da polícia antimotim, que esgotaram os stocks de gás lacrimogéneo que tinham e protagonizaram violência gratuita, partindo com os bastões vidros dos carros dos manifestantes, por exemplo. O deputado do Parlamento Europeu Erik Marquardt, que está em Lesbos, diz que “a situação é muito tensa de momento - cada nova chegada pode ser a gota de água”.

A polícia e a guarda costeira gregas deverão pedir este domingo formalmente apoio à Frontex, a agência da União Europeia encarregada da segurança das fronteiras da Europa. O país argumenta que os refugiados não querem chegar à Grécia e sim a outros países europeus, e pede que os refugiados sejam redistribuídos por países da União Europeia. Estes mecanismos têm sido sempre bloqueados pelos países de Visegrado, que não querem receber refugiados.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que a prioridade da União Europeia é que Grécia e Bulgária tenham apoio e que Bruxelas está pronta a “dar apoio adicional incluindo através da Frontex na fronteira terrestre”.

Para Marquardt, o importante era acordar um mecanismo de redistribuição dos refugiados que estão nas ilhas gregas.

Desinformação na fronteira terrestre

Na campanha de desinformação que está a acontecer sobretudo em relação à fronteira terrestre, do lado turco diz-me que passaram mais de 75 mil pessoas, e do lado grego há rumores de que Ancara está a levar pessoas, incluindo saídas da prisão, para a fronteira com o objectivo de as fazer passar. “O nível de desinformação é enorme”, alertava no Twitter a jornalista do New York Times Matina Stevis-Gridneff, que estava na fronteira.

Enquanto isso, segundo a Organização Internacional das Migrações (OIM), havia na noite de sábado 13 mil pessoas junto à fronteira entre a Turquia e a Grécia, na expectativa de ainda a vir a passar, como tinha sido prometido pelas autoridades turcas.

O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ameaça deixar de controlar o movimento de refugiados (no âmbito de um acordo com a União Europeia) e no sábado anunciou que “abriu os portões”, dizendo que entre 25 mil a 30 mil pessoas deveriam tentar passar para a Grécia nestes dias.

A ameaça concretizou-se num momento em que a Turquia está cada vez mais envolvida no conflito sírio, com um impasse em Idlib, onde os rebeldes que Ancara apoia mantém um último reduto e onde as forças do regime de Bashar al-Assad têm vindo a avançar, tendo já provocado uma enorme crise humanitária, com mais de 900 mil pessoas deslocadas, mesmo ao lado da fronteira com a Turquia, que tem sido mantida fechada. A Turquia acolhe já 3,6 milhões de refugiados sírios e diz que não pode receber mais.