Edward Snowden: “A que devemos a nossa lealdade?”

A abertura da Web Summit foi oficializada pelo presidente da Câmara de Lisboa e pelo ministro da Economia. António Costa, pela primeira vez, não esteve presente.

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Edward Snowden, em directo de Moscovo Francisco Pereira
,2017 Web Summit
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O fundador da Web Summit, Paddy Cosgrave Francisco Pereira
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O presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, e Paddy Cosgrave Francisco Pereira
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A abertura oficial da Web Summit Francisco Pereira
,2018 Web Summit
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Edward Snowden Francisco Pereira
2017 Web Summit
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Fernando Medina e Pedro Siza Vieira Francisco Pereira
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Jaden Smith, activista ambiental e estrela da música e do grande ecrã Francisco Pereira
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O presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina Francisco Pereira

A Web Summit, uma das grandes conferências mundiais de tecnologia que se realiza em Portugal desde 2016, arranca esta segunda-feira. Em 2019, a cimeira contará com 24 palcos e centenas de oradores.

O formato é o mesmo dos últimos anos: juntar investigadores, cientistas, políticos, celebridades e presidentes de grandes (ou pequenas) empresas (e até alguns robôs) para falar sobre tecnologia, política e não só. Além do palco principal, no Altice Arena, há 23 palcos dedicados a temas específicos e mais de 1200 oradores convidados. As palestras são curtas – duram cerca de 20 minutos –, mas o objectivo é pôr a plateia a pensar.

O informático americano Edward Snowden, que expôs aquele que é o maior caso conhecido de invasão de privacidade, é o “cabeça de cartaz” na sessão de abertura da quarta edição da Web Summit em Lisboa, que arranca na tarde desta segunda-feira.

Hoje exilado na Rússia, Snowden revelou uma das facetas negras das tecnologias de informação quando, em 2013, expôs programas de cibervigilância em larga escala levados a cabo pelos EUA. Snowden trabalhava como um informático contratado na Agência Nacional de Segurança americana. Porém, decidiu voar para Hong Kong, levando consigo um acervo de documentos sobre as práticas de vigilância, e denunciar o caso à imprensa. Graças a Snowden ficou a saber-se que os EUA (e, por vezes, países seus aliados, como o Reino Unido) tinham capacidade para espiar comunicações (emails, SMS, chamadas) de cidadãos americanos e estrangeiros, recolher informação sobre o uso de redes sociais e o histórico de navegação, e armazenar esse conteúdo para consulta.

Snowden, a tecnologia e a vigilância

Na primeira ida ao palco, o fundador da Web Summit, ​Paddy Cosgrave começou por agradecer à polícia portuguesa que garante a segurança do evento e que revistou as mochilas à entrada. Depois, repetindo a coreografia de arranque da Web Summit, pediu aos milhares de pessoas na Altice Arena para se levantarem e se apresentarem às pessoas do lado.

Minutos depois, apresentou Edward Snowden: para muitos, disse Cosgrave, a definição do que “significa ser um whistleblower”. Com um fundo escuro atrás, em directo de Moscovo, Edward Snowden apareceu em dois ecrãs gigantes no palco central da Web Summit para uma entrevista sobre vigilância, espionagem e o poder que as tecnologias de informação dão aos países.

“Imaginem que trabalham para a CIA, que cumpriram as regras toda a vossa vida (…) No primeiro dia de trabalho na CIA fazem um juramento à Constituição. Anos mais tarde, percebem que estão a participar numa conspiração para violar esse mesmo juramento”, começa por contar Snowden. E levanta uma questão: “A que devemos a nossa verdadeira lealdade?”. A resposta: “Quando o Governo pode actuar atrás de portas (...), acredito que o público tem o direito de o saber”.

“A recolha de informação e a vigilância acontecia de forma completamente diferente”, afirmou Snowden, referindo-se aos tempos em que as autoridades vigiavam apenas “pessoas específicas”. “Em vez disso, começaram a observar toda a gente, em todo o lado, a toda a hora.”

