Editorial

Qual é o plano b de Merkel?

A sucessão de Merkel pode acabar com o cordão sanitário à extrema-direita na Alemanha e incentivar a que episódios como o de Hessen se repitam.

A fragilidade interna de Angela Merkel é o território onde cresce a extrema-direita. As críticas à chanceler alemã pelos resgates económicos, a abertura das fronteiras a imigrantes ou a refugiados são aproveitados por uma extrema-direita alemã que se afirma descaradamente a favor da saída do euro e da União Europeia, mas sobretudo anti-semita e islamofóbica, e que defende a expulsão de imigrantes e refugiados.

Com a chanceler e a Alemanha num estado de desorientação, a AfD tem vindo a obter protagonismo político e a aproximar-se dos centros de poder. Quando a elite política alemã, a CDU neste caso, quebra o cordão sanitário a este partido na Turíngia, cujo Tribunal Federal reconhece a pertinência de chamar fascista ao líder da AfD, está dado um passo em direcção ao abismo., que se traduz em ataques como o desta semana em Hessen, onde um atacante com intuitos xenófobos matou dez pessoas.

Por muito irónico que pareça, a Alemanha e a UE precisam mais de Merkel do que nunca. Não fora ela, teríamos pela primeira vez um Governo regional do país assente numa extrema-direita que não se envergonha de ser apodada de fascista, que se alimenta das cicatrizes e assimetrias da relação entre Leste e Oeste e de um profundo euroceptismo e da recusa de qualquer alteridade e cosmopolitismo. Outra ironia, o plano que Annegret Kramp-Karrenbauer (“AKK”), líder demissionária da CDU, não travou só foi travado por Merkel, a partir de Pretória. 

A AfD procura o reconhecimento e a legitimidade como um partido ao mesmo nível dos liberais, democratas-cristãos ou sociais-democratas. E só estes últimos estiveram à altura dos seus pergaminhos democráticos. A AfD cresce na medida exacta com que consegue erodir a confiança nos partidos a que nos habituamos chamar “tradicionais” e, a avaliar pelo que aconteceu na Turíngia, o mais natural é que a estratégia tenha tudo para resultar.

Qual é o plano b de Merkel agora que a solução “AKK” falhou? Merkel abandona funções em 2021 e o pior que poderia acontecer era um SPD cada mais enfraquecido e uma nova geração de dirigentes da CDU sem pejo em fazer acordos de governo com partidos que encarnam o que de pior representa a história alemã, se até o Holocausto começa a ser desvalorizado. O SPD foi a consciência ética da CDU e da coligação. A sucessão de Merkel pode acabar com o cordão sanitário e incentivar a que episódios como o de Hessen se repitam.