Comentário

O homem de negócios continua a dormitar

A Alemanha continua em hibernação, às voltas com o seu papel num mundo que deixou de reconhecer. O peso que tem na UE, onde dificilmente se decide alguma coisa contra a sua vontade, bloqueia qualquer tentativa de retirá-la do imobilismo.

1. “Se a Alemanha é o coração da Europa, então é um coração a bater devagar de um homem de negócios a dormitar no seu gabinete depois de um copioso almoço.” A frase é de Timothy Garton Ash, numa das suas habituais colunas de opinião no britânico Guardian. Data de finais de Novembro do ano passado, mas continua actual. “Para o bem da Europa e da própria Alemanha, este coração precisa de bater um pouco mais depressa.”  

Provavelmente, a súbita demissão da sucessora de Angela Merkel à frente da CDU e candidata a chanceler não chega para acelerar o ritmo cardíaco do nosso homem de negócios. A Alemanha continua em hibernação, às voltas com o seu papel num mundo que deixou de reconhecer. O peso que tem na União Europeia, onde dificilmente se decide alguma coisa contra a sua vontade, bloqueia qualquer tentativa de a retirar do imobilismo e a pôr a olhar para os seus problemas internos e, sobretudo, para os enormes desafios externos que enfrenta.

Mas a razão próxima da demissão de Annegrett Kramp-Karrenbauer (“AKK”) não deixa de ser reveladora da “indefinição” política em que o seu país mergulhou, provocada por muitas razões de ordem externa e interna e cristalizada pela entrada em cena de um partido de extrema-direita xenófobo e crítico da União Europeia. O dilema que hoje atravessa a CDU, e que levou à demissão de “AKK”, está na sua relação com a AfD – não a nível nacional, em que a questão não se põe, mas ao nível dos Länder, em particular nos do Leste, onde o novo partido tem uma expressão eleitoral difícil de contornar. Este dilema é a tradução mais simples de um debate mais complexo que atravessa o partido: entre os que acusam a chanceler de o ter “social-democratizado” e os que defendem que ele serviu bem os alemães nos últimos 14 anos, o tempo que Merkel leva na chancelaria, que estão hoje mais ricos, mais satisfeitos, mais contentes consigo próprios – como o homem de negócios a descansar depois de um bom almoço.

2. O problema é que é impossível olhar apenas para dentro. O mundo mudou tão rapidamente que o homem de negócios alemão arrisca-se a sofrer de repente uma crise de arritmia. Os dois pilares sobre os quais a República Federal foi construída e integrada na ordem democrática ocidental – a relação com os EUA, via NATO, e a relação com a França – estão em mutação.

Nos anos posteriores à reunificação, a Alemanha estava bem posicionada num mundo em que a economia era quase tudo. Hoje, esse mundo é muito mais complexo e muito menos seguro, exigindo outros meios de poder de que a Alemanha não dispõe e (ainda) não quer dispor. A pergunta é inevitável: pode continuar a depender dos EUA para garantir a sua segurança? A resposta nem sequer tem directamente que ver com Donald Trump. Outros presidentes antes dele e certamente depois dele não aceitam que um país tão rico como a Alemanha se dê ao luxo de recusar gastar 2% da sua riqueza com a defesa – a NATO fixou essa meta para todos os seus membros em 2024. É, um pouco, a mesma atitude com que encara a integração europeia e união monetária: as regras são definidas em Berlim, mas os riscos são partilhados por todos.

De Pequim a Washington, de Moscovo a Paris, a pergunta é igual: o que quer a Alemanha? E se, no mundo, o impacto da indecisão alemã se faz sentir moderadamente, na Europa tem um efeito muito mais negativo. O statu quo não é opção que os europeus possam manter por muito mais tempo.

3. As dúvidas quanto ao seu próprio modelo de desenvolvimento, até agora considerado “perfeito”, também se acumulam. Os mercados livres (a começar pelo Mercado Único) e a globalização eram o ambiente ideal para a máquina exportadora alemã. Hoje, graças ao proteccionismo americano, a um mercado chinês mais sofisticado, às preocupações ambientais e à menor necessidade das economias emergentes das máquinas que a Alemanha produz, esse modelo que tão bem lhe serviu começa a dar sinais de cansaço.

Um relativo atraso na digitalização da economia e uma capacidade inovadora longe de ser excepcional tornam o futuro bastante mais exigente. Finalmente, a velha Mitteleuropa, que sempre foi uma zona de influência da Alemanha e que se revelou fundamental à deslocalização das indústrias alemãs, atravessa um período de instabilidade e de incerteza: depende da Alemanha economicamente, mas critica o seu modelo liberal e aberto aos outros, acusando a chanceler de ter cortado com as raízes cristãs do seu partido. A saída do Reino Unido representa também um desafio. Por um lado, a Alemanha teme a concorrência mais forte de uma grande economia parcialmente liberta das regras europeias; por outro, Berlim perde um parceiro na defesa do livre comércio e da globalização. A saída de “AKK” é apenas um pequeno sobressalto.