Actualmente, ao nível tecnológico, assiste-se à criação de um novo “registo permanente”, mesmo antes de as pessoas infringirem a lei. Já ao nível democrático, nota Snowden, chegámos a um ponto em que “a lei, os tribunais e os nossos direitos não interessam porque o sistema os redefiniu”.

“Isto deixa-nos com uma questão com que ainda estamos a lidar”, notou o antigo informático. “O que se faz quando as mais poderosas instituições da sociedade são as menos responsabilizáveis da sociedade?”, questionou Snowden.

Numa altura em que a “fúria está a aumentar” e os problemas se desenvolvem no mundo, “as pessoas estão frequentemente zangadas com as pessoas certas pelas razões erradas”, sublinhou o antigo informático. Referindo-se a empresas como a Google, Amazon ou Facebook, Snowden acrescenta que muitas empresas e governos se aproveitam de um modelo de negócios “que é legal” para reunirem dados dos cidadãos, investigarem vidas privadas e manipularem a população. Um sistema “que torna a população vulnerável para benefício dos privilegiados”. “Legalizamos o abuso das pessoas”, notou.

“Os dados não são inofensivos nem abstractos quando se trata de pessoas (…) São as pessoas que estão a ser exploradas e manipuladas, não os dados”, referiu Edward Snowden. “Nós somos os únicos que nos podemos proteger e a única forma de proteger alguém é protegendo toda a gente”, concluiu.

Esta não é a primeira vez que a Web Summit serve de palco para debater algumas das facetas mais negras da tecnologia. No ano passado, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, já tinha apontado para os perigos das armas autónomas e para os problemas das desigualdades geradas pela tecnologia. Também o criador da Web, Tim Berners-Lee, tinha pedido mais responsabilidade aos programadores de software.

Ainda esta tarde a Web Summit contou com uma apresentação de Guo Ping, um dos vice-presidentes da Huawei, sobre o futuro da tecnológica e das novas redes 5G num ano em que os EUA têm tentado convencer os seus aliados, incluindo Portugal, dos riscos do equipamento da gigante chinesa com base em receios de espionagem. A abertura da Web Summit foi depois oficializada pelo presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, e pelo ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, acompanhados de Paddy Cosgrave. António Costa, pela primeira vez, não esteve presente.

70.469 pessoas, de 163 países

A organização da grande conferência tecnológica de Lisboa divulgou as primeiras estatísticas para a edição 2019 e a presença feminina volta a crescer, para 46,3%, num ano em que o número total de presenças também bate um novo recorde.

A partir desta segunda-feira e até quinta-feira, 70.469 pessoas, de 163 países, vão passar pela Altice Arena, onde está o palco principal, e pela FIL, que recebe os palcos secundários e as conferências temáticas. Reino Unido, Alemanha, Brasil e Estados Unidos são quatro dos países mais representados.

Para a cobertura da conferência há, este ano, 2526 jornalistas credenciados, 2150 empresas startup nas áreas de exposição, 1221 investidores e 239 empresas que são parceiros da organização.

Falta de acessibilidade em 2019

À porta da Web Summit, esta segunda-feira, as filas eram menos que o habitual, com muitos participantes a optarem por fazer a acreditação já no aeroporto. Só às 16h30 — meia hora antes da abertura oficial — é que a zona em frente ao centro comercial Vasco da Gama começou a ficar mais agitada, com participantes, executivos, e investidores a dirigem-se apressadamente para a entrada na espera de conseguir um lugar. Mas para alguns caminhar os cerca de 650 metros entre o centro comercial Vasco da Gama e a entrada da Web Summit não é fácil.

