Opinião

O perfil dos que não aprendem

A transformação de crianças em adultos aptos para o pleno uso das suas capacidades é um percurso que exige respostas adaptadas. Não existe nenhuma solução que sirva toda a população.

O que distingue o desenvolvimento do atraso é a aprendizagem, esta é a ideia basilar do perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória.

Num momento em que o abandono escolar se aproxima da média Europeia, os esforços devem concentra-se em garantir que os alunos estão na escola e aprendem. Urge combater o insucesso. Em Portugal existem 15.000 jovens que frequentam o ensino obrigatório durante dez anos e não aprendem quase nada, obtendo nível “1” simultaneamente a Matemática e a Leitura nos testes PISA (dados utilizados nesta análise). O PISA mede de que forma é que os alunos prestes a entrar na vida adulta conseguem resolver problemas mobilizando os conhecimentos adquiridos ao longo do seu percurso escolar.

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Embora o sucesso das aprendizagens esteja ligado ao estatuto socioeconómico e cultural das famílias (educação dos pais, qualidade do emprego, poder de compra, hábitos culturais), esta realidade pode atingir todas as classes sociais, incluindo 6% pertencente à classe social mais favorecida. Por outro lado, dentro da classe social mais desafortunada há 42% de alunos que atinge nível “3 “ou mais. Cada um destes alunos adquiriu competências para entrar no elevador social, tem capacidades que permitem manter as portas do futuro abertas.

Cada aluno traz consigo a sua família na componente socioeconómica e cultural, mas também as opções educacionais do passado e as emoções; traz a sua própria identidade e valores construídos ao longo dos seus 15 anos de vida; e está inserido numa escola partilhada com professores e colegas.

Os alunos que não aprendem, comparados com a média nacional, apresentam desvantagens em todas as dimensões:

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A família

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  • Menor tempo de pré-escolar, com início um ano letivo mais tarde, aos 4,5 anos;
  • Menor apoio às aprendizagens informais por parte dos pais durante o primeiro ciclo;
  • Menor apoio emocional por parte dos pais no presente, embora preocupados com as aprendizagens dos filhos.

Os próprios

  • Declaram ter apoio personalizado e “feedback” por parte dos professores;
  • Admitem que são malcomportados;
  • Sabem que são pouco resilientes no estudo;
  • Sentem pouca pertença à escola;
  • Declaram ter sido vítimas de bullying;
  • Não gostam de ler, pudera, não aprenderam.

A escola

  • 50% dos alunos difíceis concentram-se em 14% das escolas;
  • 83% destes alunos já repetiram pelo menos um ano, as escolas sinalizam bem;
  • Turmas mais pequenas (23,6 vs. 25,6 alunos);
  • Os diretores acusam falta de materiais pedagógicos e de colaboradores e reconhecem que os professores são dedicados;
  • Os diretores consideram que estes alunos se portam bastante mal.

Os alunos que não aprendem necessitam de colo e atenção em casa. Necessitam de programas de sensibilização das famílias, porventura antes do início da escolaridade obrigatória. Necessitam de ir mais cedo para o jardim infantil. Necessitam de programas que reduzam a desvantagem dos agregados familiares. Necessitam que a comunidade esteja atenta ao bullying. Necessitam de modelos para se comportarem melhor. Necessitam de não ser segregados em escolas estigmatizadas. Necessitam de aprender a ler para poder criar o gosto pelas histórias e pela criatividade. Necessitam que não desistam deles.

Os professores tentam dar um contributo positivo para que estes alunos continuem. Sempre os professores como o melhor ativo do sistema de educação.

As políticas públicas para uma educação inclusiva devem ser planeadas e desenhadas à medida das necessidades de cada grupo. O contexto atual é favorável. A tutela acolhe com agrado medidas no âmbito da autonomia e flexibilidade curricular e do desenho de estratégias que visem o sucesso das aprendizagens.

A transformação de crianças em adultos aptos para o pleno uso das suas capacidades é um percurso que exige respostas adaptadas. Cada escola deve estudar o perfil dos seus alunos e pensar programas que possam mitigar as dificuldades identificadas. Não existe nenhuma solução que sirva toda a população.

Não basta chumbá-los. Uma sociedade desenvolvida não se resigna com o atraso de uma grande fatia dos seus jovens, ajuda-os a aprender. Mantenhamos em mente que a missão da escola, e da comunidade que a envolve, é garantir que todos aprendem.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico