França bloqueada por uma greve geral contra mudanças nas pensões

Em Paris houve confrontos entre manifestantes e a polícia, mas em todo o país mais de 800 mil pessoas levaram o seu “não” ao Presidente Macron para as ruas. A greve nos transportes continua até segunda-feira. Pelo menos.

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"Mark ou morremos", diz a faixa dos manifestantes,"Mark ou morremos", diz a faixa dos manifestantes CHRISTOPHE PETIT TESSON/EPA,CHRISTOPHE PETIT TESSON/EPA
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Polícia detém manifestante em Paris,Polícia detém manifestante em Paris Gonzalo Fuentes/REUTERS,Gonzalo Fuentes/REUTERS
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Manifestante em Paris YOAN VALAT/EPA
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Polícia de choque avança no meio de muito gás lacrimogéneo IAN LANGSDON/EPA
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Retrato de Macron como o rei Luis XIV, na manifestação de Paris CHRISTOPHE PETIT TESSON/EPA

As ruas francesas encheram-se com as mais de 806 mil pessoas que esta quinta-feira foram para a rua protestar contra a prometida reforma do sistema de pensões do Governo de Emmanuel Macron. Os trabalhadores ferroviários e dos transportes públicos de Paris já anunciaram que vão continuar em greve até pelo menos segunda-feira e os professores seguiram-lhes os passos.

“Antecipo uma longa greve. Pus dinheiro de parte, guardei o décimo terceiro mês. Estou determinado”, disse Victor Brouk, ferroviário, ao Libération. “Passados dez ou doze dias, o Governo vai recuar. Os transportes são o oxigénio da economia. Temos de permanecer unidos”.

O recuo do Governo é a grande esperança e objectivo dos milhares de pessoas que saíram à rua por todo o país, uma vez que ainda não há uma lei - há apenas um relatório com recomendações orientadoras para a reforma. O primeiro-ministro, Edouard Philippe, deverá apresentar “a arquitectura geral da reforma” em meados da próxima semana, disse a porta-voz do Palácio do Eliseu.

O objectivo da greve é pressionar o Governo. Em Paris, onde decorreu a principal manifestação, a CGT contabilizou mais de 250 mil pessoas. Em Marselha estiveram mais de 25 mil pessoas, de acordo com números oficiais, enquanto os sindicatos apontam para 150 mil. Também houve protestos em Nantes, Rennes, Bordéus e noutras cidades, perfazendo um total de 70. 

Se o Ministério do Interior fala em 806 mil pessoas na rua numa centena de cidades, a contagem da CGT contrapõe um milhão e meio. “Foi uma mobilização muito forte, tanto no sector público como privado”, regozijou-se Philippe Martinez, secretário-geral da CGT. 

Os transportes públicos pararam na capital (11 das 16 linhas de metro estiveram encerradas), sete em oito depósitos de combustível a nível nacional foram bloqueados, escolas fechadas e 20% dos voos de e para França anulados. Só a Air France cancelou 30% dos voos internos e 10% dos voos de médio curso previstos para sexta-feira. 

Unidade nas fileiras

Nas fileiras parisienses estiveram bombeiros, professores, estudantes, “coletes amarelos”, sindicatos e partidos, mas também cerca de 500 elementos do “black bloc”, considerados violentos pelas autoridades. As ruas parisienses tornaram-se demasiado estreitas para tantas pessoas e a marcha demorou a arrancar do ponto de concentração, junto à Gare du Nord, em direcção à Praça da República.

Avançou tão devagar que acabou por se partir em três com trajectos distintos, a que se juntou uma tentativa da polícia em limitar a chegada de duas delas à Praça da República, onde cerca de 500 elementos do “black bloc" já se envolviam em confrontos esporádicos com a polícia de choque e queimavam caixotes do lixo, e até um camião de obras. De tempos a tempos, ouviam-se balas de borracha e disparos de granadas de gás lacrimogéneo, seguidas de cargas policiais e detenções.

A violência voltou ao final da tarde, já depois do fim da grande manifestação e agora nas proximidades da Praça da Nação, onde os “black bloc" e a polícia se envolveram em confrontos. O líder da França Insubmissa (esquerda radical), Jean-Luc Melénchon, criticou severamente o prefeito de Paris, responsável pela polícia. “O prefeito [Didier] Lallement mais uma vez organizou a desordem e a confusão”, criticou. “Mais uma vez, Paris é a única cidade com violência e uso maciço de gás lacrimogéneo”, declarou.

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"Não toquem na minha pensão", diz o cartaz Jean-Paul Pelissier/REUTERS

No total, as autoridades detiveram pelo menos 87 indivíduos, com 57 deles a ficarem em prisão preventiva, e mais de 11 mil pessoas foram identificadas. Mas a violência não foi suficiente para marcar o protesto, que foi sobretudo pacífico. 

A violência do “black bloc" já era esperada pelas autoridades e sindicatos, com os primeiros a destacarem mais de seis mil agentes para a capital, dispositivo semelhante ao direccionado contra os “coletes amarelos”, e os sindicatos a endurecerem as medidas de segurança para impedirem infiltrações e violência, como a que se viu no 1º de Maio.

A violência tornou-se comum nos protestos em França, onde os ânimos estão há meses ao flor da pele e o “black bloc" tem força significativa, e a repressão contra os “coletes amarelos” deu azo a um debate sobre violência policial, pois pelo menos 20 pessoas perderam um olho por causa de bolas de borracha disparadas pelos agentes. Receava-se que o medo da violência levasse muitas pessoas a ficar em casa, escreveu o Libération.

Sem casa por protestar

Não foi o caso de Adrian, de 20 anos e que perdeu o alojamento que o patrão lhe dava ao aderir à greve geral. “Actualmente, ganho 1105 euros, o que me dará uma reforma inferior a 500 euros. Além disso, como isto está, vou-me reformar aos 70/80 anos”, contou ao Le Fígaro. “Somos alojados pelo nosso patrão e fomos informados de que se entrássemos em greve não teríamos mais casa, por isso estamos na rua esta noite”.

Macron prometeu na campanha para as presidenciais transformar os 42 regimes especiais de pensões existentes em França num único, com regras iguais para todos os trabalhadores.

A reforma será calculada a partir do número de pontos obtido ao longo da carreira contributiva e não através do número de anos em que se contribuiu, segundo recomendações do relatório entregue em Julho por Jean-Paul Delevoye, alto-comissário para os pensionistas. Os pontos dependem dos rendimentos, mas não só. O nascimento de um filho, por exemplo, que pode penalizar a carreira dos pais, passará a valer pontos.

Funcionários públicos, trabalhadores dos caminhos-de-ferro, dos transportes públicos de Paris, advogados e outras classes sociais verão o seu regime de pensões agravar-se. Esta reforma atiçou os ânimos e aprofundou a incerteza no futuro de quem vive do seu salário, receando trabalhar mais anos por uma reforma menor.

Manter direitos

O descontentamento é tão profundo e alargado que 15% dos funcionários do Parlamento francês fizeram greve, algo inédito diz o Le Monde. E, segundo os números finais do dia, citados pelo Le Figaro, 26% dos trabalhadores da função pública fizeram greve, 32,8% se analisarmos apenas os serviços do Estado central. 

A greve não é apenas contra a prometida reforma de Macron, tem raízes mais profundas: a crescente desigualdade social, os baixos salários, a precariedade, o degradar dos serviços públicos. Os franceses, diz Franciella, de 44 anos, ao Le Monde, já não lutam por mais direitos sociais mas por manter os que conquistaram nas últimas décadas. E a greve, esperam, é o momento de inversão: “É um momento de bolha”. E a prova disso foi a união que se viu nas ruas. 

“Hoje [quinta-feira] é convergência. ‘Coletes Amarelos’, sindicatos, todos os trabalhadores! É o que andamos a pedir há um ano, mas é principalmente uma convergência que vem da base e que segue as centrais sindicais”, disse Karine, profissional de educação de 38 anos, ao Le Monde

Uma convergência que pode ser o rastilho para algo mais, pelo menos é o que desejam os manifestantes. Os ferroviários anunciaram a extensão da greve e, poucas horas depois, os professores garantiram que iam continuar em greve esta sexta-feira, apesar de o Ministério da Educação francês não ter recebido nenhum pré-aviso, escreveu o Le Monde