“O processo de acreditação foi fantástico, mas estou muito desiludida com os acessos para pessoas com deficiência. Tivemos de deixar o carro longe, não há forma de chegar à entrada que não seja a andar, e não há opções”, queixa-se ao PÚBLICO Marion van Leeuwen, 52 anos, sentada num banco em frente ao centro comercial. O cancro na mama, que se espalhou até à espinal medula, impede-lhe de andar grandes distâncias. “Custa-me muito andar. Achava que seria mais fácil. É uma grande pena. E ninguém nos sabe dar informações. Dizem que podíamos ter deixado o carro mais perto, mas não explicam onde. Hoje ficou no centro comercial”, continua.

Natural de Amesterdão, van Leeuwen veio a Lisboa para acompanhar o marido — presidente executivo de uma startup de criação e gestão de grandes bases de dados — na busca por investidores. “Uma boa ideia era ter carrinhos, como no aeroporto, para ajudar pessoas com dificuldade a chegar perto da entrada”, sugere van Leeuwen. “Queria muito assistir à sessão de abertura, mas não sei se vou conseguir.” Contactada pela PÚBLICO, a equipa da Web Summit não conseguiu dar informações sobre os planos da feira para assegurar os acessos para pessoas com deficiência.

Conhecer as pessoas certas

“É a quinta vez que cá estou. A Web Summit é uma oportunidade fantástica para conhecer as pessoas certas”, diz, por sua vez, ao PÚBLICO Majeed Al Majid, 30 anos, um executivo do Conselho de Desenvolvimento Económico do Bahrain, à saída do centro comercial Vasco da Gama. Já veterano da feira, fez a acreditação no aeroporto, aproveitando os últimos momentos antes da abertura para um gelado. “Todos os anos é uma experiência diferente e conhecemos pessoas novas. O grande objectivo é encontrar startups que estejam interessadas em mudar-se ou expandir para o Bahrain”, acrescenta Al Majid.

Notando que a sua “pior experiência foi o primeiro ano”, o executivo sublinha que “as edições em Lisboa têm permitido conhecer as pessoas certas – em parte porque vêm mais”. As primeiras edições da conferência tecnológica – entre 2009 e 2016 – realizaram-se na capital irlandesa. Foi em Lisboa que a Web Summit encontrou mais apoios públicos e condições para receber mais participantes do que na capital irlandesa, Dublin, onde os últimos eventos realizados ficaram marcados por vários problemas ao nível dos transportes.

À entrada da feira, o nome de Edward Snowden é o que mais visitantes repetem na hora de mencionar oradores que querem ouvir. Ronaldinho é outro. Seguem-se, depois, nomes de empresas – como a Amazon, o Google, ou a Microsoft –, cujas estratégias interessam aos participantes da feira.

“Estou particularmente interessado em ouvir o responsável pela tecnologia da Amazon. Acho que a empresa está num período complicado e quero saber qual é a estratégia de uma grande empresa nestes casos”, partilha Roman Lozynskyy, 36 anos, que está a participar na feira pela primeira vez. Veio apresentar a VisionLab, uma startup que desenvolve experiências em realidade aumentada para empresas. 

Até agora, a única queixa de Lozynskyy é a falta de apoio, em inglês, nos transportes públicos. “Comprar o bilhete certo para o metro foi complicado. As pessoas que apanhei ontem falavam muito pouco inglês e não me conseguiam explicar a diferença entre os vários bilhetes”, partilha o ucraniano. “No final ajudaram-me a apanhar o metro, mas ainda não percebi o que devo fazer para a próxima.”

Na entrada estavam também reunidos vários voluntários (portugueses e estrangeiros) para ajudar os mais de 70 mil participantes a orientarem-se no espaço da feira. Este ano, porém, os voluntários não estão autorizados a prestar declarações à comunicação social. Em edições anteriores, os testemunhos dos jovens e adultos que dedicam parte do seu tempo a ajudar na organização da feira inspirou várias reportagens. O programa de voluntariado da Web Summit é usado por muitos jovens para participar no evento, em troca de trabalho gratuito. Em 2019, os voluntários da Web Summit podem render até 115 mil euros à organização da conferência tecnológica, segundo uma tabela de preços do evento a que o PÚBLICO teve acesso.

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