Opinião

“Não são 30 pesos. São 30 anos!”

Um pouco por todo o mundo, têm sido os jovens a tomar a dianteira nos protestos contra os problemas do nosso tempo.

30 pesos chilenos – menos de oito cêntimos – foi o valor do aumento do preço do bilhete de metro que despoletou a onda de protesto no Chile no passado dia 18. O governo respondeu: “São só 30 pesos.” Mas os chilenos retorquiram, em massa e nas ruas: “Não são 30 pesos. São 30 anos!” Os protestos no Chile não são um caso isolado. Nas últimas semanas, milhões de manifestantes saíram à rua um pouco por todo o mundo. Em Hong Kong, Londres, Barcelona, Beirute, Cairo, milhões manifestaram-se contra o sistema de poder instituído. Quase sempre com a ajuda das redes sociais. Muitas vezes com violência. É a maior onda global de protesto desde a que levou à queda do Muro de Berlim em 1989. Nestes 30 anos, centenas de milhões saíram da pobreza. Mas muitos mais sentiram ficar para trás em sociedades cada vez mais desiguais.

A desigualdade corrói as fundações da sociedade. Transforma comunidades coesas em territórios segregados. Divide populações entre aqueles que têm um emprego para a vida e os resignados a uma vida de precariedade. Separa gerações, roubando aos mais jovens a esperança de um futuro melhor do que o dos seus pais e dos seus avós. O aumento de 30 pesos no metro de Santiago foi, deste ponto de vista, apenas a gota de água que fez transbordar um copo há muito cheio. O Chile é, convém não esquecer, a décima sociedade mais desigual do mundo.

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Mas se há uma coisa que salta à vista é que não há uma causa comum a estes protestos. Não existe tão pouco uma agenda comum. Sim, estes protestos coincidem no tempo e muitos deles partilham símbolos e estratégias. Mas a verdade é que a presente onda global de protesto é, no fundamental, uma onda sem história. Pelo menos, não existe uma narrativa coerente que a sustente. Uma grande narrativa de que faça parte e lhe dê sentido. Uma grande narrativa como as ideologias que, ao longo dos séculos XIX e XX, ajudaram a animar o movimento abolicionista, o movimento dos trabalhadores, as sufragistas, o movimento pelos direitos civis, os movimentos de libertação nacional, entre tantos outros. Por mais paradoxal que possa parecer à primeira vista, esta ausência é um sinal dos nossos tempos. Vivemos em sociedades “líquidas”, sem estabilidade nem raízes profundas. Vivemos em nódulos de uma rede global, em que a competição por um local de trabalho há muito que deixou de ser local para ser global. Vivemos num mundo em que a esperança no progresso foi substituída por um futuro que se confunde, tantas vezes, com a distopia e a catástrofe. Esta incerteza, esta competição desenfreada, esta falta de esperança num futuro melhor – quem mais sofre com elas? A resposta a esta pergunta leva-nos ao cerne do que está aqui em causa.

Com efeito, se olharmos com atenção, há um denominador comum a todos estes movimentos de revolta e protesto – são quase sempre jovens que estão na linha da frente.

Foram jovens, como a sueca Greta Thunberg, que se tornaram na face mais visível de um problema que nos afeta a todos – as alterações climáticas. Mas, na esmagadora maioria dos casos, são jovens anónimos que estão na linha da frente. São jovens anónimos, muitas vezes Anonymous, que estão a lutar pela democracia e pelos direitos humanos nas ruas de Hong Kong. No Líbano, quem primeiro saiu à rua para protestar contra o governo de Hariri foram jovens: duas semanas depois, o governo caiu. O mesmo se passa nas Américas, onde, para além do Chile, o Equador e o Haiti têm sido palco de protestos, muitas vezes violentos. Um pouco por todo o mundo, têm sido os jovens a tomar a dianteira nos protestos contra os problemas do nosso tempo.

São problemas que afetam todas as gerações. Donde que nem todos os manifestantes sejam jovens. Mas são os jovens quem mais têm a perder e quem mais sente estar a ser prejudicado pelas mudanças dos últimos 30 anos.

Portugal tem-se mantido à margem desta onda global de protesto. Mas os jovens portugueses têm tantas razões de queixa como os outros. É certo que é difícil mobilizar os mais novos para as formas tradicionais de participação política: votar, assinar petições, filiar-se em partidos políticos. É assim em Portugal, como em qualquer outra democracia consolidada. Isto não significa que os jovens estejam necessariamente alheados da coisa pública. Significa apenas que, como qualquer nova geração, esta ainda está a criar o seu próprio repertório de instrumentos de intervenção política. A voz desta nova geração já se está a fazer ouvir, porém. Por vezes, com recurso a soluções clássicas de protesto, noutras de forma inovadora. Por exemplo, quem diria que o lema de Bruce Lee – “be water, my friend” – viria a transformar-se numa estratégia eficaz contra a repressão policial no mesmo palco – Hong Kong – que o transformou numa lenda do cinema de ação? Seria, portanto, um erro ver na ausência de uma grande narrativa um sinal de taticismo.

Pelo contrário, eu diria, esta é justamente uma das grandes inovações que esta nova geração tem para nos dar. A recusa de jogar com narrativas herdadas do passado é sinal de que querem escrever o seu próprio destino. A julgar pela onda de protestos atual, estão dispostos a ir até às últimas consequências para fazê-lo. Mas, para a maioria de nós, cuidar do ambiente, combater a desigualdade, voltar a ter esperança no futuro são causas pelas quais vale a pena lutar; não há aqui qualquer razão para uma divisão geracional. É certo que há obstáculos pela frente. Por exemplo, entre nós, urge fortalecer os princípios de justiça inter-geracional de modo a evitar que o nosso Estado Social continue a beneficiar desproporcionalmente as gerações mais velhas – em prejuízo das mais novas, e da própria sustentabilidade do sistema como um todo. Este, como tantos outros, são problemas que nos afetam a todos. Ainda que sejam os jovens quem parece estar a tomar a dianteira em resolvê-los.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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